Psicologia na Prática · Saúde mental

Negligência emocional na infância: 9 sinais de que ela ainda está com você na vida adulta

Ninguém gritou, ninguém bateu, e mesmo assim faltou alguma coisa. A psicóloga Alana Anijar explica o que é a negligência emocional, por que ela é tão difícil de enxergar e quais marcas costuma deixar em quem cresceu sem ter as emoções acolhidas.

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Alana Anijar Atualizado em 18 de setembro de 2026 15 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática, adulto, segurando pela mão uma versão pequena de si mesmo, em um quarto de infância com uma janela iluminada

Você não apanhou. Ninguém te xingou, ninguém te humilhou. Teve casa, comida, escola. E mesmo assim, quando olha para trás, tem a sensação de que faltou alguma coisa que você não sabe nomear. Hoje, adulta, sente um vazio que não combina com a vida que construiu, tem dificuldade de dizer o que sente e se pega cuidando de todo mundo, menos de você.

Isso tem nome. Chama-se negligência emocional, e a característica mais cruel dela é justamente ser invisível.

No episódio "Problemas na infância que geram consequências na vida adulta", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar explica a diferença entre abuso e negligência, apresenta as necessidades emocionais que toda criança tem e lista nove sinais de que essas necessidades podem não ter sido atendidas na sua infância. E fecha com quatro caminhos para começar a dar a si mesma o que não recebeu.

Neste artigo, organizamos os nove sinais e as quatro estratégias, e trazemos as pesquisas que sustentam o que ela diz.

Se você se reconheceu já nos primeiros parágrafos, saiba que entender de onde vem o padrão é o começo, não o fim. Reaprender a sentir, a pedir e a se acolher é trabalho de terapia, e é exatamente o que as psicólogas da Psi do Futuro fazem.

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O que é negligência emocional (e por que ela não é abuso)

Hoje se fala muito em abuso: físico, verbal, emocional. Abuso é uma ação cometida contra a criança. A negligência emocional é o oposto disso. Como Alana define no episódio, ela não é uma atitude que alguém fez contra você, é uma falha em agir. São faltas: o consolo que não veio, a emoção que ninguém ajudou a nomear, o esforço que ninguém reconheceu.

Por isso ela é tão difícil de identificar. Quem sofreu abuso tem um evento para apontar. Quem sofreu negligência emocional tem uma ausência, e ausência não deixa cicatriz visível. Muitas pessoas chegam à terapia dizendo "minha infância foi normal, meus pais eram bons", e só depois percebem que "normal" incluía nunca ter sido perguntada como estava se sentindo.

O que diz a pesquisa

A psicóloga americana Jonice Webb foi quem primeiro descreveu esse padrão de forma sistemática, no livro Running on Empty (2012). A definição dela é a mesma que Alana usa: negligência emocional é a falha dos pais em responder o suficiente às necessidades emocionais da criança. Enquanto maus-tratos e abuso são atos, a negligência é um não agir, e por isso passa despercebida pela própria pessoa que a viveu.

E ela não é inofensiva. Uma meta-análise publicada no Journal of Affective Disorders em 2016, com 12 estudos e 4.372 participantes, comparou os tipos de maus-tratos na infância e concluiu que abuso psicológico e negligência foram os mais fortemente associados à depressão na vida adulta, mais do que o abuso físico ou sexual. Os autores chamam esses dois de os tipos "silenciosos" de maus-tratos.

Alguns exemplos que Alana traz, e que talvez soem familiares:

  • Ignorar ou invalidar o sentimento: "para de chorar, isso não é nada", "que manhoso", "isso não é motivo para choro"
  • Não oferecer consolo quando a criança está triste, assustada ou se machucou
  • Nunca reconhecer esforços ou conquistas, nunca elogiar
  • Fingir que a birra não existe, como estratégia padrão, sem nunca ajudar a criança a atravessar a frustração

Alana faz questão de dizer que ela também é mãe, e que já ignorou o choro do filho em momentos em que não tinha mais o que fazer. O problema não é o dia difícil. É quando ignorar é a única resposta que a criança conhece.

