Psicologia na Prática · Relacionamentos

Por que as brigas do casal não resolvem nada (e o que fazer para a conversa chegar a algum lugar)

A toalha molhada em cima da cama nunca é sobre a toalha. Como lidar com as diferenças no relacionamento sem acumular ressentimento nem transformar cada discussão numa disputa.

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Alana Anijar 26 de agosto de 2026 14 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática sentado à mesa com outro cérebro, uma xícara entre os dois e as guardas baixas

Você já saiu de uma discussão com seu parceiro, sua parceira ou alguém da família com a sensação de que passou vinte minutos rebatendo acusações e não resolveu absolutamente nada? Os dois cansados, os dois ofendidos, e o problema que começou tudo continua exatamente onde estava.

Na maioria das vezes, o que separa um casal não é a diferença de opinião. É a forma como os dois lidam com essa diferença.

No episódio "Como lidar com as diferenças em um relacionamento", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar mostra por que tantas discussões giram em falso, de onde vem o padrão que cada um leva para dentro da relação e apresenta quatro estratégias práticas para transformar briga em diálogo. Neste artigo, cada ponto do episódio ganha a pesquisa que o sustenta.

As brigas se repetem e você já não sabe mais como começar a conversa? Estratégias ajudam no momento, mas o padrão que faz a discussão sempre descambar tem raiz, e é isso que a terapia trabalha.

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A toalha molhada nunca é sobre a toalha

Alana conta o caso de uma paciente, que no episódio recebe o nome fictício de Ana. Durante muito tempo, Ana deixou passar as pequenas frustrações com o marido. Não queria "estragar o clima", não queria parecer a pessoa que cria caso por qualquer coisa.

Até que, num dia de muito estresse, ela explodiu por causa de uma toalha molhada em cima da cama.

O marido ficou confuso: como algo tão banal podia gerar uma reação daquele tamanho? Só que a toalha era apenas o estopim. O que saiu ali foi tudo o que vinha sendo guardado: a sensação de não ser ouvida nos pedidos, de não ser valorizada, de estar sempre cedendo. Meses de incômodo pequeno, empilhados, vieram à tona de uma vez só.

Quando a gente ignora o que está nos incomodando, está empurrando com a barriga algo que, cedo ou tarde, vira uma mágoa maior.

Esse é o mecanismo mais comum por trás das brigas que "não fazem sentido". A discussão parece desproporcional porque não é sobre o assunto do momento. É sobre a pilha inteira.

Engolir não é maturidade, é adiamento

Existe uma ideia bastante difundida de que a pessoa que não briga, que guarda tudo e não reclama, é a pessoa madura da relação. Alana desmonta isso a partir da própria história.

Ela cresceu querendo agradar, querendo manter todo mundo bem ao redor, sem incomodar ninguém com o que sentia. Esse padrão começou na relação com os pais, se espalhou para as amizades e chegou ao casamento. E, como ela mesma diz no episódio, isso não a tornava uma pessoa boazinha. Tornava uma pessoa ressentida: por fora, calma; por dentro, carregando raiva, mágoa e frustração que nunca eram ditas.

O que diz a pesquisa

Os psicólogos James Gross e Oliver John, das universidades Stanford e Berkeley, compararam em cinco estudos duas formas de regular emoções: a reavaliação (mudar a forma de interpretar a situação) e a supressão (esconder o que se sente). Publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 2003, o trabalho mostrou que quem suprime com frequência sente mais emoção negativa, e não menos, e tem pior funcionamento nas relações próximas, com menos apoio social e menos proximidade.

Ou seja: engolir não faz o incômodo desaparecer. Faz o incômodo ficar, sem endereço, esperando a próxima toalha molhada.

Isso não significa que a pessoa explosiva está certa. Significa que nem o silêncio nem a explosão resolvem. O que resolve é o incômodo ser dito no tamanho certo, no momento em que ele acontece.

O que você aprendeu sobre briga na casa em que cresceu

Muitos dos nossos padrões de comunicação num relacionamento não foram escolhidos. Foram assistidos. Alana propõe uma pergunta simples: como eram as discussões na casa onde você cresceu?

