Psicologia na Prática · Saúde mental

Trauma emocional: o que ele faz no cérebro e no corpo, e como começar a curar

O trauma não é só o que aconteceu com você. É o que ficou dentro de você depois. A psicóloga Alana Anijar explica o que a ciência sabe sobre essas feridas e quais caminhos ajudam a cicatrizá-las.

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Alana Anijar 20 de outubro de 2026 14 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática de olhos fechados, com a mão no peito e uma rachadura antiga sendo preenchida por costuras douradas de onde brotam pequenas folhas

Tem gente que reage com uma intensidade que nem ela mesma entende. Um tom de voz mais seco, uma mensagem sem resposta, uma crítica pequena, e o corpo inteiro entra em alerta. Tem gente que não lembra de nada "grave" na própria história e, mesmo assim, carrega uma sensação constante de não estar segura, de precisar agradar, de ter que dar conta de tudo sozinha.

Muitas vezes, o nome disso é trauma emocional. E ele não precisa ter vindo de uma tragédia para deixar marca.

No episódio "Como o trauma nos afeta e como podemos curá-lo", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, parte de uma ideia simples: a palavra trauma vem do grego e significa ferida. Todos nós temos algumas. Umas são mais profundas, outras cicatrizaram melhor, mas todas influenciam o jeito como a gente enxerga o mundo, se relaciona e toma decisões.

Neste artigo, você vai entender o que a ciência diz sobre o trauma, o que ele muda no cérebro e no corpo e quais são os caminhos que ajudam a curar essas feridas.

Sente que algo do passado ainda comanda as suas reações? Entender o trauma é o primeiro passo. Tratá-lo, com segurança e no seu ritmo, é o trabalho que a terapia faz.

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O que é trauma, segundo a ciência

A forma como a ciência entende o trauma mudou bastante nas últimas décadas, com o avanço da neurociência, da psicologia e da psiquiatria. Hoje, o trauma é visto como uma resposta psicofisiológica a eventos estressantes, ameaçadores e, às vezes, avassaladores, que ultrapassam a capacidade da pessoa de lidar com a situação no momento em que ela acontece.

Repare no detalhe: o trauma não é só o evento. É a resposta do organismo ao evento.

O que diz a pesquisa

O DSM-5, manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, define como evento traumático a exposição a morte, ferimento grave ou violência sexual, reais ou ameaçados. Essa exposição pode ser direta, como testemunha, ao saber que aconteceu com alguém próximo ou pelo contato repetido com detalhes dolorosos, como acontece com profissionais de resgate.

Essa é a definição usada para diagnosticar o transtorno de estresse pós-traumático. Ela descreve os eventos mais extremos. Mas Alana chama atenção para o fato de que a vida emocional é mais ampla do que um critério diagnóstico.

O trauma não é só aquilo que aconteceu com você. É o que ficou dentro de você depois dessa experiência.

Trauma com T maiúsculo e com t minúsculo

No episódio, Alana cita o livro O mito do normal, do médico húngaro-canadense Gabor Maté, escrito com o filho, Daniel Maté. Ela faz uma ressalva honesta: algumas ideias do autor, como a ligação entre trauma e doenças físicas, ainda não têm estudos robustos por trás. Mas a forma como ele descreve o trauma ajuda muita gente a se reconhecer.

Maté diferencia dois tipos:

  • Trauma com T maiúsculo: os eventos grandes e violentos, que qualquer pessoa reconheceria como traumáticos. Abuso, acidente, guerra, violência.
  • Trauma com t minúsculo: as feridas menores e repetidas. A crítica dura e constante de um pai bem-intencionado, o bullying na escola, a falta de conexão emocional com os adultos que cuidavam de você.

O segundo tipo é o que mais passa despercebido. A pessoa olha para trás, não encontra nenhuma tragédia e conclui que não tem motivo para sofrer. Só que, para Maté, são justamente as nossas feridas e o jeito como aprendemos a lidar com elas que moldam os comportamentos, as relações e até a saúde.

