Psicologia na Prática · Burnout

Burnout: os 3 sinais do esgotamento e como se proteger antes de adoecer

A OMS já reconhece o esgotamento profissional, e os afastamentos por burnout quintuplicaram no Brasil. A psicóloga Alana Anijar explica como identificar os sinais e o que fazer enquanto ainda dá tempo.

Ver o episódio

Psi do Futuro Atualizado em 20 de agosto de 2026 11 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática exausto sobre uma mesa de trabalho, com bateria descarregada ao lado

Você passa pelo menos oito horas por dia no trabalho. Convive mais com colegas do que com a própria família. E se esse lugar onde você passa a maior parte da vida virou fonte constante de estresse, cansaço e frustração, isso não é "normal da vida adulta". Pode ser o começo de um burnout.

No episódio "Esgotamento emocional", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, desmistifica a síndrome que a Organização Mundial da Saúde passou a reconhecer oficialmente: o que é, como diferenciá-la do estresse comum, quais são os três sinais que a caracterizam e o que fazer para se proteger antes de adoecer.

O tema deixou de ser tabu por necessidade. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, os afastamentos do trabalho por burnout no Brasil saltaram de 823 registros em 2021 para 4.880 em 2024, um crescimento de quase 500% em quatro anos.

Neste artigo, aprofundamos o conteúdo do episódio com as pesquisas e as classificações oficiais que sustentam cada ponto.

O trabalho virou fonte constante de angústia? Reconhecer os sinais é o primeiro passo. Entender o que mantém você nesse padrão, e como sair dele, é trabalho para a terapia.

Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →

O que é burnout, segundo a OMS

A palavra vem do inglês e a imagem é literal: burn out é quando o combustível acaba. A pessoa queimou toda a energia disponível e não tem mais de onde tirar.

Desde janeiro de 2022, com a entrada em vigor da CID-11, a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, o burnout tem definição oficial:

O que diz a OMS

A CID-11 descreve o burnout (código QD85) como "uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso". A classificação é específica: o termo se refere apenas ao contexto do trabalho e não deve ser usado para outras áreas da vida.

Um detalhe importante, que a Alana destaca no episódio: o burnout não aparece no DSM, o manual diagnóstico de transtornos mentais. A OMS o classifica como fenômeno ocupacional, não como transtorno mental, e parte dos profissionais da área o entende como um quadro depressivo focado no trabalho. Na prática clínica, porém, o sofrimento é real e tratável, e o reconhecimento oficial mudou a vida de quem passa por ele.

No Brasil, esse reconhecimento foi ainda mais longe. Em novembro de 2023, o Ministério da Saúde incluiu a síndrome de esgotamento profissional na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (Portaria GM/MS nº 1.999/2023), que não era atualizada havia 24 anos. Com diagnóstico, o trabalhador pode ter direito a afastamento e a benefícios previdenciários.

Estresse não é o inimigo: a diferença que importa

Antes de reconhecer o esgotamento, é preciso desfazer uma confusão comum: estresse e burnout não são a mesma coisa.

Estresse faz parte de qualquer trabalho, inclusive daquele que você ama. Aquela frase de "trabalhe com o que você ama e não trabalhará um dia sequer" não é totalmente verdade, como a Alana admite sobre a própria rotina: todo trabalho envolve compromisso, prazos, metas, pressão e responsabilidade. Lidar com isso de forma saudável faz parte do amadurecimento, e a vida alterna naturalmente períodos mais intensos com períodos mais tranquilos.

O problema não é o estresse. É o que a definição da OMS aponta com precisão: o estresse crônico que não foi gerenciado com sucesso. Quando a tensão deixa de ser um pico passageiro e vira o estado permanente, sem pausas reais de recuperação, o organismo começa a ceder. É aí que o estresse comum atravessa a fronteira do esgotamento.

E nem sempre o vilão é a empresa ou o chefe. Alana relata casos de pacientes que se sentiam esgotados por não conseguirem organizar as próprias tarefas e gerenciar o próprio tempo. A pergunta honesta não é só "meu trabalho exige demais?", mas também "como eu tenho me relacionado com o meu trabalho?".

Os 3 sinais do esgotamento

A CID-11 caracteriza o burnout por três dimensões. Elas não surgiram do nada: vêm de décadas de pesquisa da psicóloga Christina Maslach, criadora do instrumento mais usado no mundo para medir a síndrome.

O que diz a pesquisa

Christina Maslach e Susan Jackson publicaram em 1981, no Journal of Organizational Behavior, o estudo que deu origem ao Maslach Burnout Inventory, até hoje o principal instrumento de avaliação do burnout. A pesquisa identificou as três dimensões da síndrome: exaustão emocional, despersonalização (o distanciamento) e redução da realização pessoal no trabalho. São essas três dimensões que a OMS incorporou à CID-11 quarenta anos depois.

1. Exaustão que o descanso não resolve

Não é o cansaço de sexta-feira que o fim de semana repõe. É acordar já cansado. É o paciente que chega ao consultório dizendo "eu só tenho vontade de ficar na minha cama", e, na conversa, tudo converge para o trabalho: qualquer tarefa ligada a ele já dispara ansiedade e a energia parece nunca ser suficiente.

A própria Alana viveu isso durante a pandemia. Atendendo muito online, crescendo nas redes sociais e trabalhando com o marido, que é sócio dela, chegou a um ponto em que o volume de atendimentos que antes era tranquilo passou a drenar tudo: chegava ao último paciente do dia sem energia, angustiada, acordando já exausta.

2. Distanciamento do trabalho e das pessoas

O segundo sinal é mais silencioso. A pessoa que adorava o que fazia começa a evitar o assunto. Quem era próximo dos colegas passa a se isolar: escolhe ficar em casa sempre que pode, arruma justificativas para não ir, some das conversas.

