Psicologia na Prática · Saúde mental

Gestão emocional: como controlar emoções fora de controle sem virar uma pessoa fria

Controlar as emoções não é sufocar o que você sente, e também não é obedecer a tudo que sente. A psicóloga Alana Anijar apresenta as três mentes da Terapia Comportamental Dialética e os exercícios para colocar a mais sábia delas no comando.

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Alana Anijar Atualizado em 30 de setembro de 2026 15 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática, sereno, diante de um painel de controle com duas alavancas, uma com um coração e outra com uma engrenagem

Você disse uma coisa no impulso e passou o resto do dia remoendo: "eu não devia ter reagido daquele jeito". Ou fez o contrário: viveu um momento difícil, agiu como se nada tivesse acontecido e só depois percebeu que estava acumulando tudo aí dentro.

As duas cenas parecem opostas, e são o mesmo problema visto de lados diferentes. Numa, a emoção decidiu sozinha. Na outra, ela foi trancada do lado de fora da decisão. Gestão emocional não é nenhuma das duas coisas.

No episódio "Como controlar emoções fora do controle", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar apresenta um mapa simples para sair desse vaivém: as três formas de pensar descritas pela Terapia Comportamental Dialética. Mente racional, mente emocional e mente sábia.

Neste artigo a gente percorre as três, com o teste que ela propõe para descobrir qual delas anda no comando, os exercícios para acessar a mais equilibrada e as pesquisas que sustentam cada ponto.

As suas emoções têm decidido por você, ou você tem vivido no automático para não sentir? Entender o mapa ajuda. Mudar o padrão, com alguém treinado para isso ao seu lado, é o que a terapia faz.

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Antes de controlar: emoção não é só sentimento

Quando a gente diz "estou com raiva", "estou triste" ou "estou ansiosa", parece que está falando de uma coisa só. Não está. Uma emoção é um pacote com pelo menos quatro partes:

  • Sensações físicas: o nó na garganta, o coração acelerado, o peso no corpo
  • Pensamentos: muitas vezes negativos, catastróficos ou distorcidos
  • Impulso para a ação: a vontade de sair correndo, de gritar, de se isolar
  • Comportamento: o que você efetivamente faz a partir dali

Essa distinção muda o que "controlar" quer dizer. Você não escolhe a sensação que aparece, nem o primeiro pensamento que passa. Mas entre o impulso e o comportamento existe uma margem, e é nela que a gestão emocional acontece.

Como a Alana resume no episódio, controlar emoções não significa suprimir nem fingir que elas não existem. Significa aprender a administrar tudo isso com mais consciência.

O que diz a pesquisa

O psicólogo James Gross, da Universidade Stanford, comparou duas formas de lidar com uma emoção: reavaliar a situação (mudar a forma de interpretá-la) e suprimir (esconder os sinais do que se sente). Em revisão publicada na Psychophysiology em 2002, ele mostra que a supressão reduz a expressão, mas não reduz a emoção que a pessoa sente.

E ainda cobra um preço: prejudica a memória e aumenta a ativação fisiológica, tanto de quem suprime quanto de quem está conversando com essa pessoa.

Em outras palavras: engolir o que sente não é controle. A emoção continua lá, só que sem ninguém olhando para ela.

Mente racional: quando a lógica vira esconderijo

A Terapia Comportamental Dialética (DBT, na sigla em inglês) foi criada pela psicóloga americana Marsha Linehan e é uma das terapias mais indicadas para o transtorno de personalidade borderline. Mas as habilidades que ela ensina, principalmente as de regulação emocional, podem ajudar qualquer pessoa. Uma das primeiras é reconhecer três estados da mente.

O primeiro é a mente racional, que a Alana chama de self racional. É o modo da lógica, dos fatos e da análise: resolver um problema de matemática, organizar um orçamento, tomar uma decisão com base em dados. Um médico numa emergência precisa ativar essa mente para agir com precisão.

O problema é morar só ali. Quem vive no modo racional vai se desconectando do que sente. É a pessoa que diz que está tudo bem quando claramente não está, que toma decisões objetivas e não consegue lidar com a dor do outro, nem com a própria. As frases típicas desse modo:

  • "Não faz sentido eu parar para sentir isso agora."
  • "Isso não é lógico, não tem por que eu me sentir assim."
  • "Vou ignorar esse sentimento, ele não me ajuda em nada."