Se você reconhece na sua história a falta de acolhimento mais do que um grande evento, vale ler também sobre os sinais de negligência emocional na infância e sobre a criança interior ferida e como conseguir na vida adulta o que faltou na infância, outro episódio do podcast que aprofunda essa parte.

Agudo, crônico, complexo e do desenvolvimento

Pesquisadores também diferenciam o trauma pela duração, pela intensidade e pelo impacto. Alana apresenta quatro tipos:

  1. Trauma agudo: vem de um evento único e intenso, como um acidente, um assalto ou um desastre natural, como as enchentes no Rio Grande do Sul.
  2. Trauma crônico: nasce da exposição repetida a situações traumáticas. Uma criança que cresce em meio a abuso, negligência, violência ou bullying.
  3. Trauma complexo: resulta da exposição prolongada a vários eventos traumáticos diferentes.
  4. Trauma do desenvolvimento: ligado a experiências adversas na infância que afetam a formação do cérebro e da personalidade.

E aqui entra um ponto que a Terapia Cognitivo-Comportamental conhece bem: duas pessoas podem passar pelo mesmo evento e sair dele de jeitos muito diferentes. Um divórcio dos pais ou o fim de um relacionamento pode ser doloroso para uma e traumático para outra, dependendo de como cada uma interpretou o que aconteceu, dos recursos que tinha naquele momento e das inseguranças que aquilo despertou.

O que o trauma faz no cérebro e no corpo

O trauma muda a forma como o sistema nervoso reage ao mundo. Alana descreve quatro efeitos principais:

  • A amígdala fica mais reativa. É a região que detecta perigo. Depois de um trauma, ela passa a ficar em alerta, pronta para reagir, mesmo quando o perigo não está ali.
  • O hipocampo pode ficar comprometido. Ele organiza as memórias no tempo. Quando falha, algumas lembranças traumáticas ficam "soltas", como se ainda estivessem acontecendo agora.
  • O córtex pré-frontal perde força. É a área que ajuda a tomar decisões e regular emoções. Por isso fica tão difícil pensar com clareza em momentos de estresse.
  • O sistema nervoso autônomo fica preso em luta, fuga ou congelamento. O corpo não consegue relaxar nem se recuperar.
O que diz a pesquisa

Uma revisão de Lisa Shin, Scott Rauch e Roger Pitman, publicada em 2006 nos Annals of the New York Academy of Sciences, reuniu dez anos de estudos de neuroimagem em pessoas com estresse pós-traumático. O padrão encontrado: amígdala mais responsiva (quanto maior a resposta, mais intensos os sintomas), córtex pré-frontal medial menos ativo e hipocampo com volume e funcionamento reduzidos.

O psiquiatra Bessel van der Kolk, autor de O corpo guarda as marcas, vai além e mostra como o trauma também se manifesta no corpo. Ele observou que muitas pessoas com dores crônicas, tensão muscular, problemas digestivos ou doenças autoimunes tinham traumas não resolvidos na história. Alana ressalta que essa ligação ainda precisa de mais estudos, mas são pistas importantes.

Entender esse mecanismo tira um peso enorme. A reação exagerada, o alerta constante, a dificuldade de relaxar não são frescura nem fraqueza. São um sistema nervoso que aprendeu a se proteger e ainda não recebeu a informação de que o perigo passou.

A reação desproporcional não é fraqueza. É um sistema nervoso que aprendeu a se proteger e ainda não sabe que o perigo passou.

Por que a infância pesa tanto

Gabor Maté defende que a forma como fomos criados tem um impacto enorme na saúde mental e física. A visão dele é muito influenciada pela teoria do apego e pela ideia de necessidades emocionais básicas.

Quando uma criança não recebe aceitação, validação emocional e segurança, o sistema nervoso dela se adapta. Ela desenvolve padrões de defesa e de isolamento que, mais tarde, podem aparecer como ansiedade, depressão e outros comportamentos que fazem sofrer.

Maté também critica a forma como a sociedade moderna, focada em produtividade e individualismo, isola as famílias. Muitas crianças crescem com um pai e uma mãe sobrecarregados, longe de uma rede maior de apoio, e acabam sem o suporte emocional de que precisariam.

