10 maneiras não óbvias de cuidar da sua saúde mental
Dormir bem, comer melhor e se exercitar você já sabe. A psicóloga Alana Anijar mostra dez práticas menos faladas que mudam a forma como você vive, e a ciência explica por que elas funcionam.
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Dormir bem, comer melhor, fazer exercício. Você já ouviu essas três recomendações mais vezes do que consegue contar, e elas continuam valendo. Mas se fossem suficientes, bastaria uma boa rotina de sono para ninguém mais viver esgotado.
Existe um outro conjunto de práticas, menos comentado, que age justamente onde o esgotamento nasce: nos limites que você não coloca, nas conversas que você engole, no ambiente que te sobrecarrega sem você perceber.
No episódio "10 maneiras não óbvias de melhorar a sua saúde mental", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, reúne dez dessas práticas. Neste artigo, percorremos cada uma delas e trazemos as pesquisas que explicam por que funcionam.
No final, você encontra o exercício de autoavaliação que a Alana propõe para transformar a lista em plano.
Você lê sobre saúde mental, tenta aplicar e sente que continua no mesmo lugar? Conteúdo informa, mas não trata. Quem transforma padrão de comportamento é o processo terapêutico.
Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →1. Coloque limites e defenda os seus
Muitas vezes o esgotamento não vem do trabalho em si, mas das demandas que você aceitou sem pensar. Quando você não coloca limites, está dizendo ao seu cérebro que as necessidades dos outros importam mais que as suas. Isso mantém o sistema de estresse ativado e alimenta a ansiedade.
Colocar limite dá medo: de decepcionar, de parecer egoísta. Mas pior do que o desconforto de um não é viver ressentida e sobrecarregada. E o limite não precisa ser duro. Diante daquele pedido de favor fora de hora, experimente: "eu adoraria te ajudar, mas agora não vou conseguir". Sem justificativa longa, sem pedido de desculpas em excesso.
Um exemplo que a Alana conta no episódio: uma pessoa se sentia desrespeitada pelas piadas de um amigo sobre um assunto delicado da vida dela. Reagia com sorriso amarelo, e nunca tinha dito que aquilo a machucava. O limite ali seria uma frase: "toda vez que eu falo desse assunto, você vem com esse tipo de piada, e isso me chateia. Eu gostaria que você não falasse assim". Gera um desconforto momentâneo, e compra uma liberdade que o silêncio nunca compraria.
2. Diga não sem se sentir culpada
Aquela voz interna que te faz sentir mal depois de recusar um convite nasce de uma ideia equivocada: a de que você precisa agradar a todos para ser aceita.
Quando você diz sim para todo mundo, acaba dizendo não para si mesma.
O resultado é frustração, cansaço e uma sensação persistente de desrespeito consigo mesma. A prática aqui é simples de descrever e difícil de executar: quando a resposta interna for não, que a resposta externa também seja. "Obrigada pelo convite, mas dessa vez eu não vou poder." Ponto. O objetivo não é dizer não para tudo, é garantir que o seu sim, quando vier, seja um sim de coração.
3. Reavalie suas prioridades
Quantas vezes você se pegou no piloto automático, correndo de um lado para o outro, sem saber por que se dedica tanto a certas coisas? Quando a gente vive assim, o cérebro entra em modo de sobrevivência: você faz muito e sente que não realizou nada. A conta chega em forma de insatisfação e desânimo.
O antídoto é uma pergunta: se você tivesse que escolher três coisas para focar neste semestre, quais seriam? Escreva as três. Depois, observe o que está ocupando espaço na sua agenda sem ter relação com nenhuma delas. Prioridade que não cabe na agenda não é prioridade, é intenção.
Há estações da vida em que o trabalho fica em segundo plano, outras em que ele avança. O critério não é dar conta de tudo, é estar em paz com a escolha, porque ela reflete os seus valores naquele momento.
4. Comunique o que você sente
Vulnerabilidade assusta, mas liberta. Quando você engole o que sente, não elimina a emoção: acumula. E o que se acumula, eventualmente explode. Falar sobre o que sente é liberar a pressão da panela antes que ela estoure.
Os psicólogos James Gross (Stanford) e Robert Levenson (Berkeley) estudaram o que acontece quando suprimimos a expressão das emoções. Em experimento publicado no Journal of Abnormal Psychology, participantes que esconderam suas reações ao assistir a filmes emocionais apresentaram maior ativação do sistema nervoso simpático, o mesmo sistema da resposta de estresse. Ou seja: engolir a emoção não a apaga, cobra do corpo o preço de segurá-la.
