Estilo de apego: por que seus relacionamentos repetem o mesmo padrão (e como mudar isso)
Medo de ser abandonada, dificuldade de se abrir, fuga quando a relação fica séria. Nada disso surge do nada: é o seu estilo de apego, formado na infância, agindo na vida adulta. E ele pode ser trabalhado.
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Você já parou para pensar por que certos relacionamentos parecem seguir sempre o mesmo roteiro? Talvez você se sinta insegura, com medo de ser deixada, e reaja forte a qualquer sinal de distância. Ou talvez seja o contrário: você prefere manter uma certa reserva, evita conversas profundas e sente vontade de sumir quando a relação começa a ficar séria.
Esses comportamentos não surgem do nada. Eles são o que a psicologia chama de estilo de apego: um padrão de resposta emocional que começa a se formar na primeira infância, na relação com quem cuidou de você, e que segue operando nas relações adultas, especialmente nas amorosas.
No episódio "Como o seu estilo de apego sabota os seus relacionamentos", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar explica de onde vem a teoria do apego, descreve os três estilos principais com cenas do dia a dia e mostra o que fazer com cada um deles. A boa notícia atravessa o episódio inteiro: estilo de apego tem raízes profundas, mas não é sentença.
Neste artigo, aprofundamos cada parte do episódio com as pesquisas que sustentam a teoria, inclusive a que responde à pergunta mais importante: dá para mudar?
Você percebe que repete o mesmo padrão em todas as relações, mesmo com pessoas diferentes? Quando o padrão se repete, o problema raramente é a pessoa da vez. É isso que a terapia investiga.
Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →O que é a teoria do apego (e o que um bebê tem a ver com o seu namoro)
A teoria do apego foi desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby, que estudava como os bebês se conectam emocionalmente com seus primeiros cuidadores. A pergunta dele era simples: o que acontece com uma criança quando as necessidades emocionais dela são atendidas, e o que acontece quando não são?
Pense em um recém-nascido. Ele ainda não tem nada de racional desenvolvido, mas sente fome e chora. Se é amamentado, se encontra colo, se alguém tenta acalmá-lo quando ele está aflito, o bebê vai aprendendo algo antes de qualquer palavra: quando eu preciso, alguém vem. Essa é a base do que Bowlby chamou de segurança. A figura de apego, em geral a mãe, funciona como um porto: é para onde a criança volta nos momentos de medo e incerteza.
Agora imagine o oposto. O cuidado que às vezes vem e às vezes não vem. Ou o cuidado que atende o corpo (comida, roupa, escola) e ignora a emoção. A criança também aprende com isso. Aprende que precisa se esforçar para ser notada, ou aprende que é melhor não precisar de ninguém.
Os experimentos que Alana cita no episódio, em que uma criança pequena fica numa sala enquanto a mãe sai e volta, são a Situação Estranha, procedimento criado pela psicóloga Mary Ainsworth, colaboradora de Bowlby. Em Patterns of Attachment (1978), Ainsworth e colegas descreveram oito episódios curtos, de cerca de vinte minutos no total, em que a mãe e uma pessoa desconhecida entram e saem da sala. O que classificava o bebê não era o choro na separação, e sim a reação no reencontro: buscar conforto e se acalmar (seguro), ignorar a mãe (evitativo) ou buscar e ao mesmo tempo resistir ao contato (ansioso-ambivalente).
Por muito tempo isso foi assunto de desenvolvimento infantil. Até que, em 1987, dois pesquisadores perguntaram: e se o amor romântico adulto funcionar pelo mesmo mecanismo?
Cindy Hazan e Phillip Shaver publicaram no Journal of Personality and Social Psychology o estudo que traduziu a teoria do apego para os relacionamentos adultos. Por meio de um "questionário do amor" publicado num jornal de Denver, com 620 respostas, eles encontraram a mesma distribuição que Ainsworth havia observado em bebês: cerca de 56% seguros, 25% evitativos e 19% ansiosos. E cada grupo descrevia suas experiências amorosas de forma diferente: os seguros falavam de confiança e amizade, os evitativos de medo da intimidade, os ansiosos de obsessão, ciúme e altos e baixos emocionais.
Esse é o ponto que Alana repete ao longo do episódio: a forma como você se relaciona hoje tem muito mais a ver do que você imagina com a forma como você se conectou com quem cuidou de você. Não é culpa, não é defeito. É aprendizado. E o que foi aprendido pode ser revisto.