As cinco necessidades emocionais de toda criança

Para saber se algo faltou, é preciso saber o que deveria ter existido. Alana se apoia na teoria dos esquemas, do psicólogo americano Jeffrey Young, que organiza as necessidades emocionais básicas de toda criança em cinco grupos:

  1. Vínculo seguro: sentir-se protegida, estável, cuidada e aceita
  2. Autonomia, competência e identidade: sentir-se capaz, independente, alguém
  3. Liberdade para expressar necessidades e emoções: poder dizer o que sente e ter isso validado
  4. Espontaneidade e brincadeira: poder ser ela mesma
  5. Limites realistas e autocontrole: ter regras claras e ser ajudada a lidar com a frustração

Repare no quinto item. Limites também são uma necessidade emocional. Como diz Alana, não é uma educação permissiva, mas também não é negligente. Ela mesma responde a quem fala em "geração Nutella": o oposto de negligenciar não é colocar a emoção da criança num pedestal. É ponderar, acolher e, ao mesmo tempo, ensinar.

O que diz a pesquisa

A Terapia do Esquema foi sistematizada por Young, Klosko e Weishaar em Schema Therapy: A Practitioner's Guide (Guilford Press, 2003). A tese central do modelo é que, quando essas necessidades básicas não são atendidas na infância, a criança desenvolve esquemas iniciais desadaptativos: crenças profundas sobre si e sobre o mundo, como "vou ser abandonada", "sou defeituosa" ou "minhas necessidades não importam", que seguem operando na vida adulta e organizam a forma como a pessoa se relaciona.

Quadro com as cinco necessidades emocionais básicas da infância segundo Jeffrey Young: vínculo seguro, autonomia, expressão emocional, espontaneidade e limites
As cinco necessidades emocionais básicas segundo a Terapia do Esquema. Negligência emocional é quando uma ou mais delas ficam sem resposta por tempo demais.

Por que "deixa chorar" não ensina nada

Há uma ideia antiga de que ignorar o choro da criança "educa". Alana lembra que a neurociência já mostrou o contrário: o cérebro imaturo não tem capacidade de se regular sozinho. A criança que se joga no chão não está escolhendo se descontrolar. Ela ainda não tem o equipamento para fazer diferente.

O que diz a pesquisa

Um estudo do National Institute of Mental Health, publicado na PNAS em 2004, acompanhou o desenvolvimento do córtex de crianças por ressonância magnética, dos 4 aos 21 anos. O mapa resultante mostrou que as regiões de ordem superior, responsáveis por integrar informação e regular comportamento, são as últimas a amadurecer, já na entrada da vida adulta. Ou seja: a regulação emocional que se cobra de uma criança de três anos depende de estruturas que só ficam prontas quase duas décadas depois.

É por isso que o exemplo que Alana dá com o próprio filho é tão preciso. Quando ele não sabe se o que sente é raiva, tristeza ou frustração, ela lê a situação e traduz: dá nome à emoção, mostra como processar e como agir. E faz uma distinção que vale para adultos também:

A emoção é sempre válida. Nem por isso o comportamento é adequado.

Ela não diz "você não pode chorar". Diz "você não precisa me pedir chorando, você pode falar: mamãe, eu quero suco". Se a resposta for não, ele pode ficar triste, pode até se jogar no chão. Mas vai aprender que se jogar no chão não muda a resposta. Isso é regulação emocional sendo ensinada, e não imposta.

Os nossos pais e avós, em geral, não tinham essa informação. Alana conta que os pais dela foram muito mais negligenciados do que ela, e os avós, mais ainda: era a geração em que criança tinha que ficar calada. Cada geração faz o que pode com o que recebeu. O ponto não é julgar. É entender o que ficou.

Os 9 sinais de negligência emocional na vida adulta

Alana lista nove sinais. Nenhum deles, sozinho, é prova de nada. Mas se vários se acumulam, vale olhar para a infância com outra pergunta: existiam adultos que me ajudavam a entender o que eu sentia?

1. Dificuldade em identificar e expressar emoções

Quem cresceu ouvindo "isso não é nada" aprendeu a não confiar no próprio sentir. Na vida adulta, isso vira uma névoa: a pessoa sabe que está mal, mas não consegue dizer se é tristeza, raiva ou medo. E se não nomeia, não consegue pedir ajuda para aquilo.

O que diz a pesquisa

Um estudo da Universidade do Kansas, publicado na Psychological Trauma em 2018 com 500 jovens adultos, separou os efeitos do abuso emocional e da negligência emocional. O resultado é específico: a negligência emocional foi associada justamente à dificuldade de identificar os próprios sentimentos, enquanto o abuso emocional se ligou mais à dificuldade de descrevê-los. É a assinatura da falta, e não da agressão.

