Psicologia na Prática · Autoconhecimento

Como se tornar a pessoa que você sempre sonhou ser (e por que brigar consigo mesmo não funciona)

Carl Rogers descobriu um paradoxo que a ciência confirmou décadas depois: a mudança real começa quando você para de lutar contra quem você é. Três pilares para sair do lugar.

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Alana Anijar 27 de agosto de 2026 13 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática tirando uma máscara e olhando para um caminho que se abre à frente

Você já sentiu que vive uma vida que não representa quem você é? Já tentou mudar, de verdade, e percebeu que alguma coisa sempre te puxa de volta para os mesmos padrões?

Essa sensação de estar presa é mais comum do que parece. E a explicação para ela raramente é falta de força de vontade.

No episódio "Como me tornar a pessoa que sempre sonhei", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar recorre a um dos nomes mais importantes da psicologia, Carl Rogers, para responder a uma pergunta que atravessa qualquer jornada de desenvolvimento pessoal: por que é tão difícil mudar, e o que de fato faz alguém se tornar quem gostaria de ser.

A resposta se organiza em três pilares: vulnerabilidade, autenticidade e autorresponsabilidade. Neste artigo, aprofundamos cada um deles com as pesquisas que sustentam a ideia.

Sente que já tentou mudar de tudo quanto é jeito e continua no mesmo lugar? Um artigo ajuda a entender o mecanismo. A terapia trabalha as crenças que mantêm o padrão no lugar.

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O paradoxo de Carl Rogers: aceitar para mudar

Carl Rogers foi um psicólogo americano que revolucionou a terapia do seu tempo com a abordagem humanista e a chamada terapia centrada na pessoa. A ideia central dele é simples de enunciar e difícil de viver: todo ser humano carrega dentro de si um potencial para crescer e se tornar a melhor versão de si mesmo. O que costuma impedir isso são as condições ao redor e as crenças que internalizamos ao longo da vida.

Se a frase "sua melhor versão" soa como jargão de rede social, vale saber que Rogers a formulou há mais de sessenta anos, num livro chamado justamente Tornar-se Pessoa. E a frase mais famosa dele, no mesmo livro, é esta:

A curiosa contradição é que, quando eu me aceito como sou, então eu posso mudar.

O que diz a pesquisa

A frase está em On Becoming a Person, publicado em 1961 e traduzido no Brasil como Tornar-se Pessoa. Rogers escreveu depois de décadas atendendo pacientes, e a conclusão dele era clínica, não motivacional: a mudança profunda só acontece quando a pessoa aceita a si mesma por inteiro, incluindo os sentimentos que costuma reprimir. Quem conhece a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) vai reconhecer a mesma lógica em linguagem contemporânea.

O que isso quer dizer na prática? Que a transformação verdadeira só começa quando a gente para de brigar com quem a gente é.

Alana conta no episódio que passou a infância e a adolescência inteiras nessa briga. Não gostava da própria personalidade, do corpo, da aparência. Queria outra vida, outra família. Achava que todo mundo era mais inteligente, mais bonito, mais habilidoso. E tudo isso a aprisionava num ciclo de insatisfação consigo mesma. Foi só quando parou de tratar a si própria como inimiga que o processo de mudança começou a andar.

Por que seu cérebro sabota a mudança

Existe um motivo fisiológico para a resistência que você sente sempre que tenta fazer diferente. O cérebro está o tempo todo tentando economizar energia. Por isso ele prefere o que é familiar e previsível. Qualquer mudança real, por definição, não é nem uma coisa nem outra.

Sair da zona de conforto ativa o sistema de alerta. O corpo reage como se houvesse um perigo, mesmo quando a "ameaça" é apenas uma conversa difícil, um pedido de aumento ou um limite colocado numa amizade.

O que diz a pesquisa

Essa tendência tem nome na literatura científica: viés do status quo. William Samuelson e Richard Zeckhauser, em estudo publicado no Journal of Risk and Uncertainty em 1988, mostraram em uma série de experimentos que as pessoas escolhem de forma desproporcional a opção de "não fazer nada" ou manter a decisão anterior. O efeito apareceu inclusive em decisões importantes da vida real, como a escolha de planos de saúde e de aposentadoria. Manter tudo como está é a escolha padrão do cérebro humano, não um defeito seu.

E aqui está o detalhe que muda tudo:

O desconforto que você sente ao mudar não significa que está no caminho errado. Muitas vezes significa que está crescendo.

Quem espera que a mudança venha acompanhada de conforto vai desistir na primeira semana. Quem entende que o desconforto faz parte do processo consegue atravessá-lo.

Pilar 1: vulnerabilidade como caminho de crescimento

A palavra vulnerabilidade assusta. No nosso imaginário, ser vulnerável é sinônimo de fraqueza, de se expor demais, de correr risco. Na realidade, é o que permite criar conexões genuínas e evoluir de verdade.

