Criança interior ferida: como conseguir na vida adulta o que te faltou na infância
A "criança interior" virou clichê de internet, mas tem base clínica. A psicóloga Alana Anijar usa a terapia do esquema para explicar por que as faltas da infância seguem mandando na vida adulta, e ensina quatro passos para dar a si mesma o que não veio.
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Você se cobra de um jeito que não cobraria de ninguém. Não consegue deitar no sofá num sábado sem sentir culpa. Espera bronca quando erra, mesmo de quem nunca te deu uma. Ou fica com raiva desproporcional quando se sente deixada de lado, e depois não entende de onde veio aquilo.
Esses padrões costumam ter endereço, e o endereço é a infância.
No episódio "Como conseguir na vida adulta o que te faltou na infância", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar pega uma ideia que circula muito por aí, a da "criança interior ferida", e a coloca no lugar certo: dentro da terapia do esquema, uma abordagem com pesquisa por trás, que explica o que essa criança é, por que ela aparece e, principalmente, o que um adulto pode fazer para cuidar dela.
Neste artigo, organizamos as seis necessidades emocionais que toda criança tem, os três modos em que a criança ferida se manifesta na vida adulta, o conceito de reparentalização e os quatro passos práticos que a Alana propõe. E trazemos as pesquisas que sustentam cada parte.
Você se reconhece reagindo como criança em situações de adulto? Entender de onde vem o padrão é o primeiro passo. Mudar o padrão é trabalho de terapia.
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Nenhum outro animal passa tanto tempo dependente quanto o ser humano. Uma criança leva cerca de duas décadas para ser considerada adulta, e durante boa parte desse período ela simplesmente não sobrevive sozinha. Precisa de alguém maior, mais forte e mais sábio que a alimente, a proteja e, como lembra a Alana, que perceba o que ela sente antes mesmo de ela saber nomear.
Isso vale para o corpo e vale para as emoções. Sem comida, a criança não sobrevive. Sem acolhimento emocional, ela até sobrevive, mas não prospera. Cresce, vira adulta, e carrega um conjunto de faltas que continuam operando por baixo do comportamento.
Ninguém escolheu os pais que teve. Seria muito injusto se a infância fosse uma sentença.
É exatamente esse o ponto de partida do episódio. Se as faltas da infância deixassem marcas permanentes e inalteráveis, não haveria o que fazer. Mas a terapia do esquema parte de outra premissa: as necessidades que não foram atendidas continuam existindo na vida adulta, e um adulto, diferente de uma criança, tem como ir atrás delas.
As seis necessidades emocionais de toda criança
A terapia do esquema foi criada pelo psicólogo americano Jeffrey Young a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental, integrando ideias da teoria do apego e da psicanálise. A base dela é simples de enunciar: existem necessidades emocionais básicas que toda criança precisa ter atendidas. Quando isso não acontece, formam-se esquemas, jeitos rígidos e disfuncionais de enxergar a si mesma, os outros e o mundo, que se repetem na vida adulta.
No episódio, a Alana lista seis necessidades. Anote:
- Segurança e conexão. Sentir-se protegida e ligada aos adultos que cuidam dela. É o que produz confiança, tranquilidade e pertencimento.
- Autonomia e competência. Ser reforçada nas próprias capacidades, poder fazer as coisas por si mesma, sem superproteção.
- Autoestima e aceitação. Sentir-se valorizada e aceita como é.
- Liberdade para expressar necessidades e emoções. Poder dizer o que sente, mesmo quando isso é desagradável para os pais. Crianças constantemente reprimidas viram adultos que não sabem pedir.
- Espontaneidade e brincadeira. Ter momentos de lazer, alegria e criatividade sem obrigação. Sem isso, o adulto fica rígido e não sabe relaxar.
- Limites realistas e autocontrole. Ter regras claras, apropriadas à idade, e aprender disciplina. Sem isso, o adulto tem dificuldade com horários, decisões e frustração.
No manual de referência da abordagem, Schema Therapy: A Practitioner's Guide (2003), Young, Klosko e Weishaar descrevem cinco domínios de necessidades: vínculo seguro (que inclui segurança, estabilidade, cuidado e aceitação), autonomia e competência, liberdade para expressar necessidades e emoções, espontaneidade e brincadeira, e limites realistas. A Alana separa a aceitação em um item próprio, o que dá seis. O conteúdo é o mesmo.