Há dois cenários comuns, e os dois deixam marca:

  • A casa onde não se brigava. Conflitos eram evitados a todo custo. Ninguém levantava a voz, mas também nada se resolvia. Quem cresce assim costuma virar adulto que não discute com ninguém, e acumula problemas não resolvidos em todas as relações.
  • A casa onde se brigava o tempo todo. Gritaria, xingamento, clima pesado por horas, sem que nenhuma briga chegasse a um acordo. Quem cresce assim ou repete o modelo, ou foge dele com tanto medo que passa a evitar qualquer conflito.

Alana veio do segundo cenário. E a reação dela foi ir para o extremo oposto: "se eu brigar com o meu marido, é o fim do mundo, acabou o casamento". No início da relação, uma voz alterada já soava como catástrofe. Foi preciso tempo (e terapia) para entender que toda relação tem discussões, e precisa ter, para que os problemas sejam de fato resolvidos.

O outro exemplo do episódio é o de João, também nome fictício. A memória mais antiga que ele tem dos pais é a de gritos por causa da escolha de um restaurante. Para não repetir aquilo, ele passou a evitar qualquer conflito com a esposa. O resultado foi um distanciamento silencioso: ela não fazia ideia de que ele estava descontente com várias decisões, porque ele simplesmente não falava.

O que diz a pesquisa

Um estudo longitudinal liderado por Sarah Whitton, com Robert Waldinger e colegas, acompanhou 47 pessoas por 17 anos. Aos 14 anos, cada uma foi filmada numa conversa de conflito com os pais. Aos 31, foi filmada numa conversa de conflito com o cônjuge. Publicado no Journal of Family Psychology em 2008, o trabalho mostrou que a hostilidade presente na família de origem previa a hostilidade no casamento quase duas décadas depois, mesmo controlando outros fatores. Para os homens, a hostilidade na família de origem previa também menor satisfação conjugal.

Isso não é sentença. É informação. Como Alana lembra, se a gente não para para refletir, tende a repetir os padrões familiares sem perceber. Refletir é justamente o que abre a chance de fazer diferente.

Se você quer entender melhor como as necessidades não atendidas na infância moldam o adulto, o artigo Como se tornar um adulto emocionalmente saudável: as 8 competências aprofunda esse caminho.

Quando a discussão vira competição, os dois perdem

Aqui está a tese central do episódio: tanto evitar o conflito a todo custo quanto tentar vencer toda discussão levam ao mesmo lugar, a desconexão emocional. E conexão emocional é exatamente o que uma relação saudável busca.

O objetivo não é evitar todas as discussões nem vencer uma disputa. É dialogar em busca de uma solução real.

Alana ilustra com uma cena da própria casa: casada há 11 anos, ela e o marido, exaustos depois de um dia difícil com as crianças, entraram numa troca de respostas ácidas durante o jantar. Dez minutos depois, os dois se olharam e perceberam que aquilo era inútil. Pararam, foram à raiz ("estamos ofendidos um com o outro pelo quê?"), descobriram que cada um tinha se magoado com uma frase do outro, pediram desculpa e retomaram o mesmo assunto com a guarda baixa.

A diferença entre essa noite e uma noite estragada não foi a ausência de briga. Foi a capacidade de sair do modo competição.

O que diz a pesquisa

No Laboratório de Pesquisa em Família da Universidade de Washington, John Gottman e Sybil Carrère filmaram 124 casais recém-casados discutindo um conflito real e os acompanharam por seis anos. Publicado na Family Process em 1999, o estudo mostrou que os três primeiros minutos da conversa já previam quem iria se separar: os casais que se divorciaram começavam a discussão com muito mais emoção negativa e muito menos positiva do que os que permaneceram juntos. O jeito de abrir a conversa importa mais do que o assunto dela.

E há um segundo achado do mesmo grupo que explica por que tantas brigas descarrilam. Em estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 1992, Gottman e Robert Levenson mediram batimentos cardíacos, condutância da pele e outros sinais fisiológicos de casais durante a discussão. Quando o corpo entra num estado de alarme, que Gottman chama de inundação (flooding), a pessoa perde acesso à escuta, à empatia e ao raciocínio. Continuar a conversa nesse estado só piora.

