Psicologia na Prática · Saúde mental

Como lidar com críticas: 7 passos para ouvir sem se defender e sem engolir tudo

A crítica dói porque o cérebro trata rejeição como dor física. Mas o que decide se ela te derruba ou te faz crescer não é a crítica: é o que você faz nos minutos e nos dias seguintes.

Ver o episódio Baixar o workbook

Alana Anijar 23 de setembro de 2026 15 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática segurando uma peneira, por onde passam pedrinhas enquanto uma pedra brilhante fica retida

"Preciso te falar uma coisa." Antes de a frase terminar, o corpo já reagiu: o rosto esquenta, a respiração encurta e a resposta começa a se formar na cabeça, pronta para sair. Você ainda não sabe o que vai ouvir, mas já está se defendendo.

Se a cena soa familiar, não é fraqueza de caráter. É o jeito como o cérebro humano lida com a ameaça de ser rejeitado. O problema é que essa defesa automática costuma custar caro: ela impede de ouvir o que precisava ser ouvido, azeda a relação com quem falou e, no fim, deixa a crítica maior do que ela era.

No episódio "7 passos para lidar com críticas", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar organiza uma sequência para transformar esse momento desconfortável em oportunidade de aprendizado. Ela deixa claro, logo no início, que não está falando de como dar feedback, assunto sobre o qual já se fala muito. O tema aqui é o outro lado: o que fazer quando a crítica chega até você, venha de um familiar, de um amigo, do trabalho ou do casamento.

Neste artigo, os sete passos aparecem com os exemplos do episódio e com o que a pesquisa em psicologia social e neurociência mostra sobre cada um.

Uma crítica te tira do eixo por dias? Você revive a conversa, se defende na cabeça e não consegue soltar? Existe um padrão por trás disso, e ele tem tratamento. É isso que a terapia faz.

Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →

Por que a crítica dói tanto (e por que a defesa vem antes do pensamento)

A Alana abre o episódio com uma confissão: críticas mexem com todas as pessoas que ela conhece, inclusive com ela mesma. Ela já reagiu de formas que não foram "tão legais", nas palavras dela. Isso importa porque tira a discussão do lugar do "seja mais maduro" e coloca no lugar certo: a crítica ativa um sistema antigo do cérebro, e ninguém está imune a ele.

O que diz a pesquisa

Em 2003, Naomi Eisenberger, Matthew Lieberman e Kipling Williams publicaram na revista Science um estudo em que participantes eram excluídos de um jogo de bola virtual enquanto tinham o cérebro escaneado. A exclusão ativou o córtex cingulado anterior, a mesma região que processa o sofrimento da dor física, e quanto mais ativa a região, maior o mal-estar relatado. A expressão "aquela crítica doeu" é menos metáfora do que parece.

E ela pesa mais do que o elogio. A revisão Bad is stronger than good, de Roy Baumeister e colegas (2001), reuniu evidências de dezenas de áreas e concluiu que eventos negativos têm mais impacto do que positivos equivalentes: feedback ruim é processado com mais atenção, lembrado por mais tempo e afeta mais a autoimagem do que o feedback bom.

É por isso que a defesa vem antes do pensamento. O cérebro registrou ameaça, e a resposta de proteção dispara sozinha: interromper, justificar, mudar de assunto, devolver a crítica. Os sete passos existem para colocar algo entre o disparo e a reação.

Um detalhe do episódio ajuda a calibrar. A Alana separa dois tipos de crítica: a que vem de quem convive com você e te ama (marido, família, amigos, colegas) e a que vem de um desconhecido, como um comentário aleatório no Instagram. Os passos servem para os dois casos, mas o peso é diferente. Crítica de estranho não merece o mesmo investimento emocional que crítica de quem te conhece.

Na hora: os dois passos que mudam a conversa

Passo 1: peça mais

O primeiro passo é o mais contraintuitivo. Em vez de interromper, se justificar ou dizer que não quer mais ouvir, a Alana propõe respirar fundo e fazer uma pergunta:

Tem mais alguma coisa que você gostaria de me dizer?

Ela mesma reconhece que é muito difícil conversar com alguém que oferece esse tipo de abertura. Mas o efeito é grande: a pergunta mostra maturidade, permite que a outra pessoa traga mais contexto e costuma reduzir a tensão da conversa. Muitas vezes a gente entende só uma parte do que o outro quis dizer, ou entende errado, e pedir mais informação clareia as intenções.