Uma meta-análise de Pilkington, Bishop e Younan (2021), com 33 estudos, testou a base da teoria e encontrou que os esquemas disfuncionais na vida adulta se associam a adversidades da infância. A associação mais forte de todas foi entre negligência emocional e o esquema de privação emocional (r = 0,51), mais forte inclusive do que a de abuso físico ou sexual.
Esse último dado merece atenção. Não é preciso ter passado por violência para carregar uma ferida. A ausência silenciosa, a emoção que ninguém ajudou a nomear, o descanso que era visto como preguiça: isso também deixa esquema. Se você quiser reconhecer os sinais dessa ausência, a Alana dedicou um episódio inteiro a eles, que virou o artigo sobre negligência emocional na infância.
Os três modos da criança ferida na vida adulta
Aqui está a parte que a internet costuma tratar de forma rasa. "Criança interior" e "criança ferida" viraram expressões de coach e de terapeuta holístico, e muitos psicólogos torcem o nariz. Mas a terapia do esquema descreve o fenômeno com precisão. Ela chama de modos os estados em que a pessoa entra quando um esquema é ativado, e três deles são modos de criança.
1. A criança vulnerável
É a criança ferida propriamente dita. Carrega a sensação de não ser amada, de não ter valor, de não ser digna. Aparece na vida adulta quando uma situação parece repetir a história antiga: um silêncio que soa como abandono, uma crítica que soa como "você nunca faz nada certo". A pessoa fica frágil, pequena, sozinha, mesmo tendo quarenta anos e uma vida inteira construída.
2. A criança zangada
Nem toda criança que não recebe amor fica triste. Algumas mostram a frustração com raiva, birra, grito. O adulto nesse modo, quando se sente excluído ou rejeitado, não fica frágil: fica bravo. Joga coisas, quebra coisas, esbraveja, chora descontroladamente. Por fora parece agressividade. Por dentro é a mesma falta, expressa de outro jeito.
3. A criança impulsiva
É o adulto que faz o que dá na telha, sem pensar nas consequências. Fala o que não devia, gasta o que não tem, age por impulso e depois se arrepende. Na terapia do esquema, esse modo costuma vir de uma criança que não teve limites realistas nem aprendeu autocontrole.
Os modos de criança foram descritos por Young, Klosko e Weishaar (2003) como parte de um conjunto de dez modos, divididos em modos de criança, modos de enfrentamento disfuncional, modos de pais internalizados e o modo adulto saudável. Os modos de criança originais são quatro: criança vulnerável, criança zangada, criança impulsiva ou indisciplinada, e criança feliz. O objetivo da terapia é fortalecer o adulto saudável para que ele cuide da criança vulnerável, dê limite à zangada e à impulsiva, e abra espaço para a feliz.
Quando você olha para alguém e pensa "essa pessoa está agindo como criança", provavelmente está vendo um desses modos ativado. Quando olha para si mesma e pensa o mesmo, está vendo a sua criança pedindo algo que não recebeu.
Reparentalização: o adulto que faltou pode ser você
Na infância, as necessidades emocionais só podem ser atendidas por alguém de fora: um adulto mais forte e mais sábio. Na vida adulta isso muda. As mesmas necessidades continuam lá, mas agora existem duas fontes possíveis: as suas relações e a sua relação com você mesma.
A terapia do esquema chama isso de reparentalização. No consultório, o próprio terapeuta assume, dentro dos limites da relação profissional, o papel de oferecer ao paciente um pouco daquilo que faltou: afirmação, aceitação, um diálogo acolhedor. O termo técnico é reparentalização limitada, e ela está no centro da abordagem.
A Alana conta uma história pessoal que ilustra como isso funciona fora do consultório. Ela cresceu numa casa bastante rígida. De dia não se podia fechar a cortina para ver um filme, nem deitar no sofá: se está de dia, você tem que estar ativa, fazendo alguma coisa. Descansar era coisa de preguiçoso. Ela virou uma adulta autocrítica, que se cobrava o tempo todo e demorou anos para perceber que isso tinha vindo dali.