Os três estilos de apego na vida adulta
O episódio trabalha com os três estilos clássicos. A maioria das pessoas se reconhece predominantemente em um deles, o que não significa que nunca sinta ciúme ou insegurança. É uma questão de padrão, não de exceção.
Apego seguro: a confiança como base
Quem tem apego seguro costuma ter facilidade em se conectar emocionalmente. Se sente à vontade para pedir e oferecer apoio, para dar e receber afeto, sem tanto medo de ser rejeitada ou de parecer fraca. Lidar com conflito de forma aberta é mais natural, porque existe uma crença de fundo: o relacionamento é uma base segura, e os problemas podem ser resolvidos com diálogo.
A cena que Alana usa: o parceiro passa por uma fase difícil no trabalho e fica mais distante. Em vez de se sentir ameaçada e concluir que ele não gosta mais dela, a pessoa segura espera o momento certo e pergunta com calma: "Percebi que você está mais preocupado e distante ultimamente. Quer me contar o que está acontecendo?" Ela confia no parceiro e na relação, e sabe que distância nem sempre significa algo maior.
Apego ansioso: a busca constante por garantias
Aqui existe o desejo de proximidade, de afeto, de conexão. O problema é o que vem junto: uma necessidade constante de validação. A pessoa fica insegura quando o parceiro demora a responder uma mensagem, quando parece mais distante, quando muda o tom. E o medo de rejeição transforma pequenas situações em ameaças.
A cena do episódio é conhecida de muita gente. O parceiro sai com os amigos, o celular fica sem bateria e ele esquece de avisar. Você manda uma mensagem. Nada. O tempo passa e você começa a imaginar o pior: será que perdeu o interesse? Será que está com outra pessoa? Será que vai terminar comigo? Quando a resposta finalmente chega, você já está tão ansiosa e irritada que, em vez de perguntar o que houve, dispara: "Por que você me ignorou a noite toda? O que era tão importante que você não podia me responder?"
A reação forte e imediata é típica do apego ansioso. A necessidade de garantias constantes gera reações desproporcionais a situações pequenas, e a tensão que isso cria alimenta o medo de ser abandonada, que alimenta a próxima reação. É um ciclo de insegurança e conflito.
Apego evitativo: o medo da intimidade emocional
Enquanto a pessoa ansiosa quer a proximidade e sofre com ela, a pessoa evitativa prefere manter distância. Evita conversas profundas, se sente desconfortável com a ideia de depender emocionalmente de alguém e tende a se afastar quando a relação fica séria ou quando o parceiro pede mais.
Na cena do episódio, o parceiro começa a falar em casar, morar junto, construir uma vida. Por mais que goste dele, a pessoa evitativa sente aquilo como ameaça à sua independência, não como motivo de animação. E em vez de dizer isso de forma direta, desvia: "Acho que não é o momento, a gente pensa nisso mais para frente."
Alana conta o caso de uma paciente que namorava há muitos anos, gostava do namorado e queria casar em teoria. Mas na hora de se comprometer, sempre aparecia uma desculpa. Quando começaram a investigar as questões de apego e a história de infância dela, e ela leu sobre o estilo evitativo, a reação foi imediata: "Isso me descreve completamente. Eu sempre fui assim." Entender o padrão foi o que permitiu construir um comportamento diferente dali em diante.
A fuga é, no fundo, uma proteção contra o risco de se machucar. O problema é que quem está do outro lado, buscando intimidade, encontra alguém resistindo a ela. E isso frustra, desgasta e afasta.
Ansioso com evitativo: o ciclo de perseguição e fuga
Existe uma combinação especialmente difícil, e Alana diz ter atendido vários casais nela: uma pessoa ansiosa com uma evitativa. O que se forma é o que ela chama de ciclo de perseguição e fuga.
Funciona assim. A pessoa ansiosa busca mais proximidade e mais garantias. A evitativa sente a pressão e se afasta. O afastamento aumenta a ansiedade da primeira, que cobra mais. A segunda se afasta mais. Cada movimento de um confirma o medo do outro: "viu, ele sempre foge" de um lado, "viu, ela sempre sufoca" do outro.
Esse padrão tem nome na pesquisa sobre casais: demanda e retirada (demand/withdraw). Em estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 1990, Andrew Christensen e Christopher Heavey observaram casais em duas situações de conflito e descreveram o mecanismo: um dos parceiros pressiona por mudança com pedidos emocionais, críticas e queixas, enquanto o outro recua com defensividade e silêncio. Quanto mais um pressiona, mais o outro recua; quanto mais recua, mais o outro pressiona.
