Geração Z e saúde mental: por que a geração que mais fala de emoções é a que mais adoece
Nativos digitais, notícias 24 horas, redes sociais desde a infância e uma crise de liderança. O ambiente em que essa geração cresceu não tem precedente, e entender isso muda a conversa entre jovens, pais e chefes.
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"Essa geração é fraca." "Não aguenta pressão." "Com 22 anos já diz que teve três burnouts." Se você tem mais de 35 anos, provavelmente já pensou ou ouviu algo assim. Se você tem menos de 30, provavelmente já foi alvo.
Os dois lados têm um pedaço de razão e um pedaço de cegueira. A Geração Z, nascida entre meados dos anos 1990 e 2010, apresenta os piores indicadores de saúde mental entre as gerações vivas. Ao mesmo tempo, é a primeira geração para quem falar de emoções, colocar limites e procurar terapia não é vergonha. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e não é coincidência.
No episódio "Geração Z e saúde mental", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar parte de uma palestra que deu para gestores e empresários e explica por que julgar essa geração com a régua das anteriores não funciona. O ambiente em que ela cresceu é único na história, e é esse ambiente, não uma suposta fragilidade de caráter, que explica boa parte do que vemos.
Neste artigo, organizamos o raciocínio dela em quatro fatores, confrontamos cada um com os dados disponíveis e terminamos com orientações práticas para dois públicos: quem é da Geração Z e quem convive, cria ou lidera alguém dela.
Você sente que a ansiedade virou o estado padrão, e não uma fase? Entender o contexto da sua geração ajuda a tirar a culpa. Tratar o padrão que mantém esse estado é trabalho de terapia.
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Durante muito tempo, "geração" queria dizer avô, pai, filho. Hoje, o que separa uma geração da outra não é o parentesco, é a tecnologia com a qual cada uma cresceu. Como a tecnologia mudava devagar, as gerações eram longas. Como agora muda em poucos anos, pessoas com idades próximas podem ter crescido em mundos diferentes.
Um resumo rápido, do jeito que Alana apresenta no episódio:
- Baby boomers (1946 a 1964): nasceram no pós-guerra, conviveram com escassez e aprenderam a valorizar estabilidade no emprego e na família.
- Geração X (1965 a 1980): cresceu com um pouco mais de abundância. Valoriza diploma, cargo, concurso, casa e carro próprios. Chegou à internet já adulta.
- Millennials ou Geração Y (1981 a 1996): primeira geração a crescer com internet. Quer trabalho com propósito, questiona o status quo, viveu a era dos blogs e do compartilhar tudo.
- Geração Z (1997 a 2012): nativos digitais. Não se adaptaram ao smartphone: nasceram com ele.
O Pew Research Center, um dos principais institutos de pesquisa social do mundo, fixou 1996 como o último ano de nascimento dos millennials e 1997 como o primeiro da Geração Z. No texto que explica a decisão, o presidente do instituto, Michael Dimock, aponta o motivo: o iPhone foi lançado em 2007, quando os mais velhos da Geração Z tinham 10 anos. Para os millennials, conectividade permanente e redes sociais foram algo a que se adaptaram. Para quem nasceu depois de 1996, isso "é largamente pressuposto".
Esse detalhe muda tudo o que vem depois. Não estamos falando de jovens que usam demais uma ferramenta. Estamos falando de pessoas cujo cérebro se desenvolveu com a ferramenta já ligada.
O ambiente único: quatro fatores que nenhuma geração viveu antes
No episódio, Alana se apoia no livro Aliens Among Us: Ten Surprising Truths about Gen Z, do palestrante americano Steven Robertson, para descrever o que ele chama de "tempestade perfeita" que formou essa geração. São quatro fatores.
1. Tecnologia desde o berço
É a primeira geração nativa digital. Smartphone, tablet e internet não são recursos, são parte do estilo de vida. Quem tem 40 anos teve internet discada aos 12; quem tem 22 nunca viveu um dia sem acesso 24 horas por dia, sete dias por semana. Não dá para comparar a forma como essas duas pessoas lidam com atenção, espera e tédio.
2. Notícias do mundo inteiro, o tempo todo
Algumas décadas atrás, notícia tinha hora: o jornal da manhã, o do meio-dia, o da noite. Hoje, ao abrir o celular, um jovem de 19 anos recebe guerras, catástrofes, assaltos e tragédias do bairro e do outro lado do planeta, sem intervalo. Como diz Alana, é impossível isso não afetar a forma como o cérebro funciona. Um pensamento mais acelerado e um nível de preocupação mais alto do que os das gerações anteriores não são defeito de fábrica. São a resposta esperada a um volume de ameaça que nenhuma geração recebeu antes.