Rogers dizia que, para nos tornarmos quem realmente queremos ser, precisamos sair de trás das máscaras que criamos para nos proteger. Pense em quantas vezes você já escondeu sua opinião para evitar conflito. Ou quantas vezes teve medo de mostrar o que sentia por receio do julgamento.

A gente aprende cedo a se moldar para ser aceito. O problema é que isso vai nos afastando de quem somos.

O que diz a pesquisa

A pesquisadora Brené Brown, da Universidade de Houston, entrevistou 215 mulheres para entender como a vergonha funciona e como algumas pessoas desenvolvem resistência a ela. O estudo, publicado em 2006 no periódico Families in Society, identificou a vulnerabilidade reconhecida como um dos componentes centrais dessa resiliência: quem admite as próprias fragilidades, em vez de escondê-las, lida melhor com a vergonha e constrói relações de mais empatia.

Vulnerabilidade, em resumo, é a coragem de expor o que você sente, correr riscos e tirar as máscaras. Aceitar as próprias imperfeições e se permitir errar. Porque é isso, e não a perfeição, que faz alguém crescer.

Pilar 2: autenticidade, ou parar de se moldar para agradar

Se a vulnerabilidade é como você expressa quem você é, a autenticidade tem a ver com quem você é. É a coragem de ser você mesma sem medo de rejeição.

Parece simples. Na prática é um dos maiores desafios que existem, porque fomos treinados desde cedo para nos encaixar: bom aluno, bom profissional, bom filho. Somos condicionados a atender expectativas externas. E o que acontece quando alguém passa anos tentando agradar todo mundo, menos a si mesmo? Vai se afastando da própria essência.

Um alerta importante: ser autêntico não é sair por aí dizendo tudo o que pensa sem filtro, nem viver alheio ao mundo agradando só a si. Autenticidade é fazer escolhas alinhadas aos seus valores. E valores a gente vai descobrindo com o tempo, com maturidade e autoconhecimento.

Alguns exemplos que Alana traz no episódio:

  • Continuar num trabalho que esgota porque acredita que não há outra opção
  • Manter amizades que já não fazem sentido só por conveniência
  • Dizer sim a compromissos que não quer só para não desagradar
  • Mudar o próprio jeito de ser porque alguém disse que você era expansiva demais, ria alto demais

Em cada um desses casos, a pergunta a fazer é a mesma: isso reflete quem eu sou?

O que diz a pesquisa

Um grupo de pesquisadores britânicos liderado por Alex Wood desenvolveu uma escala científica de autenticidade, publicada em 2008 no Journal of Counseling Psychology. O modelo tem três dimensões: viver de forma autêntica, aceitar influência externa e se sentir alienado de si mesmo. Cada uma delas se mostrou fortemente associada à autoestima e ao bem-estar, tanto o subjetivo (como a pessoa se sente) quanto o psicológico (o quanto ela funciona bem na vida). Em outras palavras: quanto mais alguém se molda às expectativas dos outros, pior tende a ser seu bem-estar.

Claro que precisamos perceber os feedbacks e a forma como afetamos as pessoas. Adaptar-se faz parte de viver em sociedade. O cuidado é para que essa adaptação não reprima completamente quem você é.

Descobrir os próprios valores exige olhar para dentro com honestidade, e isso é difícil de fazer sozinha. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental para conduzir esse processo com você.

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Pilar 3: autorresponsabilidade e a escolha dos ambientes

Aqui entra o terceiro pilar, e ele é o que tira a ideia do campo filosófico e coloca no campo da ação. A mudança não acontece sozinha. Não adianta querer ser autêntica e vulnerável se você continua cercada de ambientes e pessoas que te bloqueiam, que te abafam.

O meio em que você vive determina diretamente a sua capacidade de mudar, melhorar e crescer.

Você provavelmente já ouviu a frase atribuída ao palestrante Jim Rohn: "você é a média das cinco pessoas com quem mais convive". Não é uma conta matemática, claro. Mas pare e pense nas pessoas mais próximas de você. No nível profissional, financeiro, de desenvolvimento pessoal, de saúde mental, é provável que você esteja muito parecida com elas, um pouco acima, um pouco abaixo.

O que diz a pesquisa

A intuição por trás da frase tem apoio em ciência séria. Nicholas Christakis (Harvard) e James Fowler (Universidade da Califórnia) analisaram uma rede social de 12.067 pessoas acompanhadas por 32 anos e publicaram o resultado no New England Journal of Medicine em 2007. Comportamentos e condições de saúde se espalhavam pela rede como um contágio, com efeito mensurável até três graus de distância: seus amigos, os amigos deles e os amigos dos amigos deles. O estudo mediu obesidade, mas os mesmos autores encontraram depois padrões parecidos para felicidade e outros comportamentos.