O que quebra o ciclo não é um dos dois "ganhar". É cada um entender o que o outro precisa: a pessoa ansiosa, de um parceiro capaz de oferecer segurança; a evitativa, de alguém com paciência para o tempo em que ela vai se abrindo, porque isso não acontece da noite para o dia. Quando os dois enxergam a dinâmica, o casal para de brigar com a pessoa e passa a lidar com o padrão.
Se você se reconheceu num desses ciclos, saiba que ele raramente se desfaz sozinho: cada rodada reforça a anterior. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental, que trabalham exatamente esses padrões.
Agendar minha primeira sessão →A cena de série que explica o apego evitativo
Alana usa uma cena da série Nobody Wants This (Netflix, 2024) para mostrar o apego evitativo em ação. A protagonista é uma podcaster que sai com muitos homens por aplicativo e sempre encontra um defeito em cada um. Nunca se conecta de verdade. Até conhecer Noah, um rabino, um homem maduro, com um apego visivelmente seguro.
Quando ele vai conhecer a família complicada dela, ela está se apaixonando, sendo vulnerável como não costuma ser, e é justamente aí que o desconforto aparece. Ela começa a implicar com a roupa dele, cria o que chama de "ranço" e passa a tratá-lo mal. Na vida real, esse é o ponto em que a maioria se ofende e devolve a frieza. Ele faz outra coisa. Olha para ela e diz, em resumo:
Eu sei o que você está fazendo. Você está tentando me afastar porque eu estou perto demais. Mas não vai conseguir. Eu dou conta da sua família e das suas questões.
E ela desmonta. Não porque ele venceu uma discussão, mas porque alguém enxergou o que estava por trás do comportamento dela: não era falta de amor, era desconforto com o nível de proximidade. Claro que é uma série, e Alana mesma brinca que na vida real é difícil encontrar um Noah. Mas a cena ensina duas coisas: o afastamento evitativo raramente é sobre deixar de gostar, e uma resposta segura, que não entra na briga, pode interromper o padrão.
Estilo de apego muda? O que a pesquisa responde
Essa é a pergunta que importa. Se o estilo se formou nos primeiros anos de vida, ainda há o que fazer aos trinta, aos quarenta?
A resposta de Alana no episódio é direta: os estilos de apego têm raízes profundas, mas não são inalteráveis. E a pesquisa concorda.
Uma revisão sistemática publicada na Psychotherapy Research em 2015, conduzida por Peter Taylor, Julia Rietzschel, Adam Danquah e Katherine Berry, reuniu os estudos que mediram o apego de adultos antes e depois de psicoterapia. O resultado: a segurança de apego aumenta e a ansiedade de apego diminui ao longo da terapia, e a melhora apareceu em diferentes abordagens terapêuticas, grupos de pacientes e formatos de atendimento. Para o apego evitativo os achados ainda são menos claros, e os autores pedem mais ensaios controlados. Mas a direção geral é consistente: o padrão muda.
Ou seja, a terapia não serve apenas para "entender de onde vem". Ela treina um jeito novo de lidar com a emoção: reconhecer o padrão quando ele dispara, regular a reação, comunicar o que se sente. É isso que aproxima uma pessoa ansiosa ou evitativa do funcionamento seguro.
Ninguém escolhe o estilo de apego que desenvolveu. Mas dá para escolher o que fazer com ele daqui para frente.
Três passos para trabalhar o seu estilo de apego
Alana encerra o episódio com um roteiro prático. Ele começa igual para todo mundo e depois se divide conforme o estilo.
1. Identifique o seu estilo
Nada muda sem esse passo. Releia as três descrições acima e observe qual delas descreve o seu padrão, não o seu melhor dia nem o seu pior. Se você tem apego seguro, ótimo: há outras coisas para trabalhar, mas esta não é uma delas. Se não é o caso, e Alana acredita que não é para a maioria, existem questionários que ajudam, como os do livro Maneiras de Amar (a nova edição de Apegados, de Amir Levine e Rachel Heller), que ela indica no episódio.
2. Se o seu apego é ansioso: trabalhe a autoconfiança
O exercício é aprender a dar espaço para a outra pessoa e ir com mais calma, sem se desesperar com qualquer sinal que pareça rejeição. Quando a ansiedade de não receber uma resposta imediata aparecer, respire fundo e faça a pergunta que Alana propõe:
Isso é uma ameaça real ou é só o meu apego inseguro falando?
Depois, procure outras explicações possíveis para a situação (celular sem bateria existe). E comunique o que sente de forma clara, em vez de deixar a emoção sair como cobrança.
