Psicologia na Prática · Saúde mental

Como se tornar um adulto emocionalmente saudável

Maturidade emocional não chega com o aniversário. Na terapia do esquema, ela é um conjunto de oito competências que se treinam. Veja quais são e como reconhecer a sua mais frágil.

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Psi do Futuro 14 de agosto de 2026 13 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática, grande e sereno, ao lado de um cérebro menor e triste

Você conhece alguém de quarenta anos que some quando a conversa fica difícil? Que culpa todo mundo pelo que sente? Que muda de opinião conforme a mesa em que está sentado?

Idade não é maturidade. São duas coisas diferentes, e uma não produz a outra.

No episódio "Como se tornar um adulto saudável emocionalmente", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar recorre a um conceito da terapia do esquema para explicar por quê: existe dentro de cada pessoa uma parte adulta, madura e executiva, que precisa ser desenvolvida. Ela não aparece sozinha aos dezoito anos. Ela se constrói.

Neste artigo, destrinchamos as cinco tarefas dessa parte adulta e as oito competências que a sustentam, com as pesquisas que dão base a cada uma.

Você se reconhece reagindo como criança em situações adultas? Ler sobre isso ajuda a nomear. Trabalhar o que sustenta o padrão é outro tipo de trabalho, e é ele que a terapia faz.

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Por que a idade não entrega maturidade emocional

Existe uma suposição silenciosa de que amadurecer é automático: basta acumular aniversários, contas e responsabilidades de trabalho para que a maturidade emocional venha junto. Ela não vem. A evidência está espalhada pela vida de todo mundo, em pessoas com carreiras sólidas que preferem desaparecer a terminar uma relação, adultos que gastam por impulso sempre que o dia foi ruim, profissionais competentes que leem qualquer feedback como ataque pessoal.

Tem gente de trinta, quarenta, cinquenta anos que não desenvolveu nenhuma dessas habilidades, e por isso lida com a vida como uma criança assustada.

A observação é de Alana no episódio, e ela desmonta a ideia de que maturidade é uma etapa que se atravessa. Maturidade emocional é uma capacidade, e capacidades se desenvolvem ou atrofiam conforme o uso. Como diz a frase de Sartre que abre o episódio, o homem não é nada além daquilo que ele faz de si mesmo. Ninguém faz esse trabalho no seu lugar.

O que a terapia do esquema chama de adulto saudável

A terapia do esquema foi desenvolvida por Jeffrey Young a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental, para tratar padrões que se repetem desde a infância e resistem às abordagens mais curtas. Ela trabalha com a ideia de modos: estados que se alternam dentro da mesma pessoa.

Num momento você está na criança vulnerável, a parte que se sente pequena e sem recursos. Em outro, na criança impulsiva, que quer alívio imediato. Em outro ainda, no crítico interno, a voz que repete que você nunca é suficiente. E existe o adulto saudável: a parte madura, executiva e prática da personalidade, a que lida com trabalho, estudo, relacionamentos e também com a busca por prazer. É o modo que administra todos os outros.

O que diz a pesquisa

O conceito foi formulado por Jeffrey Young, Janet Klosko e Marjorie Weishaar em Schema Therapy: A Practitioner's Guide, publicado pela Guilford Press em 2003 e lançado no Brasil pela Artmed em 2008 como Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras. É a obra de referência do modelo de modos esquemáticos.

Alana faz uma ponte útil com a neurociência: o adulto saudável tem muito a ver com o córtex pré-frontal, região das funções executivas, com a diferença de que não é só razão. É razão integrada à emoção.

Duas coisas importam aqui. A primeira: todo mundo tem esse modo, não é privilégio de quem teve infância tranquila. A segunda: ele só funciona na medida em que é exercitado.

As cinco tarefas do adulto saudável no dia a dia

Antes de listar competências, vale entender o que essa parte adulta faz na prática. Alana organiza em cinco tarefas:

  1. Interromper o piloto automático dos padrões infantis. Se você evita conflito a todo custo e concorda com coisas em que não acredita só para não discutir, o adulto saudável é quem reconhece o padrão e busca um caminho mais assertivo.
  2. Atender as necessidades da criança vulnerável. Quando a insegurança aparece e você se sente pequeno, ele reconhece a vulnerabilidade, busca apoio em alguém de confiança e lembra você das vezes em que já superou algo parecido.
  3. Colocar limite no impulso. Se estresse vira compra compulsiva, ele é a instância que consegue pausar antes de agir e considerar outra saída.
  4. Garantir prazer e alegria. Cozinhar algo especial, tocar um instrumento, ver amigos. Não é supérfluo: é o que nutre a parte que sente alegria, e o adulto saudável protege esse espaço na rotina.
  5. Suavizar a voz crítica. Diante de um erro, ele reconhece a autocrítica, mas também lembra você das suas conquistas e do seu valor.

Repare no padrão: em quatro das cinco tarefas, o adulto saudável está cuidando de outra parte de você. Essa é a imagem central do modelo.