2. Sensação persistente de vazio ou desconexão

É a mulher que tem o relacionamento, o trabalho, a casa, e ainda assim se sente insatisfeita e desconectada, mesmo quando tudo parece bem. Alana aponta que essa sensação costuma remeter a uma infância em que faltou conexão emocional genuína, e não necessariamente a algo que esteja errado agora.

3. Baixa autoestima e autocrítica intensa

O homem que nunca se sente bom o suficiente no trabalho e duvida de si mesmo apesar dos feedbacks positivos. Crescer sem validação produz uma autoestima que não se sustenta em evidência: os elogios entram por um ouvido e saem pelo outro, porque não existe dentro da pessoa um lugar onde eles possam se apoiar.

4. Dificuldade de confiar

Evitar se abrir, até com amigos íntimos, por medo de rejeição, julgamento ou traição. Muitas vezes há uma história por trás: um genitor que saiu de casa de repente, alguém de confiança que não se mostrou confiável. A criança aprende que contar com o outro é arriscado, e leva esse aprendizado para todos os vínculos.

5. Tendência a ignorar as próprias necessidades

É a pessoa que faz tudo por todos e quase nada por si. Alana descreve um caso comum: a criança que teve que cuidar dos próprios pais, fragilizados ou em situação de vulnerabilidade, e que virou "a boazinha que não dá trabalho". Cresceu assim. Na vida adulta, esse desequilíbrio cobra a conta em esgotamento, ressentimento e sobrecarga.

6. Sensação de ser diferente de todo mundo

"Eu sou inadequada, eu não me encaixo em lugar nenhum." Esse sentimento persistente de não pertencer costuma começar num lar onde não havia pertencimento: uma família sem conexão entre as pessoas, ou uma criança que cresceu sendo passada de casa em casa.

7. Comportamentos de autossabotagem

Procrastinar, não se candidatar à promoção, adiar o que importa, acreditar que não vai conseguir ou que não merece. A profissional talentosa que trava sempre no mesmo ponto. Se esse é o seu caso, o artigo Por que você sente que não merece coisas boas aprofunda esse padrão.

8. Dificuldade em colocar limites

Não conseguir dizer não, querer agradar todo mundo mesmo sobrecarregada. Alana levanta uma hipótese que vale investigar: talvez os limites dessa pessoa, quando criança, nunca tenham sido respeitados. Quem nunca teve seu "não" levado a sério não aprende que tem direito a dizê-lo.

9. Dependência emocional

O sinal clássico. A carência afetiva que busca num namorado, numa namorada, em alguém, a figura de segurança que faltou enquanto crescia. Não é fraqueza de caráter: é uma necessidade legítima que ficou sem resposta na época certa e continua pedindo para ser atendida.

Lista de verificação com os nove sinais de negligência emocional na vida adulta apresentados pela psicóloga Alana Anijar
Os nove sinais, para salvar e revisitar. Não é um diagnóstico: é um convite para olhar a própria história com outra pergunta.

Reconhecer os sinais é o primeiro passo. O segundo é entender como eles se formaram na sua história e o que fazer com isso agora. Na Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental, a mesma abordagem que a Alana usa no episódio.

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Influência não é sentença

Aqui Alana faz uma ressalva importante, e que separa uma leitura útil da própria história de uma leitura fatalista. Ela não é o tipo de profissional que diz "isso é por causa daquilo". Nem todo mundo que passou pela mesma falta desenvolve o mesmo padrão.

Não é causa e consequência. Mas tem uma influência, e é importante identificar.

Existem muitos fatores: temperamento, outras figuras de apoio, o que aconteceu depois. A infância não determina a vida adulta. Ela inclina. E saber para que lado você foi inclinada é o que permite corrigir a rota.

Por isso ela também pede calma antes de sair do episódio culpando os pais. A maioria deles fez o melhor que podia com o que tinha, e o que tinham, muitas vezes, era ainda menos do que deram. Agora o nosso papel é fazer o nosso melhor com aquilo que a gente recebeu.

Quatro caminhos para dar a si o que não recebeu

1. Pare de fugir das suas emoções

O primeiro movimento é o mais contraintuitivo para quem aprendeu que sentir não adianta: começar a olhar. Que emoções são essas? Que gatilhos as disparam? O que aconteceu na sua história? Alana sugere um diário emocional, onde você registra pensamentos e eventos significativos do dia. Não para reviver, mas para traduzir, do mesmo jeito que ela faz com o filho. Só que agora quem traduz é você.