Só que emoção ignorada não desaparece. Ela se acumula.

E aqui a Alana desfaz uma confusão comum: ser muito racional não é o mesmo que ser emocionalmente inteligente. A gente tende a achar que a pessoa racional sabe gerir melhor as emoções. Sem o outro lado, ela pode acabar tomando decisões muito erradas.

O que diz a pesquisa

Um experimento clássico da Universidade de Iowa, publicado na Science em 1997 por Antoine Bechara, Hanna Damasio, Daniel Tranel e Antonio Damasio, colocou pessoas diante de um jogo de cartas com baralhos vantajosos e desvantajosos. Os participantes saudáveis começaram a escolher bem antes de conseguir explicar a estratégia, e o corpo deles reagia diante das escolhas arriscadas, com alteração na condutância da pele.

Pacientes com lesão no córtex pré-frontal não apresentavam esse sinal e continuavam escolhendo mal, mesmo depois de saber qual era a estratégia certa. A conclusão dos autores: sem esses sinais, o conhecimento consciente pode não bastar para garantir uma boa decisão.

Mente emocional: quando o sentimento dirige sozinho

No outro extremo, a emoção assume o controle total. Você sente e age na hora, sem filtro. Brigou no trânsito e já saiu xingando. Recebeu uma crítica e ficou dias ruminando. Sentiu-se rejeitada e bloqueou a pessoa no WhatsApp, no impulso. (Quem nunca?)

A mente emocional não aparece só nos momentos ruins. Apaixonada, você manda dez mensagens por minuto, ou compra um presente caro que não tem nem como pagar. Também é ela no volante. A lógica interna é sempre a mesma: o que eu sinto decide o que eu faço.

  • "Estou com raiva, então vou falar tudo que penso agora."
  • "Estou triste, então não quero ver ninguém. Vou ficar no quarto até me sentir melhor."
  • "Estou ansiosa, então vou cancelar esse compromisso."

Viver nesse modo tem custo. As decisões saem impulsivas, o arrependimento aumenta e os relacionamentos sofrem com a instabilidade.

Um cuidado importante: quando a intensidade sobe a ponto de você não conseguir pensar, a ordem do trabalho é outra, primeiro o corpo e depois a mente. A gente explica esse caminho em por que "respira fundo" não funciona numa crise de ansiedade.

Mente sábia: sentir e pensar ao mesmo tempo

O terceiro estado é o equilíbrio. Segundo a Alana, é o modo mais saudável, o mais difícil de acessar e o que mais traz transformação prática.

A mente sábia é quando você sente, mas também pensa. É quando você une o seu coração e a sua cabeça.

Na mente sábia você reconhece a emoção e escolhe a melhor forma de agir:

  • Está com raiva, respira fundo e decide esperar antes de responder
  • Está triste e vai para o trabalho mesmo assim, porque sabe que cumprir seus compromissos importa
  • Está ansiosa e lembra que já passou por aquilo outras vezes, e conseguiu lidar

Ela conecta você aos seus valores, ao seu propósito e às suas metas de longo prazo. A fala interna muda de tom: "estou triste, mas sei que preciso cuidar de mim". "Estou com medo, mas preciso agir com coragem." "Isso me incomodou, e eu vou conversar com calma."

O que diz a pesquisa

No manual de habilidades da DBT, Marsha Linehan descreve a mente sábia como a integração da mente emocional com a mente racional: o estado em que a pessoa leva em conta tanto o que sente quanto os fatos. É uma das habilidades centrais de mindfulness do treinamento, e o material parte do princípio de que toda pessoa tem essa sabedoria interna. O que se treina é o acesso a ela.

Quem está no comando? Um teste rápido

Você não muda um estilo de pensamento que nem percebe que está usando. Por isso a Alana propõe três grupos de afirmações. Leia e repare em qual deles você mais se reconhece hoje.