Se você está cercada de pessoas que desmotivam, invalidam suas ideias e não valorizam sua autenticidade, crescer fica muito mais difícil. Então vale a reflexão honesta:

  • Quem são hoje as pessoas que me cercam?
  • Elas me aproximam da minha melhor versão ou me mantêm presa aos velhos padrões?
  • Quais ambientes eu escolho frequentar?
  • O que eu consumo, quem eu escuto, com quem eu divido meus planos?

Nem tudo está sob seu controle. Mas boa parte dessas escolhas está. Autorresponsabilidade é assumir a parte que é sua.

Onde você está na jornada

Alana faz uma ressalva no episódio que merece destaque, porque é onde muita gente se machuca.

Ela conta que vive hoje a vida que sempre sonhou: um casamento de mais de dez anos, dois filhos, uma profissão com sentido, uma casa. E que nada disso apareceu do nada. Foram anos e anos de trabalho nesses três pilares, desde a criança boazinha que fazia tudo para agradar e não sabia dizer não até a mulher que aprendeu a ser firme e assertiva.

O problema é quando a gente conhece alguém que já chegou em vários lugares e se compara, estando no início do próprio processo. Talvez você esteja começando agora a refletir sobre suas escolhas e seus valores. Talvez este seja o primeiro conteúdo sobre o tema que você consome. E aí você olha para trás, descobre um monte de coisa para mudar e se sente atrasada.

Não é atraso. É início. E dá para ser responsável por si sem ser cruel consigo. Respeitar o processo e entender onde você está nele faz parte da autorresponsabilidade, não é o contrário dela.

Se tivesse que resumir o episódio em três aprendizados, ficaria assim:

  1. Seja vulnerável. Aceite suas imperfeições e se permita errar. É isso que faz você crescer.
  2. Trabalhe para ser autêntica. Pare de se moldar para agradar o tempo todo. Descubra seus valores, porque são eles que apontam para a pessoa que você quer ser.
  3. Seja responsável por quem você quer se tornar. Escolha seus ambientes com sabedoria. Escolha as pessoas que te impulsionam. Escolha a mudança, mesmo que ela assuste.

A transformação que você busca não está lá na frente. Ela começa agora, nas pequenas escolhas diárias. A pergunta para levar deste artigo é: o que você pode fazer hoje para se aproximar da sua melhor versão?

Se quiser continuar por esse caminho, vale ler também o artigo sobre as competências de um adulto emocionalmente saudável, que detalha o que uma vida madura pede na prática, e o texto sobre os hábitos que treinam inteligência emocional, onde a ideia de viver por valores aparece como ferramenta do dia a dia.

Quando o processo trava

Às vezes a pessoa entende tudo isso, concorda com tudo isso, e mesmo assim não sai do lugar. Tenta ser mais autêntica e a culpa aparece. Tenta colocar limites e o medo de rejeição paralisa. Tenta escolher ambientes melhores e se vê de volta aos mesmos.

Quando isso acontece, o que está segurando quase sempre são crenças antigas: "se eu desagradar, vão me abandonar", "quem eu sou de verdade não é suficiente", "eu não mereço mais do que isso". Crenças assim não se resolvem com um episódio de podcast, por melhor que ele seja. Elas se trabalham na terapia, onde é possível identificar de onde vieram e construir, aos poucos, um jeito novo de se relacionar consigo.

É exatamente o que Rogers descobriu na clínica: a aceitação que abre caminho para a mudança nasce, muitas vezes, dentro de uma relação segura com alguém que te aceita primeiro.

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Assista ao episódio completo

Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist's View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin. Edição brasileira: Tornar-se Pessoa, Martins Fontes. registro da citação
  2. Samuelson, W., & Zeckhauser, R. (1988). Status quo bias in decision making. Journal of Risk and Uncertainty, 1(1), 7-59. doi.org/10.1007/BF00055564
  3. Brown, B. (2006). Shame resilience theory: A grounded theory study on women and shame. Families in Society, 87(1), 43-52. doi.org/10.1606/1044-3894.3483
  4. Wood, A. M., Linley, P. A., Maltby, J., Baliousis, M., & Joseph, S. (2008). The authentic personality: A theoretical and empirical conceptualization and the development of the Authenticity Scale. Journal of Counseling Psychology, 55(3), 385-399. eric.ed.gov/?id=EJ802539
  5. Christakis, N. A., & Fowler, J. H. (2007). The spread of obesity in a large social network over 32 years. New England Journal of Medicine, 357(4), 370-379. nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMsa066082
  6. Fowler, J. H., & Christakis, N. A. (2008). Dynamic spread of happiness in a large social network: longitudinal analysis over 20 years in the Framingham Heart Study. BMJ, 337, a2338. bmj.com/content/337/bmj.a2338

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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