Psicologia na Prática · Saúde mental

Reprimir, dramatizar ou conter: os 3 erros mais comuns ao lidar com as emoções

Emoção não tem botão de deletar. Ela sai pela pele, pela explosão na discussão boba ou pelo silêncio que afasta. Como reconhecer o seu padrão, de onde ele veio e os quatro passos para mudá-lo.

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Alana Anijar 22 de setembro de 2026 15 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática sentado sobre um pote fechado, segurando a tampa, enquanto pequenas emoções escapam pelas frestas

"Não quero lidar com isso agora." Você chega em casa depois de um dia difícil no trabalho, pede um iFood, liga uma série, vai dormir. Problema resolvido. Só que, dias depois, numa discussão trivial com o parceiro, a raiva que ficou guardada sai inteira, de uma vez, num tamanho que não combina com o assunto.

Se a cena soa familiar, você não está sozinha. Muita gente acha que está no controle das próprias emoções quando, na verdade, está repetindo um padrão aprendido cedo demais para ser questionado.

No episódio "3 erros comuns que cometemos ao lidar com nossas emoções", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar organiza esses padrões em três erros: a repressão, a dramatização e a contenção. Cada um tem uma origem, uma consequência e um jeito de ser desfeito.

Neste artigo, os três erros aparecem com os exemplos do episódio e com o que a pesquisa em regulação emocional mostra sobre cada um. No fim, os quatro passos que a Alana propõe para mudar o padrão.

Você se reconhece explodindo por coisas pequenas, ou engolindo tudo até adoecer? Esses padrões têm origem, e têm tratamento. É isso que a terapia faz.

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Não existe botão de deletar emoções

A frase que organiza o episódio inteiro é simples: não tem um botãozinho de deletar emoções. O que você sente e não processa não desaparece. Fica guardado, se acumula e, mais cedo ou mais tarde, encontra uma saída. Quase sempre uma saída descontrolada, em um momento inadequado.

Essa saída pode ser uma explosão. Pode ser um sintoma físico. Pode ser um distanciamento que ninguém nomeia, mas todo mundo sente. Os três erros do episódio são três formas diferentes de fechar a tampa, e a diferença entre eles está no que a pessoa faz com a emoção antes de trancá-la.

Emoção reprimida não some. Ela espera.

Alana lembra que esses padrões costumam ser aprendidos na infância, no ambiente em que a criança descobre o que pode e o que não pode sentir. Quando ninguém os identifica e corrige, eles atravessam a vida adulta intactos, com consequências que vão do relacionamento à saúde do corpo.

Erro 1: reprimir, fingir que a emoção não existe

Reprimir é empurrar a emoção para o fundo e agir como se ela não existisse, ou como se não tivesse importância. As frases são conhecidas: "isso não é nada demais", "não vou me estressar com isso", "deixa para lá".

A pessoa que reprime muitas vezes nem percebe que está com raiva, triste ou magoada. Ela pula a etapa de sentir. E é justamente por isso que a emoção sai por outro lugar.

A história da Alana: a emoção que saía pela pele

No episódio, a Alana conta o próprio caso. Foi uma criança "muito boazinha", que não queria incomodar ninguém e internalizava tudo. Não conseguia acessar o que sentia, mas o corpo mostrava: teve psoríase por sete ou oito anos, com médicos dizendo que o fundo era emocional, roía as unhas até sangrar e vivia com a imunidade baixa. Quando os pais se separaram, aos cinco ou seis anos, a mãe a levou a uma psicóloga, mas ela não conseguiu se abrir. Só foi aprender a lidar com as emoções de forma equilibrada na adolescência e no início da vida adulta.

Raramente ela explodia. As emoções encontravam outro caminho. É o retrato mais claro do que a repressão faz: o que não vira palavra vira sintoma.

O que diz a pesquisa

Um estudo de Benjamin Chapman e colegas, publicado no Journal of Psychosomatic Research em 2013, acompanhou por 12 anos uma amostra representativa da população dos Estados Unidos. Quem pontuava alto em supressão emocional (o hábito de guardar o que sente) teve risco de morte por qualquer causa cerca de 35% maior no período do que quem pontuava baixo, com ajuste para idade, sexo, escolaridade e etnia. É um estudo de associação, não de causa, mas aponta para a mesma direção que a Alana descreve: o que se guarda cobra do corpo.