Sinais de que a emoção está no comando

  • Você age por impulso com frequência, e depois se arrepende do que disse ou fez
  • Você costuma se ver em situações de crise, com emoções tão intensas que fica difícil pensar com clareza
  • Suas decisões se baseiam, na maior parte das vezes, só no que você sentiu sobre o que aconteceu
  • Depois de decidir, você fica insegura, se perguntando se fez a escolha certa

Sinais de que a razão está no comando

  • Você costuma ignorar o que está sentindo na hora de tomar decisões
  • Tem sempre uma justificativa lógica para tudo que faz, mesmo quando ainda está abalada
  • Muitas vezes nem sabe direito o que sente, só sabe que precisa seguir em frente
  • Fica mais à vontade falando de fatos do que das suas emoções

Sinais de que a mente sábia está no comando

  • Ao decidir, você leva em consideração tanto o que sente quanto o que pensa
  • Depois de decidir, você costuma ficar em paz, alinhada com você mesma
  • Você se permite sentir as suas emoções, mesmo as desconfortáveis
  • Suas ações costumam aproximar você das suas metas de longo prazo

O teste não é diagnóstico, e ninguém fica num estado só. O mesmo dia pode ter uma manhã racional e uma noite emocional. O que ele mostra é onde você tem passado mais tempo, e para onde vale direcionar o treino.

Se você se reconheceu mais no primeiro ou no segundo grupo, isso não é defeito de caráter. É um padrão aprendido, e padrão se trabalha. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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A checagem mental: a pergunta do post-it

O exercício que a Alana ensina é um mindfulness emocional em versão de bolso. Quando estiver prestes a tomar uma decisão, ou reagindo a algo que aconteceu, pare um instante e pergunte:

Quem está no comando agora?

Estou pensando a partir da mente racional, da emocional ou da sábia? A pergunta não resolve a situação. Ela faz outra coisa: coloca você no lugar de quem observa. E quem observa consegue escolher.

Como no meio da correria ninguém lembra, a saída é espalhar lembretes:

  • Um post-it no computador, no espelho ou no banheiro, com a pergunta "quem está no comando hoje?"
  • A mesma frase na agenda ou no planner
  • Um lembrete diário no celular, num horário estratégico: aquele em que você já sabe que costuma ficar estressada
  • Um símbolo que represente a sua mente sábia, desenhado e deixado à vista em casa ou no trabalho

A pergunta da sabedoria

Saber que a mente sábia existe é uma coisa. Acessá-la quando a situação aperta é outra. Para esses momentos, o exercício preferido da Alana é a pergunta da sabedoria:

"O que a minha mente sábia me diria agora?"

Se a resposta não vier, empreste a sabedoria de alguém. Pense em uma pessoa que represente sabedoria para você: sua mãe, uma amiga, um personagem, alguém da sua fé. A Alana conta que, por causa daquilo em que acredita, costuma se perguntar o que Jesus faria naquela situação. A referência é sua. O que importa é que ela represente, para você, alguém que agiria com mais sabedoria do que o seu impulso do momento.

Depois de perguntar, fique em silêncio e procure escutar a resposta. Pode fechar os olhos, se ajudar. O exercício faz parte do treinamento de habilidades da DBT, que orienta a fazer a pergunta ao inspirar e a escutar a resposta ao expirar. Escutar, e não fabricar uma resposta.

Ele serve principalmente para os momentos em que você percebe que está muito na mente emocional ou muito na racional: a situação ativou você e os pensamentos já estão empurrando para uma reação de que você não vai gostar depois.

O que diz a pesquisa

Por que emprestar o olhar de outra pessoa ajuda? Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, e Ethan Kross, da Universidade de Michigan, chamaram de paradoxo de Salomão um achado de três experimentos com 693 participantes, publicado na Psychological Science em 2014: as pessoas raciocinam com mais sabedoria sobre os problemas dos outros do que sobre os próprios.

Quando os participantes foram instruídos a olhar para o próprio problema com distanciamento, como quem vê de fora, essa diferença desapareceu. O estudo não testou o exercício da DBT, mas ajuda a entender por que perguntar "o que ela faria?" abre uma saída que "o que eu faço?" não abre.

O espaço entre o que acontece e o que você faz

Perto do fim do episódio, a Alana deixa a ideia que amarra todas as outras:

Entre o que acontece e como você age, existe um espaço.

O tamanho desse espaço depende de quanta autoconsciência você tem. Com pouca, ele nem é percebido: aconteceu, reagi. Aconteceu, falei.