Na prática: da próxima vez que se sentir sobrecarregada, experimente dizer a alguém próximo "eu estou exausta, preciso de um tempo para mim. Você pode me ajudar?". Se há uma mágoa antiga com alguém importante, talvez seja a hora da conversa que você vem adiando. E se expressar o que sente parece impossível, isso tem nome e tem tratamento: a terapia é justamente o ambiente protegido onde essa habilidade se aprende.
Comunicar emoções é um dos pilares da inteligência emocional, e ela não é dom: se treina. Aprofundamos isso no artigo sobre os 7 hábitos que treinam a inteligência emocional, também nascido de um episódio do podcast.
5. Ouça mais, fale menos
Repare como é difícil ouvir alguém sem já preparar a resposta, sem já buscar uma história sua para encaixar. Ouvir de verdade é um presente que você dá ao outro e, ao mesmo tempo, a si mesma: torna você menos reativa e mais reflexiva, reduz conflitos e aprofunda as relações.
O convite da Alana inverte uma expectativa comum. A gente costuma achar que cuidar da saúde mental é ser mais ouvida, mais ajudada, mais acolhida. Às vezes o movimento que cura é o contrário: você queria ser mais ouvida? Ouça mais. Queria que te ajudassem? Ofereça ajuda. Quem espera que a amizade bata na porta continua sozinha; quem abre a porta e convida, constrói o que estava esperando receber.
Teste hoje: na próxima conversa, faça perguntas e diga "me conta mais sobre isso". Observe o que acontece com a qualidade do diálogo.
6. Cuide do ambiente ao seu redor
Olhe ao redor agora. Como está o espaço em que você vive e trabalha? O ambiente físico reflete e retroalimenta o estado emocional: bagunça e coisas quebradas funcionam como um gatilho constante de sobrecarga visual, enquanto um espaço organizado transmite calma ao cérebro.
As psicólogas Darby Saxbe e Rena Repetti (UCLA) pediram que 60 pessoas descrevessem as próprias casas e acompanharam seu cortisol ao longo de dias. Publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, o estudo mostrou que as mulheres que descreviam a casa com palavras de bagunça e acúmulo apresentaram padrão achatado de cortisol ao longo do dia, um perfil associado a pior saúde, enquanto quem descrevia a casa como restauradora mostrava o padrão saudável.
A aplicação é modesta e imediata: uma gaveta, um armário, uma mesa. Separe o que doar e o que jogar fora. A sensação de organização interna que vem depois não é impressão, é o seu sistema de estresse agradecendo.
Se a sobrecarga já virou o seu estado padrão, organizar a gaveta não vai bastar. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental, com atendimento 100% online.
Agendar minha primeira sessão →7. Reduza notificações e tempo de tela
Cada notificação ativa o sistema de recompensa do cérebro e o acostuma a estímulos rápidos e superficiais. Quanto mais você mima o cérebro com recompensa fácil, mais difícil fica engajá-lo em tarefas profundas: ler um livro, sustentar uma conversa, terminar um trabalho que exige concentração.
Um experimento liderado por Adrian Ward (Universidade do Texas), publicado no Journal of the Association for Consumer Research, sugeriu que a simples presença do celular sobre a mesa, mesmo desligado, já reduz a capacidade cognitiva disponível, e que o efeito era maior em quem dependia mais do aparelho. Uma replicação posterior, na Acta Psychologica, não encontrou o mesmo efeito, então esse ponto específico segue em debate na ciência. O que é bem estabelecido é o custo da interrupção: cada checada fragmenta a atenção e cobra um tempo de reengajamento.
O desafio prático: desative as notificações que não são essenciais, estabeleça horários fixos para checar mensagens e escolha um período do dia em que o celular fica longe do alcance. Não é abandonar a tecnologia, é decidir quem manda em quem.
8. Aceite que está tudo bem desacelerar
Vivemos numa cultura que glorifica o ocupado. Nela, descansar parece perda de tempo, e a gente adia o descanso como se ele fosse um luxo para depois. Mas o descanso é parte do funcionamento, não pausa dele: é ele que reduz os hormônios do estresse, restaura a criatividade e previne o esgotamento.
O objetivo é chegar ao fim do ano tendo equilibrado o quanto você produziu com o quanto você cuidou de si.