3. Redes sociais desde a infância
É a primeira geração que teve conta em rede social antes dos 14 anos, que cresceu com a possibilidade real de viralizar, ficar famosa, ser curtida por centenas de pessoas ou cancelada por elas. E é a primeira geração mais conectada ao virtual do que ao real.
A psicóloga Jean Twenge, da San Diego State University, analisou amostras nacionais de adolescentes americanos de 13 a 18 anos entre 1976 e 2017. O estudo, publicado no Journal of Social and Personal Relationships em 2019, mostra que os adolescentes dos anos 2010 passam muito menos tempo em interação presencial com amigos (sair juntos, ir a festas, ao cinema, a encontros) do que qualquer geração anterior, e que a queda se acentua a partir de 2010, quando o smartphone se populariza. No mesmo período, os índices de solidão sobem.
Aqui entra uma observação de Alana que vale destacar. Se essa geração se expressa melhor por escrito, por mensagem, com emojis e memes, do que ao vivo, o caminho não é só arrancá-la da tela e mandar treinar habilidades sociais. É também alcançá-la onde ela está. As duas coisas ao mesmo tempo: trazer para fora e ir até lá.
4. Uma crise de paternidade e de liderança
Esse é o fator que mais surpreende os gestores nas palestras, e talvez o mais importante para quem cuida de alguém dessa geração. A Geração Z foi criada, em grande parte, por pais muito inseridos no mercado de trabalho, muitas vezes ausentes de casa, e em meio a taxas altas de divórcio. Muitos não cresceram com pai e mãe presentes.
O resultado é uma geração que valoriza enormemente verdade, ética e coerência, e que, exatamente por isso, se decepciona rápido com líderes e figuras de autoridade que pregam o que não praticam. Ela quer ser mentorada, gosta de ser guiada. Mas prefere pares a pessoas mais velhas, e pares de qualquer lugar do mundo, porque a internet permite. Alguém da mesma idade que tenha algo a agregar ganha, com facilidade, de alguém com 30 anos a mais.
Existe uma ruptura com as figuras mais velhas. E isso é perigoso, porque a conexão entre gerações é o que sustenta uma sociedade.
Alana faz questão de ressalvar: é um recorte geral. Você pode ser da Geração Z, amar sua avó e discordar de tudo isso. Mas o padrão existe, e ignorá-lo afasta ainda mais quem já está distante.
O que os dados dizem sobre a saúde mental da Geração Z
A percepção de que "os jovens de hoje sofrem mais" não é impressão. Ela aparece nos levantamentos de maior escala.
No relatório Stress in America: Generation Z, de 2018, a American Psychological Association ouviu mais de 3.400 adultos e adolescentes. Apenas 45% dos jovens da Geração Z classificaram a própria saúde mental como excelente ou muito boa, contra 56% dos millennials, 51% da Geração X e 70% dos boomers. Na ponta oposta, 27% a descreveram como regular ou ruim, quase o dobro dos millennials (15%). E 91% relataram ao menos um sintoma físico ou emocional ligado ao estresse no mês anterior.
O mesmo relatório traz o outro lado da moeda: 37% da Geração Z já havia procurado um profissional de saúde mental, mais do que qualquer outra geração.
Em estudo publicado na Clinical Psychological Science, Twenge e colegas documentaram que, entre adolescentes americanos, os sintomas depressivos, os desfechos relacionados a suicídio e as taxas de suicídio aumentaram a partir de 2010, sobretudo entre meninas, no mesmo período em que o tempo de tela em novas mídias disparou. Os autores associam o aumento ao tempo em telas e à queda de atividades presenciais, sem afirmar uma relação de causa única.
Vale a cautela: são dados dos Estados Unidos, e correlação não é causa. Mas o retrato é consistente com o que Alana vê no consultório e com o que o artigo sobre depressão na adolescência já descrevia aqui no blog. A geração mais aberta a falar de saúde mental é também a que mais precisa falar.
Trabalho, limites e burnout: o choque de gerações
É no trabalho que as diferenças ficam mais visíveis, e é ali que a palavra "fraca" costuma aparecer.
A Geração Z é extremamente preocupada com qualidade de vida e com o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Muitos preferem ganhar menos a ficar exaustos. Os mais velhos leem isso como mimimi, desculpa, falta de disposição para pagar o preço.