O que diz a pesquisa

O estudo ACE (Adverse Childhood Experiences), de Vincent Felitti e colegas, publicado em 1998 no American Journal of Preventive Medicine, acompanhou mais de 9.500 adultos. Mais da metade relatou pelo menos uma experiência adversa na infância. E quanto mais experiências desse tipo, maior o risco na vida adulta: quem viveu quatro ou mais tinha de 4 a 12 vezes mais risco de depressão, alcoolismo, abuso de drogas e tentativa de suicídio.

Você não precisa entender sozinha de onde vêm as suas feridas. Uma psicóloga ajuda a olhar para a sua história com cuidado, sem pressa e sem se perder nela.

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Cinco caminhos para curar um trauma emocional

Alana é direta: o caminho de cura não é fácil nem rápido, e em muitos casos vai precisar de ajuda profissional. Mas existe caminho. Seguindo a perspectiva de Maté, a cura passa por autoconhecimento, reconexão emocional e segurança nas relações. No episódio, ela organiza esse processo em cinco frentes.

1. Autenticidade em vez de aceitação a qualquer preço

Para ser aceitos, muitas vezes abrimos mão de quem somos. Isso começa cedo: a criança aprende a moldar o comportamento para agradar os pais, os professores, os amigos. Com o tempo, vai se desconectando da própria essência e passa a se definir pelas expectativas dos outros.

Parte da cura é reaprender a ser quem você é sem tanto medo de rejeição, reconstruindo uma identidade baseada em quem você é de verdade, e não na necessidade de aprovação. Se isso aparece na sua vida como dificuldade de dizer não, leia sobre o medo de desagradar as pessoas.

2. Regular o sistema nervoso

Se o trauma deixa o corpo em alerta constante, a cura também passa pelo corpo. É preciso ensinar o sistema nervoso a sair do estado de luta ou fuga e voltar a sentir segurança. As práticas que Alana mais recomenda são o mindfulness e a respiração diafragmática, além do relaxamento muscular progressivo, usado na TCC para soltar as tensões do corpo.

O que diz a pesquisa

Uma meta-análise de Tanya Hopwood e Nicola Schutte, publicada em 2017 na Clinical Psychology Review, reuniu 18 estudos e encontrou redução moderada dos sintomas de estresse pós-traumático com intervenções baseadas em mindfulness. Quanto mais longa a prática, maior a melhora.

Já um ensaio de Xiao Ma e colegas, publicado em 2017 na Frontiers in Psychology, mostrou que oito semanas de treino de respiração diafragmática reduziram o afeto negativo e os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. A amostra foi pequena, de 40 adultos saudáveis, então o resultado ainda é preliminar.

Para começar com algo concreto, o artigo sobre o kit de emergência emocional traz um passo a passo de respiração que acalma o corpo em poucos minutos.

3. Encontrar segurança nas relações

Esta é a parte que Alana mais gosta da visão de Maté: como o trauma geralmente se forma nas relações, muitas vezes ele também precisa ser curado nelas. Ter um espaço seguro, onde você consegue expressar o que sente e mostrar suas vulnerabilidades, é essencial para a recuperação.

Esse espaço pode ser a terapia individual, um grupo de apoio, uma terapia em grupo. E também pode ser uma amizade, um relacionamento amoroso, um familiar. Uma relação em que a pessoa se sente compreendida e aceita pode ser um dos elementos mais transformadores da cura, porque ajuda o cérebro a reconfigurar os padrões de medo e de defesa.

O que diz a pesquisa

A meta-análise de Chris Brewin, Bernice Andrews e John Valentine, publicada em 2000 no Journal of Consulting and Clinical Psychology, comparou os fatores de risco para o estresse pós-traumático em adultos expostos a trauma. Os fatores de depois do evento pesaram mais do que os de antes, e a falta de apoio social esteve entre os mais fortes.

Como o trauma geralmente se forma nas relações, muitas vezes ele também precisa ser curado nelas.