De onde vem a repressão

Ela costuma nascer em ambientes onde a vulnerabilidade não era valorizada, onde tristeza e raiva eram vistas como fraqueza. A criança que cresce ouvindo "para de chorar", "engole o choro", "não precisa se sentir assim" aprende que expressar o que sente é errado. E passa a guardar.

A Alana faz uma ressalva importante: no caso dela, ninguém disse explicitamente que ela não podia sentir. A repressão é uma combinação de temperamento, contexto e do que a criança entende sobre a expectativa dos adultos. Não precisa de uma ordem para se instalar. Basta a percepção de que sentir dá trabalho para os outros.

Com o tempo, o ciclo se fecha: pequenos incômodos se acumulam até não poderem mais ser contidos, e a explosão (ou o adoecimento) chega junto com a culpa por ter perdido o controle.

Erro 2: dramatizar, quando a emoção assume o volante

O segundo erro é o extremo oposto. Dramatizar é amplificar a emoção, transformar situações pequenas em algo muito maior. A emoção assume o controle, a pessoa perde a perspectiva da realidade e entra num ciclo de altos e baixos que desgasta a ela e a quem está por perto.

O exemplo do episódio: você chega em casa depois de um dia difícil e percebe que o parceiro não perguntou como foi. Em vez de puxar o assunto e contar, você se sente ignorada, e aquilo vira uma crise de desvalorização. Você chora, reage de forma exagerada, e a situação ganha proporções que não correspondem ao que aconteceu.

De onde vem a dramatização

Há duas origens frequentes. A primeira é um lar onde as emoções eram muito intensas, onde o drama era a norma: pais que brigavam alto, tudo vivido no exagero. A segunda é mais sutil e mais comum: um lar onde exagerar era a única forma de conseguir atenção.

A Alana ilustra com uma cena que viu num vídeo e reconheceu na própria casa. O filho pede uma coisa, pede de novo, pede uma terceira vez. Ela, ocupada, vai deixando. Quando ele se joga no chão e abre o choro, ela atende. Sem perceber, ensinou que só o choro funciona. A correção dela foi simples: se o pedido é válido, atender antes que a criança precise escalar.

O que diz a pesquisa

Esse mecanismo está descrito no modelo biossocial de Marsha Linehan, ampliado por Sheila Crowell e Theodore Beauchaine em artigo na Psychological Bulletin (2009). Em um ambiente que invalida as emoções da criança, expressões moderadas são ignoradas ou punidas, e só as expressões extremas recebem resposta. O resultado é que a criança aprende a escalar: a intensidade vira o caminho para ser vista. O modelo foi desenvolvido para explicar o transtorno de personalidade borderline, mas descreve um aprendizado que aparece, em graus menores, em muita gente que hoje se reconhece como "intensa demais".

A Alana amplia o exemplo para outras histórias: pais que trabalhavam demais, filhos que só recebiam afeto quando adoeciam. Ela cita, meio de brincadeira, a pessoa que hoje "gosta" de estar sempre com um problema, porque ali as pessoas dão atenção. Vale a pergunta, tanto para quem é mãe ou pai quanto para quem olha a própria infância: será que a única forma de me verem era quando eu sentia muito?

O que a dramatização custa

Ela afeta diretamente os relacionamentos. Amplificar cada frustração cria uma tensão constante, desgasta as pessoas ao redor e pode levá-las a se afastar. E viver em reatividade permanente é exaustivo para a própria pessoa.

Aqui a Alana faz um alerta clínico. Se a intensidade emocional é um padrão de muitos anos, com frequência alta e prejuízo real, vale investigar na terapia se há um quadro como o transtorno de personalidade borderline. Não é diagnóstico que se faz por artigo ou por vídeo. Precisa de avaliação séria. Mas é uma possibilidade que merece ser olhada em vez de carregada como "jeito".

Erro 3: conter, sentir e trancar

O terceiro erro é o mais fácil de confundir com saúde. Na contenção, a pessoa reconhece a emoção. Sabe que está chateada, irritada, triste. Mas se convence de que precisa manter o controle e não demonstrar vulnerabilidade.

Diferente da repressão, em que a pessoa ignora o que sente, aqui ela sente e tranca. Parece maturidade. E, por um tempo, funciona.