Só que as gerações anteriores priorizaram o trabalho acima da vida pessoal, muitas vezes acima da própria saúde e da própria família. Isso trouxe prosperidade e crescimento profissional, mas cobrou a conta em outras áreas. Alana lembra da própria mãe, que entrava em esgotamento, tinha crises de torcicolo e de ansiedade por trabalhar demais. Na época, aquilo não tinha nome, não tinha caminho, e ela não ia buscar ajuda.
Burnout não é moda. É a gente dando nome a coisas que já existiam há muito tempo.
O movimento da Geração Z é o contrário do dos pais: trabalho em segundo plano, vida em primeiro. E aqui Alana propõe algo que raramente aparece nesse debate, que é o meio do caminho. Sem uma geração disposta a trabalhar duro, a entender que há fases de esforço acima do confortável e a ter paciência com processos, ninguém cresce a ponto de assumir liderança e transformar alguma coisa. Mas ninguém quer voltar ao modelo que adoeceu os pais.
A Deloitte ouviu mais de 23 mil pessoas em 44 países na pesquisa Gen Z and Millennial Survey 2025. Cerca de 89% da Geração Z considera senso de propósito importante para satisfação e bem-estar no trabalho, e "bom equilíbrio entre vida e trabalho" aparece entre os três principais motivos para escolher um empregador, ao lado de oportunidades de aprender e de progressão na carreira.
No Brasil, o relatório Tendências em Gestão de Pessoas 2024, do Great Place to Work, apontou a saúde mental dos colaboradores como o principal desafio da gestão de pessoas, à frente de comunicação interna e desenvolvimento de líderes. Na edição de 2026, 98% das empresas dizem considerar o tema relevante, mas só 35% mapearam formalmente os riscos psicossociais do ambiente de trabalho.
Os dois extremos que circulam nas redes ilustram o impasse. De um lado, o jovem que lista exigências: respeitar meus limites, horário flexível, home office, plano de carreira. Do outro, a resposta cínica: só vai ter emprego que explora, não valoriza e faz trabalhar além da hora. Nenhum dos dois é o retrato completo. Existem empresas se conscientizando, e existe uma geração que precisa entender que promoção não vem em uma semana e que nem toda empresa tem plano de cargos estruturado.
Se você quer entender melhor o que acontece no corpo e na mente quando o esgotamento chega, o artigo Burnout: o que é, os 3 sinais do esgotamento emocional e como se proteger aprofunda o tema.
Se o trabalho, a faculdade ou as cobranças da família estão te deixando em alerta constante, não é falta de resiliência. É um padrão que dá para entender e mudar. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.
Agendar minha primeira sessão →O que a Geração Z tem que as outras não tinham
Alana faz um ponto que os gestores da palestra não esperavam ouvir: toda geração nova que entra no mercado é taxada de imatura e imediatista. Aconteceu com os millennials por volta de 2010, e hoje ninguém mais lembra. A diferença é que a Geração Z chega com intensidade maior, porque é nativa digital.
E chega com qualidades que as anteriores não tinham na mesma medida:
- Conexão com tendências e criatividade, resultado de crescer com o mundo inteiro a um toque de distância.
- Empatia, sensibilidade e abertura para a vulnerabilidade. É a primeira geração para quem falar de emoções e buscar ajuda não é vergonha, o oposto dos próprios pais.
- Senso de empreendedorismo e desejo de fazer parte de algo maior. Não vão para qualquer trabalho só pelo dinheiro, se puderem escolher. Mas, quando se conectam com um projeto, dão o sangue.
- Exigência de coerência. Não aceitam líder que fala uma coisa e faz outra. Para uma empresa com visão de verdade, isso é um ativo, não um problema.
Eles são jovens. Assim como todos nós já fomos.
Se você é da Geração Z: como se fortalecer sem se trair
O recado de Alana para quem tem 20 e poucos anos é direto, e não é "aguenta calado". É outra coisa.
- Amadurecer não é se desrespeitar. Fortalecer-se emocionalmente não significa aceitar abuso nem agir contra os próprios valores. Significa conseguir sustentar desconforto sem interpretá-lo como ameaça.
- Entenda que as coisas têm processo. Você não será promovido do dia para a noite. Haverá fases em que vai trabalhar mais do que gostaria, e isso, quando tem prazo e propósito, não é adoecimento: é investimento.