Quem treina a metacognição, que é pensar sobre os próprios pensamentos, vai alargando esse intervalo. O conceito foi sistematizado pelo psicólogo John Flavell em artigo de 1979, que o descreve como o conhecimento que temos sobre os nossos próprios processos mentais. No dia a dia, é a capacidade de notar "estou ficando irritada" antes de a irritação virar uma resposta atravessada.

Vale levar a pergunta que ela faz: como está esse espaço entre o que acontece com você e a sua reação? Você tem conseguido pensar sobre as coisas e escolher como agir?

É esse espaço que a mente sábia ocupa. E ele cresce com treino: o post-it, o lembrete, a pergunta feita dez vezes em situações pequenas, para estar disponível na grande. Se quiser continuar esse treino, veja os 7 hábitos de inteligência emocional que se treinam, de outro episódio do podcast.

Quando treinar por conta própria não basta

Controlar emoções fora de controle não é se tornar uma pessoa fria, racional, que finge que está tudo bem o tempo todo. É aprender a reconhecer o que você sente, entender como você funciona e escolher responder a partir da sua parte mais sábia.

Esse self sábio já existe dentro de você. Você só precisa aprender a escutá-lo com mais frequência.

Para muita gente, o post-it e a pergunta da sabedoria já mudam a semana. Para outras pessoas não bastam, e isso não tem a ver com falta de esforço. Vale procurar ajuda profissional quando:

  • as reações impulsivas estão custando relacionamentos, trabalho ou dinheiro
  • as crises emocionais são frequentes e intensas a ponto de você não conseguir pensar
  • você passou tanto tempo no modo racional que já não sabe dizer o que sente
  • o arrependimento depois das reações virou rotina
O que diz a pesquisa

As habilidades da DBT não servem só a quem tem diagnóstico de borderline. Em ensaio clínico piloto publicado na Behaviour Research and Therapy em 2014, Andrada Neacsiu, Marsha Linehan e colegas acompanharam 44 adultos com ansiedade ou depressão, sem transtorno borderline e com alta desregulação emocional. Uma parte fez 16 semanas de treinamento de habilidades da DBT. A outra participou de um grupo de apoio.

O treinamento foi superior para reduzir a desregulação emocional e a ansiedade (na depressão, a diferença entre os grupos não se confirmou), e o uso das habilidades explicou a melhora. É um estudo pequeno, que os próprios autores tratam como promissor e inicial.

Na terapia, esse treino deixa de ser genérico. Você aprende a reconhecer os seus gatilhos, as crenças que alimentam as suas reações e as habilidades que funcionam no seu caso. E, como a gente mostra em o que a terapia faz no cérebro, esse aprendizado não é só conversa.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. LINEHAN, M. M. DBT Skills Training Manual. 2. ed. New York: Guilford Press, 2015. Habilidades de mindfulness: mente racional, mente emocional e mente sábia. guilford.com
  2. LINEHAN, M. M. DBT Skills Training Handouts and Worksheets. 2. ed. New York: Guilford Press, 2015. Mindfulness Handout 3 (Wise Mind: States of Mind) e 3a (Ideas for Practicing Wise Mind). guilford.com
  3. GROSS, J. J. Emotion regulation: affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology, v. 39, n. 3, p. 281-291, 2002. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12212647
  4. BECHARA, A.; DAMASIO, H.; TRANEL, D.; DAMASIO, A. R. Deciding advantageously before knowing the advantageous strategy. Science, v. 275, n. 5304, p. 1293-1295, 1997. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9036851
  5. GROSSMANN, I.; KROSS, E. Exploring Solomon's paradox: self-distancing eliminates the self-other asymmetry in wise reasoning about close relationships in younger and older adults. Psychological Science, v. 25, n. 8, p. 1571-1580, 2014. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24916084
  6. FLAVELL, J. H. Metacognition and cognitive monitoring: a new area of cognitive-developmental inquiry. American Psychologist, v. 34, n. 10, p. 906-911, 1979. eric.ed.gov/?id=EJ217109
  7. NEACSIU, A. D.; EBERLE, J. W.; KRAMER, R.; WIESMANN, T.; LINEHAN, M. M. Dialectical behavior therapy skills for transdiagnostic emotion dysregulation: a pilot randomized controlled trial. Behaviour Research and Therapy, v. 59, p. 40-51, 2014. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24974307

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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