Quando casou, esperava do marido as reações que conhecia: estresse e bronca quando ela esquecia algo, errava algo, quebrava algo. E ele reagiu de um jeito completamente diferente. "Calma, está tudo bem." Com paciência, com acolhimento. Aconteceu uma vez, e outra, e outra.
Aquilo foi uma cura para o meu coração. Começou a partir dele, e depois virou uma prática minha comigo mesma.
É isso que a reparentalização faz: alguém oferece a voz que você precisava ter ouvido, e aos poucos você aprende a falar com você mesma naquela voz. A fonte externa vira interna.
A ideia de que a relação de cuidado molda a segurança emocional vem da teoria do apego de John Bowlby, e o elo específico entre a sensibilidade do cuidador e o apego seguro foi confirmado em meta-análise de De Wolff e van IJzendoorn (1997), com 66 estudos e mais de 4 mil díades: a sensibilidade materna, a capacidade de perceber e responder aos sinais do bebê, é uma condição importante, embora não a única, do apego seguro.
E a reparentalização como método terapêutico tem resultado medido. No ensaio clínico multicêntrico de Bamelis e colegas (2014), publicado no American Journal of Psychiatry, a terapia do esquema foi superior ao tratamento usual e a outra psicoterapia estruturada em pacientes com transtornos de personalidade, justamente por usar a relação terapêutica para atender necessidades não supridas.
A Alana usa a própria maternidade para explicar a lógica. Uma mãe atenta percebe se o filho está com fome, com sono, com sede, com saudade, e se antecipa. A criança com as necessidades supridas está de bem, funciona bem. A criança com fome ou com sono se comporta mal, e o comportamento é o sintoma, não o problema. A pergunta que a reparentalização faz é: e se você olhasse para si mesma com esse mesmo olhar atento?
Os quatro As para fortalecer o adulto saudável
Talvez você não tenha hoje alguém que faça por você o que o marido da Alana fez por ela. Ainda assim, é preciso começar de algum lugar. Ela propõe quatro práticas, todas começando com A, para fortalecer a sua voz interior adulta: a voz que você precisaria ter ouvido dos seus pais.
Aceitação
É a base. Quando você se sente estranha, inadequada, fora do lugar, ou acha que não está fazendo as coisas direito, seja você mesma a voz que diz: está tudo bem, você está fazendo o seu melhor, você é aceita e amada do jeito que é. Não é autoengano. É oferecer a si o senso de aceitação que talvez ninguém tenha oferecido.
Autocuidado
Cuidar de si é um ato de reparentalização. É o olhar atento da mãe, virado para dentro. Quando você percebe que está mal-humorada, estressada, funcionando mal, a pergunta é: o que eu estou precisando? Sono, comida, pausa, companhia, silêncio. Se nunca ninguém teve esse olhar por você, é provável que você também esteja desconectada das próprias necessidades. "Nem sei, estou só levando" é um sinal de alerta.
Autocompaixão
É a voz que a Alana recebeu do marido, agora dita por você para você. Diante do erro: foi um erro, mas você está numa semana puxada, está cansada, você não é assim. Vamos descansar, vamos dormir mais cedo hoje. Não é passar a mão na cabeça. É trocar a narrativa de bronca e culpa por uma de compreensão, que, na prática, funciona melhor.
A meta-análise de MacBeth e Gumley (2012), publicada na Clinical Psychology Review, reuniu 20 amostras e encontrou uma associação forte entre autocompaixão e menos sintomas de depressão, ansiedade e estresse (r = −0,54). Quanto mais compassiva a pessoa é consigo, menor o sofrimento psicológico. Autocobrança severa não produz adultos mais funcionais. Produz adultos mais doentes.
Afastar (colocar limites)
Haverá momentos em que fortalecer o adulto saudável significa dizer não. Afastar pessoas, lugares e tarefas que não fazem sentido agora. Ter com você mesma o cuidado que talvez as pessoas não tiveram quando você crescia. Se limites foi a necessidade que faltou na sua infância, este A vai ser o mais difícil, e o mais importante. Já falamos sobre isso em detalhe no artigo sobre limites nos relacionamentos.
