Psicologia na Prática · Inteligência emocional

Inteligência emocional não é dom. São sete hábitos que se treinam

Ninguém nasce sabendo lidar com o que sente. O que separa quem responde de quem reage são comportamentos repetidos, e todos eles podem ser aprendidos.

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Alana Anijar 13 de agosto de 2026 10 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática equilibrado em uma perna, segurando uma bússola

Existe uma crença silenciosa por trás de quase toda conversa sobre emoções: a de que algumas pessoas simplesmente nasceram equilibradas, e outras não. Que lidar bem com o que se sente é temperamento, sorte ou dom.

Não é. Inteligência emocional é uma habilidade, e habilidade se constrói com repetição.

Nos episódios recentes do Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar destrinchou sete hábitos que pessoas emocionalmente inteligentes praticam. Não são traços de personalidade nem virtudes abstratas: são comportamentos observáveis, que se treinam um de cada vez.

Neste artigo reunimos os sete, com o que a pesquisa em psicologia diz sobre cada um.

Esses sete hábitos são exatamente o que se trabalha em terapia. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, cada um deles é desenvolvido de forma estruturada, com acompanhamento profissional, até virar parte de quem você é.

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Hábito 1: nomear o que se sente

Parece simples e quase ninguém faz. A maioria das pessoas descreve estados emocionais em blocos genéricos: "estou mal", "estou estranho", "não sei o que tenho".

Nomear com precisão muda o que acontece no cérebro. Dizer "estou sentindo ansiedade" em vez de permanecer imersa na sensação cria distância entre você e a emoção. Você deixa de ser o que sente e passa a observar o que sente.

E o que se observa, é possível regular.

De onde vem o conceito

O termo inteligência emocional foi definido em 1990 pelos psicólogos Peter Salovey, de Yale, e John Mayer, em artigo publicado na Imagination, Cognition and Personality. Eles a descreveram como a capacidade de perceber os próprios sentimentos e os dos outros, distinguir entre eles e usar essa informação para orientar pensamento e ação.

Repare no verbo: distinguir. A precisão em nomear não é detalhe do conceito, é parte da definição original.

Hábito 2: aumentar o espaço entre sentir e agir

Entre a emoção que aparece e o comportamento que ela dispara existe um intervalo. Em algumas pessoas ele dura milésimos. Em outras, o suficiente para escolher.

Esse espaço é treinável. Cada vez que você sente raiva e não responde a mensagem na hora, você o alarga um pouco. Cada vez que reage no impulso, o encurta.

Hábito 3: questionar os próprios pensamentos

Nem tudo o que passa pela sua cabeça é verdade. Pensamento não é fato, é interpretação, e interpretações podem estar erradas.

Pessoas emocionalmente inteligentes tratam os próprios pensamentos como hipóteses a testar, não como laudos. A pergunta que abre esse espaço é simples: que evidência eu tenho de que isso é verdade?

Hábito 4: sustentar o desconforto sem fugir dele

Aqui está, segundo Alana, um dos pilares da inteligência emocional. E o raciocínio é incômodo de encarar:

A maior parte dos comportamentos impulsivos tem um objetivo em comum: fugir do desconforto.

Olhe de novo para os seus:

  • Procrastinar adia a tarefa porque a tarefa gera desconforto
  • Explodir numa discussão encerra a sensação insuportável de sentir raiva sem fazer nada
  • Mandar dez mensagens seguidas alivia o medo do abandono naquele instante
  • Descontar na comida corta o estresse em segundos

Nenhum desses comportamentos é escolhido porque é a melhor opção. Eles são escolhidos porque encerram um desconforto agora.

E aí está a armadilha: o que alivia agora costuma cobrar depois. A mensagem impulsiva acalma a ansiedade por minutos e cria um problema no relacionamento por semanas. Evitar a conversa difícil reduz a tensão hoje e aumenta o problema amanhã.

O que diz a pesquisa

Os psicólogos Jeffrey Simons e Raluca Gaher desenvolveram em 2005, na revista Motivation and Emotion, a Escala de Tolerância ao Mal-Estar, hoje um dos instrumentos mais usados para medir esse traço.

A definição que eles adotam descreve com precisão o que o episódio aponta: pessoas com baixa tolerância ao mal-estar consideram experiências emocionais intensas insuportáveis e, por isso, agem rapidamente para eliminá-las. A pressa não é falta de caráter, é intolerância a uma sensação.

A saída não é gostar de sofrer. É entender que emoções são passageiras: elas sobem, atingem um pico e diminuem. Quando você reage no impulso toda vez, ensina ao cérebro que ele não precisa aprender a tolerar aquele estado, e ele fica cada vez mais dependente de respostas imediatas.

A pergunta que interrompe o ciclo:

Eu realmente preciso agir agora, ou só estou tentando aliviar o que estou sentindo?

Hábito 5: assumir responsabilidade pelas próprias emoções

Este é, provavelmente, o mais difícil da lista. Crescemos falando como se a vida emocional fosse operada por terceiros: você me deixou nervoso, você acabou com o meu dia, você me faz sentir insegura.