É por isso que as quatro estratégias do episódio começam justamente por uma pausa.

Estratégia 1: a pausa e o filtro da sabedoria

Se você perceber que a raiva está subindo, faça uma pausa. Vá ao banheiro, beba uma água, dê uma volta no quarteirão. Não é ignorar o que incomodou. É ganhar o tempo necessário para abordar o assunto de um jeito que resolva em vez de piorar.

Alana ensina uma versão dessa pausa para quando a discussão acontece à distância, pelo celular. Funciona assim:

  1. Crie um grupo no WhatsApp só com você.
  2. Escreva ali tudo o que você quer falar, do jeito que sair, sem filtro. Descarregue.
  3. Releia. Você vai perceber que tem verdade ali, tem o que você está sentindo de fato, mas também tem exagero, ofensa e grosseria desnecessária.
  4. Passe o filtro da sabedoria: do que está escrito, o que a outra pessoa precisa ouvir para entender o que eu sinto e para a gente resolver? Só isso vai para ela.

E se a conversa é presencial e não dá tempo? Alana sugere uma frase que poucas pessoas conseguem dizer, mas que evita um desgaste enorme:

"Eu vou tomar uma água e quando eu voltar a gente continua. Porque se eu falar tudo o que estou pensando agora, eu vou te ofender e a gente não vai chegar a lugar nenhum."

Isso não é fugir do conflito. É proteger a conversa do estado em que você não consegue ter uma conversa.

Se a pausa nunca funciona, se a raiva sempre vence antes que você consiga sair da sala, o trabalho é mais profundo do que uma técnica: é entender o que dispara esse alarme em você. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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Estratégia 2: escutar para responder o que foi dito

Alana conta de um casal que atendeu online. A cada pergunta que ela fazia, um interrompia o outro, os dois falavam ao mesmo tempo e, no meio da confusão, respondiam a coisas diferentes. Quando ela perguntou se era assim que eles conversavam em casa, a resposta foi: "a gente está só discutindo, é assim que casal discute".

Não é. Casal pode discutir, pode falar bravo, pode até brigar de vez em quando. O que não pode é deixar de escutar. Se cada um só espera a vez de rebater, ninguém está de fato na conversa.

A proposta é inverter a ordem: em vez de pensar na resposta enquanto o outro fala, escute para entender. Pergunte a si mesma: "eu estou realmente entendendo o que ele está tentando me dizer?". Você pode até estar com mais razão. Ainda assim, ouvir primeiro tem um efeito prático: uma pessoa que se sente compreendida consegue, depois, compreender. Quem se sente atacado só se defende.

Como diz Alana, um bom ouvinte pode resolver uma guerra.

Estratégia 3: falar do que você sente, não do que o outro faz

Você provavelmente já ouviu falar da fórmula "eu me sinto assim quando você faz tal coisa". Ela existe por um motivo concreto: quando a frase começa com "você sempre...", o outro entra na defensiva antes mesmo de ouvir o resto. Quando começa com o que você sente, abre espaço para o diálogo.

Compare:

  • "Você sempre se atrasa, você não liga para o nosso tempo."
  • "Quando o atraso se repete, eu me sinto pouco importante. Queria que a gente combinasse isso de outro jeito."

O conteúdo é o mesmo. O que muda é para onde a energia da outra pessoa vai: para se defender ou para entender.

O que diz a pesquisa

O psicólogo Edward Kubany e colegas, da Universidade do Havaí, testaram em 1992 como jovens reagiam a diferentes formas de comunicar raiva e mágoa num relacionamento próximo. Frases acusatórias com "você" foram avaliadas como mais aversivas e provocaram mais vontade de reagir com hostilidade do que frases assertivas com "eu". Em 2018, um estudo australiano publicado na revista PeerJ, de Shanna Rogers, Jill Howieson e Casey Neame, chegou ao mesmo lugar por outro caminho: as frases de abertura de um conflito que usavam "eu" e reconheciam a perspectiva do outro ("entendo por que você pode se sentir assim, mas eu me sinto desta forma") foram as que menos geravam defensividade.