Os quatro As são um começo. Mas quando a criança vulnerável, a zangada ou a impulsiva assumem o comando com frequência, o adulto saudável precisa de ajuda para se fortalecer. É esse o trabalho da terapia. Na Psi do Futuro, você encontra psicólogas de Terapia Cognitivo-Comportamental, a base da abordagem que a Alana usa.
Agendar minha primeira sessão →Não é culpa dos seus pais (e também não é sentença)
Idealmente, pais teriam as próprias necessidades atendidas e fariam os filhos se sentirem vistos, ouvidos e valorizados. A realidade costuma ser outra. O nível de consciência dos nossos pais era, na maioria dos casos, muito baixo. Eles repetiam o que foi feito com eles, muitas vezes sem perceber. Como diz a Alana, a gente só consegue dar aos outros aquilo que tem.
Ela conta de uma paciente cuja mãe dizia: "pode ficar aqui perto de mim no sofá, mas não me toca, não gosto de abraço, não gosto de beijo". O que uma criança conclui sobre si mesma ouvindo isso? Eu não sou digna nem do afeto da minha mãe, quem dirá dos outros. E essa mãe, muito provavelmente, também não foi tocada.
A transmissão de padrões de apego entre gerações é real, mas menor do que se pensava. A síntese de Verhage e colegas (2016), na Psychological Bulletin, reuniu 95 amostras e encontrou uma correlação de 0,31 entre o apego dos pais e o dos filhos: cerca de 9% de variância explicada. Existe herança. Não existe destino.
Por isso o episódio pede equilíbrio entre dois extremos. De um lado, a defesa: "meus pais foram ótimos, a infância já passou, não quero falar disso". De outro, a lamúria: ficar chorando e culpando para sempre. Nenhum dos dois é lugar de maturidade. O lugar de maturidade é olhar para a história com honestidade, entender o que faltou e assumir a responsabilidade de, agora, não repetir.
Não é o lugar de culpar os nossos pais. É o lugar de, hoje, na vida adulta, não continuar o padrão.
Quando as feridas são profundas
Os quatro As funcionam para faltas que você consegue enxergar e nomear. Mas há histórias em que a ferida é mais funda, a memória é confusa e a criança vulnerável, zangada ou impulsiva assume o comando com uma frequência que os exercícios sozinhos não alcançam.
Nesses casos, a reparentalização precisa acontecer numa relação de verdade, com alguém treinado para isso. É o que a terapia do esquema faz: o terapeuta oferece, de forma consistente e segura, o que faltou, até que o adulto saudável do paciente esteja forte o bastante para assumir. Depois de aprender a identificar a sua criança ferida, o próximo passo é conhecer as oito competências do adulto emocionalmente saudável, tema do outro episódio da Alana sobre a mesma abordagem.
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Referências
- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press. Necessidades emocionais básicas, modos de criança e reparentalização limitada. capítulo de amostra no site da Guilford
- Pilkington, P. D., Bishop, A., & Younan, R. (2021). Adverse childhood experiences and early maladaptive schemas in adulthood: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, 28(3), 569-584. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33270299
- De Wolff, M. S., & van IJzendoorn, M. H. (1997). Sensitivity and attachment: A meta-analysis on parental antecedents of infant attachment. Child Development, 68(4), 571-591. doi:10.1111/j.1467-8624.1997.tb04218.x
- Bowlby, J. (1969/1982). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books. Edição brasileira: Apego, Martins Fontes.
- Bamelis, L. L. M., Evers, S. M. A. A., Spinhoven, P., & Arntz, A. (2014). Results of a multicenter randomized controlled trial of the clinical effectiveness of schema therapy for personality disorders. American Journal of Psychiatry, 171(3), 305-322. doi:10.1176/appi.ajp.2013.12040518
- MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22796446
- Verhage, M. L., Schuengel, C., Madigan, S., Fearon, R. M. P., Oosterman, M., Cassibba, R., Bakermans-Kranenburg, M. J., & van IJzendoorn, M. H. (2016). Narrowing the transmission gap: A synthesis of three decades of research on intergenerational transmission of attachment. Psychological Bulletin, 142(4), 337-366. doi:10.1037/bul0000038
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