Sentir-se bem consigo mesmo e por que "se ame mais" nunca funcionou
Perseguir autoestima significa precisar se sair bem o tempo todo. A pesquisa aponta para outro caminho, mais estável e com evidência acumulada: tratar a si mesma como você trataria alguém de quem gosta.
Existe uma voz que comenta a sua vida por dentro. Ela reparou naquilo que você falou na reunião. Ela lembrou, às onze da noite, de uma coisa constrangedora de 2019. E ela usa com você um tom que você não usaria com ninguém.
Se alguém falasse com a sua melhor amiga daquele jeito, você interviria. Com você mesma, aquilo parece apenas realismo.
Mudar a relação com a própria voz interna é trabalho de terapia. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas que trabalham autocrítica, autoimagem e ansiedade, com atendimento 100% online.
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Quase todo conselho sobre o tema pede a mesma coisa: eleve a sua autoestima. Reconheça suas qualidades. Tenha orgulho do que você é.
Repare no que essa instrução exige. Para se sentir bem, você precisa concluir que é boa em alguma coisa. E como saber se você é boa? Comparando. Com quem você era, com quem está ao lado, com o que esperavam de você.
O problema aparece nos dias em que a comparação não favorece. Você errou, foi preterida, não deu conta. A autoestima construída sobre desempenho cai exatamente quando você mais precisaria dela.
Kristin Neff e Roos Vonk compararam diretamente as duas formas de se relacionar consigo: a autoestima global e a autocompaixão.
A autocompaixão previu um sentimento de valor próprio mais estável ao longo do tempo, e menos dependente de resultados específicos. Também apareceu com associação negativa mais forte com comparação social, autoconsciência diante dos outros, ruminação e raiva.
Publicado no Journal of Personality em 2009.
Traduzindo: quem se trata com decência nos próprios erros oscila menos, se compara menos e rumina menos. Não porque acha que é excelente, mas porque o valor que sente por si não está pendurado no resultado da semana.
A autoestima pergunta se você é boa o bastante. A autocompaixão não faz essa pergunta.
O que a pesquisa oferece no lugar
Autocompaixão é um conceito com definição fechada e instrumento de medida validado, não uma ideia motivacional. Em resumo: tratar a si mesma, diante do próprio sofrimento e das próprias falhas, do jeito que você trataria alguém de quem gosta.
Isso costuma parecer óbvio até a pessoa tentar. A maioria descobre que sabe exatamente o que dizer para uma amiga na mesma situação, e não consegue dizer nada parecido para si.
As três partes, e a que mais importa
Autobondade no lugar do autojulgamento
Falar consigo com a mesma decência que você usaria com outra pessoa. Não é elogio nem negação do erro: é a diferença entre "isso não deu certo e eu preciso rever" e "eu sou um desastre".
Humanidade compartilhada no lugar do isolamento
Esta é a parte mais subestimada, e costuma ser a que produz alívio primeiro.
Quando algo dá errado, a mente adiciona uma segunda camada: só comigo que é assim. Todo mundo parece dar conta, e você parece a única que não consegue. Reconhecer que falhar, sentir vergonha e não dar conta são experiências humanas, e não defeitos pessoais, retira essa camada extra.
Atenção plena no lugar da identificação excessiva
Conseguir olhar o que está sentindo sem virar aquilo. Existe diferença entre "estou com um pensamento de que sou incompetente" e "eu sou incompetente". A primeira frase deixa espaço para respirar; a segunda, não.
O que a evidência mostra
Uma meta-análise reuniu 20 amostras de 14 estudos que mediram autocompaixão e sintomas de sofrimento psíquico.
A associação encontrada foi grande: r = -0,54, com intervalo de confiança de 95% entre -0,57 e -0,51. Ou seja, quanto maior a autocompaixão, menores os níveis de depressão, ansiedade e estresse relatados. Os autores não encontraram evidência significativa de viés de publicação.
A ressalva necessária: esses estudos são correlacionais. Eles mostram que as duas coisas andam juntas, não que uma causa a outra. O que sustenta o caminho na prática clínica é o conjunto: essa associação consistente somada a intervenções que treinam autocompaixão e acompanham o que acontece depois.
Publicada no Clinical Psychology Review em 2012.
"Isso não é passar a mão na própria cabeça?"
Essa é a objeção mais comum, e vale levar a sério, porque quase sempre vem acompanhada de um medo específico: se eu parar de me cobrar, eu paro de fazer as coisas.
A ideia por trás disso é que a autocrítica funciona como motor. Na prática clínica, o que se observa costuma ser o contrário: a autocrítica dura produz evitação. Quem sabe que vai se destruir depois de errar tende a adiar, a não tentar, a não se expor. O medo do próprio julgamento paralisa mais do que motiva.
E há uma distinção que resolve boa parte da dúvida. Autocompaixão não é dizer que estava tudo bem. É separar o que você fez do que você é. Assumir o erro exige uma pessoa inteira o suficiente para encará-lo, e quem está se despedaçando não tem essa disponibilidade.
Por onde começar
- A pergunta da amiga. Na próxima vez que se cobrar, escreva o que você diria a uma amiga na mesma situação. Depois leia em voz alta, dirigido a você. O contraste costuma ser desconfortável, e é justamente aí que dá para trabalhar.
- Nomear em vez de encarnar. Trocar "eu sou um fracasso" por "estou tendo o pensamento de que sou um fracasso". Parece detalhe de linguagem, e é o que cria a distância necessária para não obedecer ao pensamento.
- Procurar a humanidade compartilhada. Diante do "só comigo", perguntar honestamente quantas pessoas já passaram por algo parecido. A resposta quase sempre é: muitas, em silêncio.
- Reduzir a comparação, não vencê-la. Se a autoestima depende de comparar, cortar a fonte da comparação vale mais do que tentar ganhar dela. Isso inclui o que você consome nas redes.
- Um gesto físico. Uma mão sobre o peito, respiração mais lenta. Parece pequeno demais para o tamanho do assunto. É um sinal de segurança que o corpo entende, e vale mais nos momentos em que o pensamento não alcança.
Nenhum desses itens muda uma voz interna de trinta anos numa semana. Eles abrem espaço para que a mudança seja possível, e é isso que a terapia sustenta ao longo do tempo.
Quando vale procurar ajuda
Autocrítica todo mundo tem. Alguns sinais indicam que ela passou do ponto:
- A voz interna é constante e você não lembra de um dia sem ela
- Você evita oportunidades por antecipar o próprio julgamento
- Elogio causa desconforto, e crítica derruba por dias
- Perfeccionismo que atrasa ou impede entregas
- Sensação persistente de ser uma fraude
- Humor deprimido, ansiedade ou insônia junto de tudo isso
Na terapia, esse trabalho costuma começar identificando de onde vem essa voz, porque ela quase nunca nasceu com a pessoa: foi aprendida em algum lugar, com alguém, em alguma época. Reconhecer a origem não resolve sozinho, mas tira dela o ar de verdade absoluta.
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Referências
- MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Neff, K. D., & Vonk, R. (2009). Self-compassion versus global self-esteem: Two different ways of relating to oneself. Journal of Personality, 77(1), 23-50. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101.
Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).