Um detalhe importante: a fórmula não é um truque para vencer. Se a frase começa com "eu sinto que você é um egoísta", continua sendo acusação. O que funciona é falar de fato do sentimento, sem rotular o outro.

Estratégia 4: escolher o momento, e respeitar o tempo do outro

Para Alana, esta talvez seja a mais importante. Não existe momento perfeito para uma conversa difícil, e esperar por ele é outra forma de adiar. Mas existe o momento errado: quando um dos dois, ou os dois, está tomado de raiva. Calma e abertura são o terreno onde os conflitos se resolvem.

E há uma segunda camada nesse ponto, que ela ilustra com o próprio casamento. Alana é do tipo que resolve rápido: pediu perdão, recebeu perdão, seguiu em frente. O marido não. Ele perdoa na cabeça, mas o coração ainda leva um tempo para chegar lá. No início, ela queria acelerar: "já te pedi desculpa, vamos seguir". E ele respondia: "tudo bem, mas eu ainda não cheguei lá, me deixa me acalmar".

Aprender a ler o ambiente e a pessoa, e aceitar que o outro precise de um tempo que você não precisa, é parte de lidar com as diferenças. Nem todo mundo se recompõe na mesma velocidade, e forçar a reconciliação antes da hora costuma reabrir a briga.

Quando o padrão é mais forte que a estratégia

Vale dizer que muito do que vira briga nasce antes da briga: no que cada um trouxe para a relação sem ter resolvido. Sobre isso, temos um artigo inteiro em relacionamento saudável começa em você, com o check-in emocional semanal que a Alana propõe para o casal.

As quatro estratégias funcionam. Mas elas partem de um pressuposto: que você consegue, no momento da raiva, lembrar delas e escolher usá-las. Para muita gente, é justamente isso que não acontece. A pausa não vem, a escuta se fecha, o "você sempre" sai antes de qualquer filtro.

Quando isso se repete, quase sempre há um padrão antigo por trás, aprendido na casa em que a pessoa cresceu, na forma como aprendeu (ou não aprendeu) a expressar o que sente. Alana aponta que, se você se reconheceu nas histórias deste episódio, se percebeu coisas que vêm lá da infância, vale buscar ajuda durante esse processo.

É esse o trabalho da terapia: reconhecer os padrões que você repete sem perceber e desenvolver, com acompanhamento, as habilidades de comunicação que de fato funcionam na sua relação. Não para você nunca mais discutir, mas para que as discussões passem a chegar a algum lugar.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Carrère, S., & Gottman, J. M. (1999). Predicting divorce among newlyweds from the first three minutes of a marital conflict discussion. Family Process, 38(3), 293-301. onlinelibrary.wiley.com
  2. Gottman, J. M., & Levenson, R. W. (1992). Marital processes predictive of later dissolution: Behavior, physiology, and health. Journal of Personality and Social Psychology, 63(2), 221-233. PDF no site do autor
  3. Whitton, S. W., Waldinger, R. J., Schulz, M. S., Allen, J. P., Crowell, J. A., & Hauser, S. T. (2008). Prospective associations from family-of-origin interactions to adult marital interactions and relationship adjustment. Journal of Family Psychology, 22(2), 274-286. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18410214
  4. Kubany, E. S., Richard, D. C., Bauer, G. B., & Muraoka, M. Y. (1992). Impact of assertive and accusatory communication of distress and anger: A verbal component analysis. Aggressive Behavior, 18(5), 337-347. onlinelibrary.wiley.com
  5. Rogers, S. L., Howieson, J., & Neame, C. (2018). I understand you feel that way, but I feel this way: the benefits of I-language and communicating perspective during conflict. PeerJ, 6, e4831. peerj.com/articles/4831
  6. Gross, J. J., & John, O. P. (2003). Individual differences in two emotion regulation processes: Implications for affect, relationships, and well-being. Journal of Personality and Social Psychology, 85(2), 348-362. semanticscholar.org

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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