Perguntas que ajudam, segundo o episódio: em que ocasião você percebeu isso? Pode me dar um exemplo? Quando foi que eu agi dessa forma? A postura é de interesse, não de defesa. Alguém sentou para conversar com você. Vale ouvir até o fim.

Passo 2: reflita o que ouviu

O segundo passo é devolver, com suas palavras, o que você entendeu. A frase do episódio: "o que eu estou ouvindo é que você ficou magoado quando eu não respondi sua mensagem rápido. É isso mesmo?"

Isso faz a outra pessoa se sentir ouvida e compreendida, e ainda funciona como teste: se houve um mal-entendido, se você não quis dizer aquilo ou se a pessoa interpretou errado sua atitude, é aqui que ele aparece. A Alana lembra que falou bastante sobre isso no episódio sobre conversas difíceis, que virou o artigo sobre por que as brigas do casal não resolvem nada.

O que diz a pesquisa

Essa técnica tem nome, escuta ativa, e foi testada de forma controlada. Em estudo de Harry Weger e colegas publicado no International Journal of Listening (2014), 115 participantes conversaram com pessoas treinadas para responder de três formas: parafraseando o que ouviam, dando conselhos ou apenas acenando. Quem recebeu a resposta de escuta ativa se sentiu mais compreendido do que os outros dois grupos. Refletir o que a pessoa disse não é técnica de terapeuta: é o que faz o outro sentir que chegou.

E o refletir não termina na conversa. Ele continua no momento seguinte, quando você para de verdade para pensar no que foi dito. O que leva ao terceiro passo.

Depois: o passo que quase ninguém dá

Passo 3: processe no seu tempo

A crítica desperta emoções fortes. A gente se sente rejeitado, injustiçado. E nessas horas, diz a Alana, temos o direito de falar: "eu preciso de um tempo para pensar sobre isso". Você não precisa ter todas as respostas naquele momento. Não precisa se justificar na hora. A conversa não precisa ser resolvida ali.

Ela conta que já fez exatamente isso no casamento. O marido é, hoje, a pessoa que mais tem espaço para dizer a ela coisas difíceis, aquelas que a gente quer negar: "não, eu não sou assim, eu não sou uma pessoa egoísta". Em algumas dessas conversas, a resposta dela foi: "agora, de imediato, isso não parece fazer sentido, mas eu vou refletir. Não preciso resolver isso agora."

Pegar um tempo não é fugir da conversa. É dar a si mesmo controle sobre a situação e sobre as próprias reações.

O que diz a pesquisa

Há um motivo neurológico para a pausa funcionar. Em estudo publicado na Psychological Science (2007), Matthew Lieberman e colegas, da UCLA, mostraram que nomear o que se sente ("estou me sentindo rejeitada", "isso me deixou com raiva") reduz a atividade da amígdala, o centro de alarme do cérebro, e aumenta a do córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento reflexivo. O tempo de processamento é justamente o espaço em que isso acontece.

Com quem processar (e com quem não)

Aqui entra um alerta que a Alana faz questão de incluir. Processar a crítica não é sair contando para todo mundo. Existe uma versão disfarçada de processamento: você leva a história para o pai, para a mãe, para o amigo que sempre concorda, e conta de um jeito em que a outra pessoa foi injusta e você foi vítima. O que você quer é que alguém concorde. Isso não é processar, é se defender com plateia.

Processar de verdade é levar a crítica para uma pessoa madura e de confiança e dizer: "eu recebi essa crítica. Eu não quero que você me defenda. Eu quero que você me ajude a ver o que faz sentido e o que não faz."

O que diz a pesquisa

A diferença entre as duas conversas aparece na literatura sobre co-ruminação, termo proposto por Amanda Rose em estudo publicado na Child Development (2002): o hábito de discutir um problema repetidamente com alguém próximo, revisitando e especulando sobre ele e focando nos sentimentos negativos. O achado é curioso: a co-ruminação aproxima as pessoas (as amizades ficam mais íntimas), mas está associada a mais sintomas de ansiedade e depressão. Desabafar buscando concordância une, mas não alivia. Ajuda quem separa o que faz sentido do que não faz.

A Alana descreve o próprio papel quando o marido traz uma crítica que recebeu: como ele já está vendo o lado dele, ela busca mostrar o lado da outra pessoa. É o oposto de defender, e é o que ajuda.