O adulto saudável é a parte de você que cuida da criança que você foi.

As oito competências, uma a uma

Alana traz as oito competências centrais do adulto saudável a partir de um capítulo do livro Terapia do esquema: base teórica e estratégias avançadas, organizado pela psicóloga brasileira Ana Rizzon. Elas descrevem o que essa parte adulta precisa saber fazer.

1. Metacognição

É a espinha dorsal do adulto saudável: observar os próprios pensamentos e emoções em vez de ser levado por eles. Um prazo apertado dispara ansiedade. Sem metacognição, você vira a ansiedade. Com ela, você percebe: "estou ansiosa, por que me sinto assim, o que posso fazer agora". A distância que essa observação cria é o que torna qualquer outra mudança possível.

2. Orientação para a realidade

É avaliar as situações do dia com precisão, sem a distorção dos vieses e das feridas antigas. Você recebe um feedback negativo. Sem essa competência, vira "essa pessoa não gosta de mim". Com ela, vem a pergunta: existe evidência real disso, ou é alguém apontando algo para eu melhorar?

Alana usa uma imagem precisa: é tirar as lentes de rejeição, medo e desvalor na hora de olhar para a cena. Para tirá-las, primeiro é preciso saber que elas estão ali.

3. Conexão emocional

É estar presente às próprias emoções, inclusive as difíceis, sem reprimir e sem se afogar nelas. Em vez de empurrar a tristeza para longe, a conexão emocional pergunta o que essa tristeza está tentando dizer e o que na sua vida pede atenção. A emoção deixa de ser um incômodo a eliminar e passa a ser informação.

4. Senso de identidade coerente

É saber quem você é, o que valoriza e o que quer, de forma estável nas diferentes áreas da vida. Quem não tem esse senso é uma pessoa com os amigos e outra com a família, ri de piadas que não acha graça, concorda com opiniões que não são suas, oscila nos gostos e até na própria imagem conforme o ambiente. Não é rigidez: é ter um centro que não se dissolve na pressão social.

5. Assertividade e reciprocidade

Assertividade é expressar necessidades e limites com clareza, sem violar os próprios direitos nem os do outro. Reciprocidade é responder às necessidades do outro na mesma medida. As duas andam juntas de propósito: assertividade sozinha vira egoísmo articulado, reciprocidade sozinha vira anulação.

Quando alguém pede um favor e você já está sobrecarregada, a resposta madura não é nem o "sim" automático nem o "não" seco. É algo como "eu adoraria ajudar, mas estou com muita coisa agora, podemos combinar outro momento". Aprofundamos esse ponto no texto sobre assertividade na comunicação.

6. Agência e responsabilidade

É iniciar, executar e controlar as próprias ações, assumindo as consequências em vez de terceirizar a culpa. Assumiu um projeto e percebeu que não vai cumprir o prazo? Responsabilidade é avisar cedo e propor solução, não sumir e torcer para ninguém notar. Nos relacionamentos, é a diferença entre encerrar com uma conversa difícil e simplesmente desaparecer.

7. Cuidar além de si

É se engajar no bem-estar de outras pessoas sem negligenciar as próprias necessidades. Não precisa ser trabalho voluntário: pode ser ajudar em casa, perceber a necessidade de quem está ao lado, se responsabilizar por algo que não é obrigação sua. Uma criança é naturalmente autocentrada, e isso é adequado à idade dela. Um adulto que só consegue cuidar de si parou em algum lugar do caminho.

8. Esperança e sentido

É encontrar direção nos momentos difíceis, extraindo aprendizado da dor em vez de apenas atravessá-la. Diante de uma perda significativa, é o que permite perguntar o que a experiência ensina e como sair dela mais forte, às vezes até ajudando quem passa pelo mesmo. É a base do que se costuma chamar de resiliência.

O que diz a pesquisa

Sete dessas competências aparecem com esses mesmos nomes no artigo de David Edwards, publicado na Frontiers in Psychology em janeiro de 2022, que sistematiza a avaliação do adulto saudável na conceituação de caso. Ali, esperança e sentido aparecem dentro da competência de cuidar além de si, e não como item separado.

A oitava tem base própria: Duygu Yakın e Arnoud Arntz, em estudo publicado na Frontiers in Psychiatry em 2023, identificaram esperança e fé como um dos seis subtemas do adulto saudável, ao lado de compaixão, estabelecimento de limites, sintonia emocional, autorreflexão e enfrentamento de desafios.

Quadro com as oito competências do adulto saudável: metacognição, orientação para a realidade, conexão emocional, identidade coerente, assertividade e reciprocidade, agência e responsabilidade, cuidar além de si, esperança e sentido
Salve este quadro. Ele funciona melhor como checklist de treino do que como lista de leitura.