2. Busque terapia

Alana chama de convite, mas diz que é "quase uma convocação". A TCC, abordagem dela, não fica presa ao passado: é focada no presente, em metas e em resolver o que está travado. Mas usa a história como fonte de insights que ajudam a agir no agora. A negligência emocional é um padrão aprendido cedo, e padrão aprendido cedo raramente se desfaz só com leitura.

3. Construa uma rede de apoio segura

Ter, hoje, pessoas que sejam o acolhimento e a fonte de afeto que talvez não tenha existido antes. Isso não substitui o que faltou, mas prova para o seu sistema emocional que receber cuidado é possível. Para quem tem dificuldade de confiar (sinal 4), esse passo é lento, e tudo bem.

4. Pratique o autocuidado e a autocompaixão

É o ponto que Alana mais repete no podcast: fazer com você o que talvez não tenham feito com você. Quem cresceu sem validação costuma reproduzir internamente a mesma negligência, numa relação consigo feita de cobrança e autocrítica. Trocar isso por gentileza não é indulgência. É reparo.

O que diz a pesquisa

Um estudo da Universidade McMaster, publicado na Child Abuse & Neglect em 2011, acompanhou 117 adolescentes e jovens adultos e encontrou que negligência emocional e abuso emocional na infância estavam associados a menor autocompaixão. E os jovens com menos autocompaixão tinham mais sofrimento psicológico, mais uso problemático de álcool e mais tentativas de suicídio. A autocompaixão não é frescura: nesse estudo, foi o que separou quem carregava a mesma história com mais ou menos dano.

Alana descreve esse processo de dar a si mesma o que não recebeu como muito desafiador. E acrescenta: amadurece a gente muito, muito, muito. Se você quiser aprofundar a parte das necessidades emocionais, a primeira seção do livro dela, Psicologia na Prática: um guia interativo para uma vida mais leve, é dedicada exatamente a isso.

Quando o autoconhecimento não basta

Um artigo pode ajudar você a reconhecer o padrão. Pode até nomear o que ficou sem nome por décadas. Mas o reparo da negligência emocional acontece em relação, porque foi em relação que ela aconteceu. Uma relação terapêutica segura, em que você é ouvida, validada e ajudada a entender o que sente, é, para muita gente, a primeira experiência do que deveria ter existido lá atrás.

E se as oito competências de um adulto emocionalmente saudável parecem distantes, é por aqui que se chega até elas. Veja o artigo Como se tornar um adulto emocionalmente saudável: as competências que ele descreve são, em boa parte, as necessidades desta lista atendidas com atraso.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Webb, J. (2012). Running on Empty: Overcome Your Childhood Emotional Neglect. New York: Morgan James Publishing. drjonicewebb.com/the-book
  2. Infurna, M. R., Reichl, C., Parzer, P., Schimmenti, A., Bifulco, A., & Kaess, M. (2016). Associations between depression and specific childhood experiences of abuse and neglect: A meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 190, 47-55. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26480211
  3. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. New York: Guilford Press. ficha no Google Books
  4. Gogtay, N., Giedd, J. N., Lusk, L., Hayashi, K. M., Greenstein, D., Vaituzis, A. C., Nugent, T. F., Herman, D. H., Clasen, L. S., Toga, A. W., Rapoport, J. L., & Thompson, P. M. (2004). Dynamic mapping of human cortical development during childhood through early adulthood. Proceedings of the National Academy of Sciences, 101(21), 8174-8179. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15148381
  5. Brown, S., Fite, P. J., Stone, K., Richey, A., & Bortolato, M. (2018). Associations between emotional abuse and neglect and dimensions of alexithymia: The moderating role of sex. Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy, 10(3), 300-308. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28414491
  6. Tanaka, M., Wekerle, C., Schmuck, M. L., & Paglia-Boak, A. (2011). The linkages among childhood maltreatment, adolescent mental health, and self-compassion in child welfare adolescents. Child Abuse & Neglect, 35(10), 887-898. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22018519
  7. Anijar, A. (2024). Psicologia na Prática: um guia interativo para uma vida mais leve. Editora Quatro Ventos. amazon.com.br

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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