Se você não tem com quem processar uma crítica sem ser defendida nem atacada, esse espaço existe. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

Agendar minha primeira sessão →

O que fazer com o que foi dito

Os quatro últimos passos tratam do conteúdo da crítica: o que aceitar, o que deixar de lado e como entender de onde ela veio.

Passo 4: empatia com quem critica

Às vezes quem critica está só desabafando as próprias frustrações. Aquela ideia de que "isso é mais sobre a outra pessoa do que sobre você" tem, em alguns casos, um fundo de verdade. Antes de reagir, a Alana sugere perguntar de onde vem a crítica. A pessoa está num momento difícil? Num dia ruim? Uma frase como "eu entendo que isso é frustrante para você" já desarma boa parte da tensão e mostra abertura ao diálogo.

O exemplo do episódio é uma pessoa com quem a Alana conviveu muito e que não sabia dar feedback. Falava coisas que faziam sentido, mas de forma grosseira, em momentos inadequados, na frente de outras pessoas. No começo, ela ficava resistente e nem queria ouvir. Com o tempo, entendeu que a pessoa tinha boas intenções e só não tinha sabedoria para colocar a crítica de um jeito melhor. A empatia permitiu absorver o que fazia sentido sem engolir o formato.

Passo 5: saiba filtrar

Quando uma crítica é muito dura ou muito injusta, é importante não absorver tudo. A Alana conta o caso de uma crítica pesada que o marido recebeu no trabalho, numa conversa séria com várias pessoas. Depois que ele processou com ela, ficou claro: parte do que disseram fazia sentido, outra parte não fazia sentido nenhum.

Filtrar é isso. Separar o que tem substância do que é ruído, projeção ou maldade, e não deixar que palavras destrutivas contaminem a sua visão sobre quem você é.

Mas o filtro tem uma segunda camada, e ela é desconfortável. Mesmo nas partes que não são verdade, a Alana propõe uma pergunta: "tá bom, isso não é verdade sobre mim, eu não fiz com essa intenção. Mas por que será que eu passei essa impressão?" E a pergunta fica mais séria quando a mesma crítica se repete de fontes diferentes. Se todo mundo te vê de um jeito que você garante que não é, o "coitado de mim, sou injustiçado" deixa de servir. O que você está fazendo que contribui para essa visão?

Passo 6: encontre o que é verdadeiro

A Alana chama este de crucial. Mesmo quando a crítica parece dura, injusta ou vinda de gente que não te conhece, talvez exista algo nela que você pode aprender. A ideia não é se culpar nem se envergonhar, nem concluir que você é a pior pessoa do mundo. É extrair o aprendizado, mesmo que a intenção de quem falou não tenha sido essa.

Existe algo de verdadeiro nessa crítica? Se existe, absorve isso e aprende.

Ela cita as redes sociais, onde todo mundo se sente no direito de criticar os outros, e reconhece que muita crítica vem na maldade. Ainda assim, a pergunta vale. Nas críticas mais difíceis que ela e o marido já receberam, houve crescimento, mesmo quando nem tudo era verdade.

Passo 7: considere o contexto

O último passo, e não o menos importante. Toda crítica é influenciada por um contexto: cultural, emocional, o histórico da relação entre vocês. Talvez a pessoa esteja projetando em você as próprias frustrações ou as expectativas que tinha a seu respeito. Levar isso em conta ajuda a entender de onde a crítica vem e a reagir de forma mais equilibrada.

O que diz a pesquisa

A psicologia social tem um nome para o erro que o passo 7 corrige: viés de correspondência, também chamado de erro fundamental de atribuição. Em revisão publicada na Psychological Bulletin (1995), Daniel Gilbert e Patrick Malone mostraram que as pessoas tendem a explicar o comportamento dos outros pelo caráter ("ele é assim") e a ignorar a situação ("ele estava num dia péssimo"). O viés corta nos dois sentidos: quem te critica pode estar julgando seu caráter por um comportamento que foi circunstancial, e você pode estar lendo a crítica como "essa pessoa é má" quando ela só estava exausta. Considerar o contexto é a correção consciente desse atalho.

Os sete passos em uma página

A Alana fecha o episódio recapitulando a sequência. Vale guardar:

  1. Peça mais. "Tem mais alguma coisa que você gostaria de me dizer?"
  2. Reflita o que ouviu. "O que eu estou entendendo é que... É isso?"
  3. Processe no seu tempo. "Preciso pensar sobre isso." E processe com quem te ajuda a ver, não com quem te defende.
  4. Tenha empatia com quem criticou. De onde isso está vindo?
  5. Filtre. O que tem substância fica, o ruído sai.
  6. Encontre o que é verdadeiro, mesmo no que veio mal embalado.
  7. Considere o contexto de quem falou.