3. Se o seu apego é evitativo: pratique a abertura emocional
Aqui o caminho é o oposto: aprender a dar pequenos passos na direção da vulnerabilidade, em vez de fugir das conversas difíceis. Não precisa começar grande. Uma frase simples já é um passo: "Isso me deixa um pouco desconfortável, mas eu estou disposta a tentar ter essa conversa." A abertura gradual faz diferença. Para aprofundar, Alana indica o trabalho de Brené Brown sobre vulnerabilidade, disponível em livro (O Poder da Vulnerabilidade) e no especial dela na Netflix.
A conversa que muda a dinâmica do casal
Existe uma ferramenta que Alana destaca acima das outras, porque funciona mesmo antes de o comportamento mudar por completo: contar ao parceiro o que você descobriu sobre si. Quando você entende a sua dificuldade e consegue dizer isso em voz alta, o outro lado ganha empatia e contexto. O diálogo, por si só, torna tudo mais leve.
Se o seu apego é ansioso, a conversa pode ser algo assim:
"Estou percebendo que sou ansiosa e insegura na relação, e estou entendendo que isso tem a ver com a minha história. Não é desculpa. Mas em alguns momentos eu ainda vou reagir assim, e se você puder me ajudar, me dando um pouco mais de segurança e evitando sumir sem avisar, eu também vou fazer a minha parte: respirar, questionar os pensamentos que me levam ao pior cenário."
Se o seu apego é evitativo:
"Estou entendendo algumas coisas sobre mim. Eu me afasto quando percebo que o negócio está ficando sério, encontro problema, coloco dificuldade. Mas eu gosto de você e quero estar junto. Para mim é difícil ter conversas assim e demonstrar o que sinto. Tem paciência comigo nesse processo?"
Se o parceiro ama você e quer estar com você, é natural que tente ajudar. E se você quiser entender o que torna uma conversa dessas possível, vale ler sobre limites nos relacionamentos: é o limite claro que permite pedir e oferecer segurança sem que um se dissolva no outro.
Quando o padrão pede terapia
Se você chegou até aqui e se reconheceu, isso já é o primeiro passo do roteiro. Mas há sinais de que o autoconhecimento sozinho não vai bastar:
- O mesmo padrão se repete com pessoas diferentes, e você já tentou "controlar" sem conseguir
- A ansiedade na relação chega a sintomas físicos: insônia, aperto no peito, checagem compulsiva do celular
- Você já perdeu relações que queria manter por ter fugido ou por ter sufocado
- O ciclo de perseguição e fuga está instalado no casal, e cada rodada deixa mais mágoa
- Você sente que a raiz está na infância, mas não sabe o que fazer com isso
É aqui que a terapia entra: reconhecer o padrão no momento em que ele dispara, desenvolver habilidades para lidar com a emoção de forma equilibrada e construir uma comunicação que cria segurança em vez de tensão. Se a busca por proximidade já virou dependência emocional, esse trabalho é ainda mais urgente. E como Alana lembra em outro episódio, relacionamento saudável começa em você: cultivar autoconfiança, se o seu apego é ansioso, ou abertura emocional, se é evitativo, são mudanças pequenas que geram muito impacto.
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- Como se tornar um adulto emocionalmente saudável
Referências
- Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Londres: Hogarth Press; Nova York: Basic Books. ficha da obra no PEP-Web
- Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation. Hillsdale, NJ: Erlbaum. edição atual pela Routledge
- Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511-524. doi.org/10.1037/0022-3514.52.3.511
- Christensen, A., & Heavey, C. L. (1990). Gender and social structure in the demand/withdraw pattern of marital conflict. Journal of Personality and Social Psychology, 59(1), 73-81. resumo no ResearchGate
- Taylor, P., Rietzschel, J., Danquah, A., & Berry, K. (2015). Changes in attachment representations during psychological therapy. Psychotherapy Research, 25(2), 222-238. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24559454
- Levine, A., & Heller, R. (2021). Maneiras de amar: como a ciência do apego adulto pode ajudar você a encontrar (e manter) o amor. Rio de Janeiro: Sextante. Publicado anteriormente como Apegados. sextante.com.br
- Brown, B. O poder da vulnerabilidade. Rio de Janeiro: Sextante (audiolivro). sextante.com.br. Especial Brené Brown: The Call to Courage (Netflix, 2019).
- Foster, E. (criadora). (2024). Nobody Wants This [série]. Netflix. netflix.com/title/81591296
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