Comece pequeno: dez minutos por dia para algo que você ama. Um capítulo de livro, um chá sem celular por perto, simplesmente olhar pela janela. O ponto não é a atividade, é a intencionalidade: descanso que entra na rotina de propósito, e não só quando o corpo desaba.
9. Revise suas amizades
Quem são as pessoas que te levantam, e quem são as que te sugam? Relações desgastantes elevam o estresse; conexões saudáveis devolvem energia, propósito e pertencimento. E isso não é força de expressão: a qualidade dos vínculos é um dos preditores mais fortes de saúde que a ciência conhece.
A psicóloga Julianne Holt-Lunstad (Universidade Brigham Young) reuniu 148 estudos com mais de 308 mil participantes em uma meta-análise publicada na PLoS Medicine. Pessoas com relações sociais mais fortes tinham 50% mais chance de sobrevivência no período acompanhado, um efeito comparável ao de parar de fumar e maior que o de fatores como obesidade e sedentarismo.
O exercício da Alana: liste três pessoas que te fazem bem e priorize tempo com elas. Mande mensagem hoje, marque algo. As relações que te drenam vão naturalmente ficando com menos espaço, porque o seu tempo já estará comprometido com quem soma. Para quem desgasta, vale uma conversa honesta antes; se não houver abertura, distância por precaução.
10. Pratique o desconforto intencional
A gente evita situações desconfortáveis por instinto. Mas é exatamente nelas que ocorre o crescimento: o desconforto ensina ao cérebro que você é capaz de lidar com desafios, e essa evidência acumulada tem nome, resiliência.
As pesquisadoras Kaitlin Woolley (Cornell) e Ayelet Fishbach (Universidade de Chicago) testaram, em cinco experimentos com mais de 2 mil adultos publicados na Psychological Science, o que acontece quando a pessoa é orientada a buscar o desconforto como sinal de crescimento, em vez de evitá-lo. Quem adotou essa postura persistiu mais nos exercícios, se engajou mais e percebeu mais progresso do que quem recebeu instruções comuns.
Escolha uma tarefa pequena fora da sua zona de conforto para esta semana: falar em público, puxar uma conversa, tentar algo novo. Vá e faça, com o desconforto junto. Você vai descobrir que o bicho tinha bem menos que sete cabeças, e que a sua capacidade era maior do que a previsão que você fazia dela.
Como transformar a lista em plano
Uma lista de dez práticas lida de uma vez vira ruído. O exercício que a Alana propõe no episódio evita isso:
- Dê uma nota de 0 a 10 para cada um dos dez pontos, avaliando com sinceridade como você está hoje em cada um.
- Marque com um asterisco os dois ou três de nota mais baixa. São eles o seu foco, não os dez.
- Para cada um marcado, escreva uma ação concreta desta semana. Não "colocar mais limites", e sim "falar com fulano sobre aquele assunto na quinta".
Autoavaliação transforma conteúdo em direção. E revisitar as notas dali a três meses mostra um progresso que, no dia a dia, passa despercebido.
Quando o autocuidado não é suficiente
Essas dez práticas são poderosas, e têm um limite honesto: elas funcionam melhor para quem já consegue executá-las. Se colocar limite te paralisa de culpa, se comunicar um sentimento parece fisicamente impossível, se as amizades repetem sempre o mesmo padrão de machucado, o problema não é falta de dica. É um padrão aprendido, e padrão aprendido se trabalha em terapia.
O processo terapêutico investiga onde essas dificuldades nasceram e treina, num ambiente protegido, as habilidades que este artigo só consegue apontar.
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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.
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Referências
- Gross, J. J., & Levenson, R. W. (1997). Hiding feelings: The acute effects of inhibiting negative and positive emotion. Journal of Abnormal Psychology, 106(1), 95-103. PDF no Berkeley Psychophysiology Lab
- Saxbe, D. E., & Repetti, R. (2010). No place like home: Home tours correlate with daily patterns of mood and cortisol. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(1), 71-81. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19934011
- Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one's own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140-154. doi.org/10.1086/691462
- Ruiz Pardo, A. C., & Minda, J. P. (2022). Reexamining the "brain drain" effect: A replication of Ward et al. (2017). Acta Psychologica, 230, 103717. sciencedirect.com
- Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., & Layton, J. B. (2010). Social relationships and mortality risk: A meta-analytic review. PLoS Medicine, 7(7), e1000316. journals.plos.org
- Woolley, K., & Fishbach, A. (2022). Motivating personal growth by seeking discomfort. Psychological Science, 33(4), 510-523. journals.sagepub.com
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