- Escolha a empresa pelo perfil, não pela lista de exigências. Antes de entrar, entenda o que aquela empresa é e se é isso que você quer para este momento. Nem toda organização tem plano de carreira estruturado, e tudo bem, desde que você saiba disso ao aceitar.
- Saia da bolha da sua geração. Conecte-se com pessoas mais velhas. Não valorize só quem tem influência ou seguidores. Quem faz essa ponte se destaca em qualquer lugar.
- Mostre o trabalho, tenha paciência, comunique seus valores. É possível ter ética de trabalho, ambição e limites ao mesmo tempo. Quem consegue as três coisas vira o profissional que o mercado quer ter.
Uma parte disso é atitude. Outra parte, a mais difícil, é regulação emocional: a capacidade de sentir a ansiedade, o medo de errar, a sensação de não ser suficiente, e ainda assim agir. Isso não se resolve com frase motivacional. Se treina, e o artigo sobre 10 maneiras não óbvias de cuidar da saúde mental traz práticas concretas para começar.
Se você é pai, mãe ou líder: como se conectar
Alana encerra o episódio com uma frase do livro de Robertson que resume a proposta:
Nosso mundo precisa de pais e líderes que não superprotejam nem sejam negligentes, mas que estejam dispostos a aprender novas habilidades e aprimorar as antigas, para se conectar deliberadamente com a Geração Z e com as que virão.
Na prática, isso se traduz em alguns movimentos:
- Pare de rotular. "Preguiçoso", "imediatista", "frágil" não descrevem a pessoa, descrevem o seu desconforto com o que é diferente. Rótulo afasta, e afastar é justamente o que você não quer.
- Seja coerente antes de ser autoridade. Essa geração não admira cargo, admira integridade. Faça o que você diz e ganhará mais respeito do que qualquer título traria.
- Dialogue sobre expectativas. Eles não vão ter tudo tão rápido quanto querem, e você precisa dizer isso com clareza. Mas ouça o que pedem: equilíbrio, liderança preparada, plano de carreira, flexibilidade. Muito disso é pertinente.
- Ofereça mentoria, não sermão. A Geração Z quer ser guiada. O que ela rejeita é a orientação vinda de cima para baixo, sem relação.
- Valorize o que eles trazem. A abertura para falar de emoções, que às vezes parece fraqueza, é exatamente a habilidade que faltou à geração dos pais e que hoje as empresas listam como prioridade.
Se você é mãe ou pai de um adolescente ou de um jovem adulto, a ruptura descrita no quarto fator não é destino. Ela se repara com presença, escuta e coerência. E muitas vezes a terapia do jovem ajuda a família inteira a reaprender a conversar.
Quando é hora de procurar terapia
Entender o contexto da sua geração tira a culpa. Não tira o sintoma. Se a ansiedade virou o estado padrão, se o sono está ruim há meses, se você se sente esgotado sem ter "motivo suficiente", se a comparação nas redes vira um julgamento constante sobre você, ou se a ideia de trabalhar ou estudar provoca pânico, o problema não é ser da Geração Z. É um padrão que precisa ser tratado, e que responde bem à Terapia Cognitivo-Comportamental.
E há um dado que joga a favor de quem tem 20 e poucos anos: essa é a geração que mais procura ajuda. Se você já está nessa direção, está na frente de todas as anteriores.
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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.
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Referências
- Dimock, M. (2019). Defining generations: Where Millennials end and Generation Z begins. Pew Research Center. pewresearch.org
- Robertson, S. (2023). Aliens Among Us: Ten Surprising Truths about Gen Z. amazon.com
- Twenge, J. M., Spitzberg, B. H., & Campbell, W. K. (2019). Less in-person social interaction with peers among U.S. adolescents in the 21st century and links to loneliness. Journal of Social and Personal Relationships, 36(6), 1892-1913. doi.org/10.1177/0265407519836170
- Twenge, J. M., Joiner, T. E., Rogers, M. L., & Martin, G. N. (2018). Increases in depressive symptoms, suicide-related outcomes, and suicide rates among U.S. adolescents after 2010 and links to increased new media screen time. Clinical Psychological Science, 6(1), 3-17. doi.org/10.1177/2167702617723376
- American Psychological Association (2018). Stress in America: Generation Z. apa.org (PDF)
- Deloitte (2025). 2025 Gen Z and Millennial Survey. deloitte.com
- Great Place to Work Brasil (2024). Tendências em Gestão de Pessoas 2024. Cobertura: adit.com.br. Edição 2026: exame.com
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