O exemplo do episódio: o parceiro faz algo que incomoda. Em vez de falar na hora e tentar resolver, você decide deixar para depois, "manter o controle". A emoção contida se acumula. Quando finalmente você fala, sai tudo de uma vez, de forma confusa e muitas vezes exagerada. A contenção termina parecendo dramatização, só que com atraso.

O que diz a pesquisa

O psicólogo James Gross, da Universidade Stanford, é a principal referência no estudo da supressão expressiva, o nome técnico para sentir e não demonstrar. Em estudo com Oliver John publicado no Journal of Personality and Social Psychology (2003), quem usava a supressão como estratégia habitual sentia menos emoções positivas, mais emoções negativas e tinha pior funcionamento nos relacionamentos, com menos apoio social e menos proximidade. Em outro estudo, de Emily Butler e Gross, publicado na revista Emotion (2003), pessoas instruídas a esconder o que sentiam durante uma conversa difícil tiveram a comunicação prejudicada e provocaram aumento da pressão arterial no interlocutor. Quem se contém acha que está protegendo o outro. O corpo do outro sente o contrário.

De onde vem a contenção

Ela costuma surgir em lares onde a expressão emocional era sinal de fraqueza e a perfeição e o controle eram prioridade. Crianças criadas em ambientes muito rígidos, sem espaço para vulnerabilidade, aprendem a esconder o que sentem para evitar julgamento e punição.

A consequência adulta é a solidão. Quando você evita mostrar o que sente, as pessoas percebem o distanciamento, e você mesmo começa a se afastar. Cria-se uma barreira que impede relações mais íntimas e autênticas. Somado a isso, o estresse acumulado pode terminar em explosão ou em esgotamento mental.

Se você se reconhece como a pessoa controlada, "sempre perfeita", um pouco fria e muito racional, a Alana pede que considere: isso também pode ser um padrão que não é saudável.

Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Entender onde ele nasceu e construir outro é trabalho de terapia. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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O que os três erros têm em comum

Olhando de longe, a repressão, a dramatização e a contenção parecem opostos. Uma pessoa engole, outra transborda, a terceira tranca. Mas as três compartilham a mesma falha: nenhuma delas processa a emoção. A reprimida não a reconhece. A dramatizada não a regula. A contida reconhece, mas não a expressa nem a resolve.

O que diz a pesquisa

Uma metanálise de Amelia Aldao, Susan Nolen-Hoeksema e Susanne Schweizer, publicada na Clinical Psychology Review em 2010, reuniu 114 estudos sobre estratégias de regulação emocional e sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e uso de substâncias. As três estratégias mais associadas a sofrimento foram a ruminação (ficar remoendo, o combustível da dramatização), a evitação (a lógica da repressão) e a supressão (a base da contenção). Estratégias como aceitação e reavaliação apareceram no sentido oposto.

Não é coincidência que os três erros do episódio correspondam às três estratégias que a pesquisa mais associa a adoecimento. E não é coincidência que a saída seja a mesma para os três.

Lidar com as emoções de forma saudável não é um evento. É um processo para a vida.

Quatro passos para mudar o padrão

A Alana fecha o episódio com um caminho em quatro passos. A ordem importa.

1. Identificar o seu padrão

A palavra que ela repete é autoconsciência. O primeiro passo é sempre o reconhecimento: qual dos três erros você comete com mais frequência? Você reprime, dramatiza ou contém? E depois, a pergunta que aprofunda: onde e como você aprendeu isso? Olhar para a própria história não é para culpar ninguém. É para entender que o padrão foi aprendido, e o que foi aprendido pode ser desaprendido.

2. Buscar suporte terapêutico

A Alana é direta sobre isso. Ela recebe mensagens dizendo que o podcast "está salvando minha vida", e fica feliz. Mas fica mais feliz com as mensagens que dizem "decidi fazer terapia e foi a melhor coisa que fiz". Os três padrões estão enraizados em experiências do passado, e trabalhar isso é o que a terapia faz: entender a origem e construir uma forma nova de lidar com o que se sente.

Ela toca num ponto delicado sem rodeios: talvez você esteja no grupo de pessoas que poderia investir em terapia, mas está investindo em outras coisas. Reorganizar prioridades também é cuidado.