Como descobrir qual competência está frágil em você

Ler oito competências e concluir que precisa melhorar em todas não ajuda ninguém. O uso prático da lista é outro: usá-la como diagnóstico. Passe pelos oito itens e marque aquele em que você reconheceu uma cena específica sua. Costuma ser um só, e costuma incomodar mais que os outros. Perguntas que ajudam:

  • Metacognição: você percebe que está em espiral enquanto está nela, ou só depois?
  • Realidade: quantas vezes por semana você conclui coisas sobre o que os outros pensam de você, sem checar?
  • Conexão emocional: quando algo dói, você sente ou você se ocupa?
  • Identidade: você é a mesma pessoa em três ambientes diferentes?
  • Assertividade: quando foi a última vez que você disse não e não se sentiu culpada?
  • Responsabilidade: nas últimas brigas, a culpa foi sempre do outro?
  • Cuidar além de si: alguém contou com você recentemente e você apareceu?
  • Esperança: as suas perdas viraram aprendizado ou viraram só cicatriz?

A competência mais frágil geralmente aponta para a necessidade emocional que não foi bem atendida na infância. Quem cresceu num ambiente em que emoção era ignorada tende a chegar na vida adulta com conexão emocional frágil. Quem cresceu tendo que agradar tende a ter assertividade frágil. Não é coincidência, é história. Falamos disso em detalhe no texto sobre consequências da negligência emocional infantil.

Reconhecer o padrão é o começo. Mudar o padrão exige alguém treinado para enxergar o que você ainda não enxerga. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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Competência não se entende, se treina

Aqui está o ponto que separa quem lê sobre maturidade de quem desenvolve maturidade: nenhuma dessas oito competências melhora por compreensão. Todas melhoram por repetição. Vale o mesmo para os hábitos de inteligência emocional que Alana detalhou em outro episódio do podcast: entender leva minutos, incorporar leva meses.

Três regras para o treino:

  1. Escolha uma competência para o mês. Uma só. Oito frentes ao mesmo tempo não é treino, é ansiedade.
  2. Defina uma ação observável. "Ser mais assertiva" não é treinável. "Dizer não a um pedido por semana, sem me justificar além de uma frase" é.
  3. Revise no fim do mês. O que ficou mais fácil, onde você recuou, que situação ainda derruba você.

E vale reforçar a quinta tarefa da lista anterior, porque é onde a maioria tropeça: o treino não sobrevive à crítica severa. Errar faz parte, e a forma como você fala consigo depois do erro determina se você continua ou desiste.

O que diz a pesquisa

Uma meta-análise conduzida por Angus MacBeth e Andrew Gumley, publicada na Clinical Psychology Review em 2012, reuniu 20 amostras e encontrou associação forte entre autocompaixão e menor nível de sintomas de saúde mental (r = -0,54).

Ou seja: tratar-se com compaixão diante do erro não é indulgência. É um dos fatores mais consistentemente ligados a menos ansiedade e menos depressão na literatura.

Quando a infância pesa mais do que o treino

Há um limite honesto para o que autoconhecimento e prática resolvem sozinhos. Se toda vez que alguém se aproxima você sabota a relação, se a mesma cena se repete em todos os empregos, se você entende perfeitamente o padrão e mesmo assim ele acontece de novo, o problema não é falta de informação. É que a criança ferida assume o comando antes de o adulto saudável ter chance de aparecer.

Esse é exatamente o terreno da terapia. No processo terapêutico se identifica de onde vem cada padrão, se trabalha diretamente com a parte que ficou sem cuidado e se fortalece a parte adulta que ainda não conseguiu assumir o volante sozinha.

O que diz a pesquisa

Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por Kaiyuan Zhang e colaboradores, publicada no Nordic Journal of Psychiatry em 2023, reuniu oito ensaios clínicos randomizados com 587 participantes. A terapia do esquema apresentou efeito moderado na redução de sintomas de transtornos de personalidade quando comparada às condições de controle, quadros em que os padrões vêm da infância e resistem a intervenções mais breves.

Alana encerra o episódio com uma frase que vale repetir: por mais difícil que tenha sido a sua infância, e por menos referências de maturidade que você tenha tido, hoje você é o adulto. Fortalecer essa parte é a sua responsabilidade, e é também a sua possibilidade.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press. Edição brasileira: Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras (Artmed, 2008). guilford.com
  2. Edwards, D. J. A. (2022). Using Schema Modes for Case Conceptualization in Schema Therapy: An Applied Clinical Approach. Frontiers in Psychology, 12, 763670. frontiersin.org
  3. Yakın, D., & Arntz, A. (2023). Understanding the reparative effects of schema modes: an in-depth analysis of the healthy adult mode. Frontiers in Psychiatry, 14. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  4. MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22796446
  5. Zhang, K., Hu, X., Ma, L., Xie, Q., Wang, Z., Fan, C., & Li, X. (2023). The efficacy of schema therapy for personality disorders: a systematic review and meta-analysis. Nordic Journal of Psychiatry, 77(7), 641-650. tandfonline.com
  6. Rizzon, A. (org.). Terapia do esquema: base teórica e estratégias avançadas. Sinopsys Editora. sinopsyseditora.com.br
  7. Sartre, J.-P. (1946). O Existencialismo é um Humanismo. Conferência proferida em Paris. texto integral

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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