4. Ressignificar a experiência

Trabalhar o trauma não significa esquecer o que aconteceu, nem ficar grato por aquilo, nem desejar que tivesse acontecido. Significa mudar a forma como essa experiência é guardada e interpretada pelo cérebro.

Na TCC, isso se faz pela reestruturação de pensamentos e de crenças. O objetivo é diminuir o impacto emocional dos gatilhos e permitir que a pessoa reconheça que o passado não precisa definir o presente, construindo narrativas internas mais saudáveis. Se você quer entender como os pensamentos distorcidos aumentam o sofrimento, veja o artigo sobre distorções cognitivas.

5. Reconectar com o prazer

Muitas pessoas que passaram por traumas vivem em estado constante de defesa. A vida vira sobrevivência, e não bem-estar. Um passo importante da cura é reaprender a sentir alegria, prazer e segurança no momento presente.

Atividades que trazem satisfação ajudam nisso: arte, música, natureza, espiritualidade, exercício físico. Não como distração, mas como forma de lembrar ao corpo que a vida também pode ser boa.

Onde a terapia entra

Alana fecha o episódio com uma imagem forte. O trauma é como uma ferida que nunca cicatrizou totalmente. Às vezes, ela cria camadas endurecidas ao redor, que podem até perder a sensibilidade. Essas camadas são as defesas: a gente fecha o coração, assume responsabilidades que não são nossas, foge de qualquer responsabilidade, tenta se anestesiar.

A boa notícia é que feridas podem ser curadas. Se o trauma fosse apenas o que aconteceu no passado, não haveria nada a fazer. Mas ele também é o que carregamos hoje, e isso pode ser cuidado aqui e agora.

A terapia oferece exatamente o que a cura pede: uma relação segura, um ritmo respeitoso e técnicas com evidência. As diretrizes da Associação Americana de Psicologia para o tratamento do estresse pós-traumático recomendam fortemente abordagens da Terapia Cognitivo-Comportamental, como a terapia de processamento cognitivo e a exposição prolongada. E, mesmo quando não há um diagnóstico, olhar para as feridas com uma profissional ajuda a entender de onde vêm as suas reações e a construir outras formas de responder à vida. Se quiser saber o que muda por dentro nesse processo, leia o que a terapia faz no cérebro.

O que importa não é só o que aconteceu com você. É o que você vai fazer daqui para frente.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Critério A do transtorno de estresse pós-traumático.
  2. Maté, G., & Maté, D. (2022). The Myth of Normal: Trauma, Illness, and Healing in a Toxic Culture. Avery. Edição em português: O mito do normal.
  3. van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score. Viking. Edição brasileira: O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Sextante, 2020.
  4. Shin, L. M., Rauch, S. L., & Pitman, R. K. (2006). Amygdala, medial prefrontal cortex, and hippocampal function in PTSD. Annals of the New York Academy of Sciences, 1071, 67-79. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16891563
  5. Felitti, V. J., Anda, R. F., Nordenberg, D., et al. (1998). Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults: The Adverse Childhood Experiences (ACE) Study. American Journal of Preventive Medicine, 14(4), 245-258. doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8
  6. Hopwood, T. L., & Schutte, N. S. (2017). A meta-analytic investigation of the impact of mindfulness-based interventions on post traumatic stress. Clinical Psychology Review, 57, 12-20. doi.org/10.1016/j.cpr.2017.08.002
  7. Ma, X., Yue, Z.-Q., Gong, Z.-Q., et al. (2017). The effect of diaphragmatic breathing on attention, negative affect and stress in healthy adults. Frontiers in Psychology, 8, 874. doi.org/10.3389/fpsyg.2017.00874
  8. Brewin, C. R., Andrews, B., & Valentine, J. D. (2000). Meta-analysis of risk factors for posttraumatic stress disorder in trauma-exposed adults. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 68(5), 748-766. doi.org/10.1037/0022-006X.68.5.748
  9. American Psychological Association. (2017). Clinical Practice Guideline for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder (PTSD) in Adults. apa.org/ptsd-guideline

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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