3. Praticar a regulação emocional

Em vez de ignorar ou amplificar, regular. Regular a emoção, no episódio, envolve três movimentos:

  • Dar nome ao que você está sentindo. "Isto é raiva." "Estou magoada." "Estou sobrecarregada."
  • Identificar a necessidade por trás da emoção. A raiva pode estar dizendo que um limite foi cruzado; a tristeza, que algo importante foi perdido.
  • Escolher como agir a partir disso. A emoção informa; a ação é sua.
O que diz a pesquisa

O primeiro movimento tem base neurológica conhecida. O neurocientista Matthew Lieberman, da UCLA, mostrou em estudo publicado na Psychological Science (2007) que nomear a emoção, o chamado affect labeling, reduz a atividade da amígdala e aumenta a do córtex pré-frontal. E o pano de fundo dos três movimentos é a aceitação: pesquisa de Brett Ford e colegas, no Journal of Personality and Social Psychology (2018), mostrou em três estudos que pessoas que aceitam as próprias emoções negativas sem julgá-las têm melhor saúde psicológica ao longo do tempo, porque não reagem à emoção com mais emoção.

Ferramentas de atenção plena ajudam nesse treino: aumentam a consciência do que está acontecendo e diminuem a reatividade. Se você quer aprofundar, o artigo sobre os 7 hábitos de inteligência emocional, também do podcast, detalha práticas que se treinam no dia a dia.

4. Desenvolver a comunicação assertiva

O último passo é o que evita o acúmulo. Aprender a dizer, de forma clara, honesta e respeitosa, o que você sente, no momento adequado. Em vez de deixar a emoção se acumular ou explodir, expressar quando ela ainda tem o tamanho certo.

É o antídoto direto para a contenção, e evita boa parte dos conflitos que nascem não da emoção em si, mas do atraso em falar sobre ela. Se esse é o seu ponto fraco, vale ler o texto sobre assertividade como habilidade de comunicação.

Quando isso pede terapia

A Alana se descreve como "fã de carteirinha" da ideia de que a gente pode mudar. Padrões aprendidos podem ser substituídos por habilidades novas, com autorreflexão, com conteúdo como este e, principalmente, com terapia.

Se você se identificou com um dos três erros, não se preocupe: reconhecer é o primeiro passo. Mas se o padrão se repete há anos, se está custando relacionamentos, se aparece no corpo ou se você já tentou mudar sozinha e não conseguiu, o próximo passo não é mais um conteúdo. É uma conversa com alguém que ajude a encontrar a origem e a construir o caminho de volta.

Esse trabalho conversa de perto com dois outros episódios que já viraram artigo: como as emoções moldam a sua identidade, sobre o que acontece quando uma emoção fica tempo demais no comando, e como se tornar um adulto emocionalmente saudável, sobre o que fazer com o que a infância deixou.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Chapman, B. P., Fiscella, K., Kawachi, I., Duberstein, P., & Muennig, P. (2013). Emotion suppression and mortality risk over a 12-year follow-up. Journal of Psychosomatic Research, 75(4), 381-385. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3939772
  2. Crowell, S. E., Beauchaine, T. P., & Linehan, M. M. (2009). A biosocial developmental model of borderline personality: Elaborating and extending Linehan's theory. Psychological Bulletin, 135(3), 495-510. psycnet.apa.org/record/2009-05290-010
  3. Gross, J. J., & John, O. P. (2003). Individual differences in two emotion regulation processes: Implications for affect, relationships, and well-being. Journal of Personality and Social Psychology, 85(2), 348-362. semanticscholar.org
  4. Butler, E. A., Egloff, B., Wilhelm, F. H., Smith, N. C., Erickson, E. A., & Gross, J. J. (2003). The social consequences of expressive suppression. Emotion, 3(1), 48-67. psycnet.apa.org/record/2003-02341-008
  5. Aldao, A., Nolen-Hoeksema, S., & Schweizer, S. (2010). Emotion-regulation strategies across psychopathology: A meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 30(2), 217-237. sciencedirect.com
  6. Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H., & Way, B. M. (2007). Putting feelings into words: Affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, 18(5), 421-428. resumo no site da UCLA Health
  7. Ford, B. Q., Lam, P., John, O. P., & Mauss, I. B. (2018). The psychological health benefits of accepting negative emotions and thoughts: Laboratory, diary, and longitudinal evidence. Journal of Personality and Social Psychology, 115(6), 1075-1092. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5767148

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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