Receber crítica nunca vai ser fácil, confortável ou, nas palavras dela, "gostosinho". Mas quando a gente consegue usar esse espaço a favor, o momento de desconforto vira oportunidade de crescimento. Ninguém é perfeito. Todo mundo está em constante aprendizado. Se você tem sido criticado, isso não faz de você a pior pessoa do mundo.

Se o seu ponto fraco é o passo 1 e o passo 2, se a resposta sai antes de a pessoa terminar a frase, vale ler também o texto sobre assertividade na comunicação. E se a crítica que mais te pesa é a comparação com os outros, o episódio sobre como se comparar do jeito certo continua esta conversa.

Quando a crítica sempre derruba

Os sete passos funcionam para a crítica pontual. Mas existe um padrão diferente: a pessoa para quem qualquer crítica vira catástrofe. Que fica dias remoendo um comentário. Que evita situações, relações ou oportunidades por medo de ser avaliada. Que ouve "você poderia ter feito diferente" e escuta "você é um fracasso".

Quando isso acontece, o problema não está na crítica. Está na crença que a crítica ativa: a de que o seu valor depende da aprovação dos outros, ou a de que um erro define quem você é. Essas crenças costumam ter origem em experiências antigas, e um artigo não as desfaz. A terapia trabalha exatamente ali: identifica de onde vem a sensibilidade, ensina a separar o comportamento da identidade e constrói uma autoestima que não desaba a cada avaliação.

A Alana termina o episódio lembrando que ouvir conteúdo ajuda, mas fazer terapia é o que faz diferença. Se cada crítica ainda te custa dias, esse é o próximo passo.

Mais de 150 mil atendimentos realizados. Nossa tecnologia analisa seu perfil e indica as psicólogas mais compatíveis com o que você busca. Sessões 100% online, de onde você estiver.

Quero encontrar minha psicóloga →

Assista ao episódio completo

Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

Continue lendo

Referências

  1. Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D. (2003). Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science, 302(5643), 290-292. science.org/doi/10.1126/science.1089134
  2. Baumeister, R. F., Bratslavsky, E., Finkenauer, C., & Vohs, K. D. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology, 5(4), 323-370. journals.sagepub.com
  3. Weger, H., Castle Bell, G., Minei, E. M., & Robinson, M. C. (2014). The relative effectiveness of active listening in initial interactions. International Journal of Listening, 28(1), 13-31. tandfonline.com
  4. Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H., & Way, B. M. (2007). Putting feelings into words: Affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, 18(5), 421-428. journals.sagepub.com
  5. Rose, A. J. (2002). Co-rumination in the friendships of girls and boys. Child Development, 73(6), 1830-1843. srcd.onlinelibrary.wiley.com
  6. Gilbert, D. T., & Malone, P. S. (1995). The correspondence bias. Psychological Bulletin, 117(1), 21-38. semanticscholar.org
  7. Stone, D., & Heen, S. (2014). Thanks for the Feedback: The Science and Art of Receiving Feedback Well. Viking. Os três gatilhos que bloqueiam a escuta de uma crítica: verdade, relação e identidade.

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

Esperamos que você tenha gostado deste artigo! Para mais insights e discussões interessantes sobre este tema, não deixe de conferir nosso podcast e canal no YouTube “Psicologia na Prática“. Lá, exploramos uma variedade de tópicos para ajudar você a aplicar a psicologia no dia a dia de maneiras práticas e acessíveis.

Não se esqueça também de seguir Alana Anijar no Instagram para atualizações diárias, dicas e muito mais conteúdo exclusivo sobre psicologia. E se você está procurando aprofundar ainda mais seus conhecimentos, nosso livro “Psicologia na Prática” está disponível na Amazon. É um recurso valioso para todos que desejam entender melhor a psicologia e utilizá-la de forma eficaz em suas vidas.

Conecte-se com a gente e faça parte da nossa comunidade!

Ouça nosso podcast: Psicologia na Prática
Assista no YouTube: Psicologia na Prática
Siga no Instagram: @AlanaAnijar
Leia nosso livro: Psicologia na Prática na Amazon

Venha aprender e crescer conosco!

Compartilhe

Facebook
Telegram
WhatsApp
Email
Foto de Alana Anijar

Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

Mais postagens