As pessoas nos afetam, claro. Seria impossível viver em sociedade sem ser afetado. Mas existe diferença entre reconhecer o impacto e entregar ao outro a responsabilidade pela sua vida emocional.

Você nem sempre escolhe o que sente. Mas pode aprender a escolher como responde ao que sente. É uma troca de posição que tira a pessoa do lugar de vítima permanente das circunstâncias, onde só se fica bem se o outro mudar primeiro.

Alana faz uma distinção que vale guardar:

  • A culpa olha para trás e pergunta: quem errou?
  • A responsabilidade olha para frente e pergunta: o que eu posso fazer daqui em diante?

Uma paralisa, a outra devolve autonomia.

Sair do lugar de espera, aquele em que você só fica bem se o outro mudar, é um dos trabalhos centrais da terapia. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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Hábito 6: viver por valores, não por humor

Muita gente organiza a própria vida em torno de uma pergunta aparentemente inofensiva: do que eu estou com vontade hoje?

O problema é que vontade muda. Humor muda. Energia muda. Existem dias em que estudar parece fácil e dias em que parece impossível. Dias em que colocar limites é simples e dias em que você diz sim para tudo só para evitar conflito.

Quem vive seguindo o humor entrega a própria vida a algo instável por natureza. É por isso que tantos projetos começam e não terminam: a academia, a dieta, a terapia, a mudança de comportamento prometida. Não é incapacidade. É ter contado com uma motivação que não foi feita para durar.

A alternativa vem da Terapia de Aceitação e Compromisso: viver orientado por valores. Valores são direções, não metas. Se um dos seus é a saúde, ele continua existindo no dia em que você não está com vontade de treinar. Se é a família, continua existindo no dia em que você está irritado com seu parceiro.

O que diz a pesquisa

Na Terapia de Aceitação e Compromisso, valores são definidos como direções de vida escolhidas livremente, e a proposta central é agir de acordo com elas mesmo na presença de desconforto. É o oposto de condicionar a ação ao estado emocional do dia.

Estudos sobre os mecanismos da abordagem indicam que o aumento da ação orientada por valores, junto com a redução da fusão com os próprios pensamentos, está associado à diminuição de sofrimento e sintomas depressivos ao longo do tratamento.

A pergunta muda, e com ela muda o resultado:

Em vez de "do que estou com vontade", pergunte: que comportamento me aproxima da pessoa que eu quero me tornar?

Isso não é ignorar as emoções. Como resume Alana no episódio, as emoções são excelentes conselheiras e péssimas administradoras. Vale escutar o que elas comunicam. Não vale entregar a elas o comando.

Hábito 7: revisar a própria forma de reagir

O último hábito é o mais simples de executar e o mais raro de encontrar.

Atletas assistem aos próprios jogos. Palestrantes revêem as próprias palestras. Pilotos revisam voos. Empresários analisam resultados. Quase ninguém revisa a própria vida emocional.

Não se trata de remoer nem de se julgar. Trata-se de aprender consigo mesma. Alana sugere um exercício de menos de cinco minutos, antes de dormir, com quatro perguntas:

  1. Que emoção apareceu com mais frequência no meu dia?
  2. O que despertou essa emoção?
  3. O que ela me ensinou sobre mim, sobre os outros ou sobre o mundo?
  4. Existe alguma resposta que eu gostaria de praticar da próxima vez?

Com o tempo, o processo deixa de precisar das perguntas escritas. Você começa a enxergar padrões: que situações mais te ativam, que pessoas despertam o quê, que pensamentos aparecem com mais frequência. E, principalmente, começa a notar evoluções pequenas que antes passavam batido.

O que isso tudo quer dizer

Desenvolver inteligência emocional não é parar de errar. É errar, aprender, ajustar e tentar de novo.

Pessoas emocionalmente maduras não se formam em grandes momentos de virada. Elas se formam em escolhas pequenas que se repetem: uma pausa antes de responder, uma emoção reconhecida, um limite colocado, uma decisão tomada com mais consciência.

Escolha um hábito. Não os sete. Um. Pratique-o por uma semana e observe o que muda.

Mais de 150 mil atendimentos realizados. Os sete hábitos deste artigo são trabalhados de forma estruturada na Terapia Cognitivo-Comportamental, com uma psicóloga acompanhando ponto por ponto. Sessões 100% online, de onde você estiver.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Salovey, P., & Mayer, J. D. (1990). Emotional intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185-211. journals.sagepub.com
  2. Simons, J. S., & Gaher, R. M. (2005). The Distress Tolerance Scale: Development and validation of a self-report measure. Motivation and Emotion, 29(2), 83-102. link.springer.com
  3. Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change (2ª ed.). Guilford Press.
  4. Gloster, A. T., et al. (2018). Improvements in depression and mental health after Acceptance and Commitment Therapy are related to changes in defusion and values-based action. Journal of Contemporary Psychotherapy. ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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