Foi o sinal vermelho da Alana: ela, que amava falar de trabalho, do nada começou a pedir ao marido "não quero mais falar disso, vamos mudar de assunto". Quando o simples tema do trabalho já causa estresse, algo mudou.

3. Queda na realização profissional

A terceira dimensão é a autoestima profissional despencando. Tudo o que a pessoa produz parece ruim: o relatório está horrível, as metas não saem, o trabalho que antes dava orgulho agora só gera autocrítica. E isso alimenta o ciclo, porque o que era fonte de prazer vira fonte de frustração diária.

Os três sinais do burnout: exaustão persistente, distanciamento do trabalho e queda na realização profissional
Salve esta imagem: os três sinais valem como um termômetro para observar a sua relação com o trabalho.

O esgotamento não chega de uma vez. Ele se instala aos poucos, enquanto você acredita que é só uma fase.

Um aviso importante do episódio: identificar-se com um ou outro ponto não significa estar em burnout. Significa que vale buscar uma avaliação profissional, porque diagnóstico é trabalho de especialista, e quanto mais cedo o quadro é reconhecido, mais simples é o caminho de volta.

Se você se reconheceu nesses sinais, não espere o quadro se agravar para agir. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental, com atendimento 100% online.

Agendar minha primeira sessão →

Por que ficou tão difícil colocar limites

Se colocar limites fosse fácil, o burnout não estaria crescendo. O episódio mapeia três situações em que a fronteira entre trabalho e vida pessoal praticamente desapareceu:

  • Quem trabalha com a internet está o tempo inteiro no celular, no mesmo aparelho e nas mesmas redes onde vive a vida social. Onde termina um e começa a outra?
  • Quem é autônomo sabe que o resultado do mês depende de quanto trabalhar. Como parar, se parar significa ganhar menos?
  • Quem é contratado pode estar numa cultura de metas agressivas e mensagens de trabalho no WhatsApp pessoal, fora do horário, todos os dias.

Nenhuma dessas situações causa burnout sozinha. Mas todas corroem, aos poucos, os momentos de recuperação de que o organismo precisa. E é justamente na recuperação que mora a prevenção.

Como se proteger: 6 estratégias práticas

As estratégias que a Alana apresenta no episódio têm um princípio em comum: garantir que exista vida de verdade fora do trabalho. Não como luxo, mas como manutenção.

1. Descanso e lazer intencionais

Momentos de descanso não podem ser o que sobra da agenda: precisam estar na agenda. Planeje na semana horários para hobbies e lazer que não tenham nenhuma relação com o trabalho. E cuide do sono: um adulto precisa, em geral, de seis a oito horas por noite, e levar o notebook para a cama para responder e-mail até o último minuto é receita para insônia.

2. Desligar de verdade fora do expediente

Não basta sair do escritório: a cabeça precisa sair junto. A psicologia chama isso de desligamento psicológico, e é uma das variáveis mais estudadas na prevenção do esgotamento.

O que diz a pesquisa

As pesquisadoras Sabine Sonnentag e Charlotte Fritz revisaram duas décadas de estudos sobre recuperação do estresse ocupacional e propuseram o modelo estressor-desligamento, publicado no Journal of Organizational Behavior. A conclusão: o desligamento psicológico do trabalho nas horas livres, ou seja, não apenas parar de trabalhar, mas parar de pensar em trabalho, é a experiência de recuperação mais consistentemente associada ao bem-estar. A falta dele prediz níveis altos de tensão e esgotamento.

3. Mover o corpo

Atividade física regular protege a saúde física, e a saúde física respinga na emocional. No caso do burnout, a relação foi testada diretamente: uma revisão sistemática de dez estudos longitudinais e de intervenção, publicada no Journal of Occupational Health, encontrou associação consistente entre praticar atividade física e apresentar níveis menores de esgotamento.

4. Vigiar a autocobrança

Perfeccionismo e autocobrança excessiva fazem você ultrapassar o tempo saudável de dedicação a cada tarefa, e transformam qualquer resultado em "não está bom o suficiente". Horas extras constantes, todo dia, toda semana, são um alerta, não uma medalha. Regular essa cobrança interna é uma habilidade que se treina, como mostramos no artigo sobre os 7 hábitos de inteligência emocional.

5. Delegar e fazer pausas

Se você é gestor, dono do próprio negócio ou autônomo, delegue. Centralizar tudo em você é carregar um fardo que não precisa ser só seu. E, ao longo do dia, faça pausas reais: almoçar com um colega falando de qualquer coisa que não seja trabalho, ir até a varanda respirar sem celular na mão. Pequenas pausas desaceleram a mente e trazem o foco de volta ao presente.

6. Não abrir mão das férias

Tem gente que passa cinco anos sem tirar férias, e às vezes se orgulha disso. Períodos maiores de desconexão, uma semana ou mais de tempos em tempos, oxigenam as ideias e devolvem criatividade e clareza. A Alana organiza a própria agenda para descansar uma semana a cada três ou quatro meses. O formato pode variar; o princípio, não: ninguém aguenta operar no máximo indefinidamente.

O sinal de alerta que quase ninguém percebe

No fim do episódio, Alana toca no ponto mais profundo, e talvez o mais importante do conteúdo.

Se toda a sua fonte de prazer, autoestima e realização vem do trabalho, qualquer crise no trabalho vira uma crise de identidade.

Ela conta a história de um familiar que atravessou o doutorado, período que exige dedicação intensa, acumulando exaustão, e chegou a dizer: "se eu pudesse tirar o trabalho da minha vida, eu acho que seria feliz". Não era sobre odiar o trabalho. Era sobre o trabalho ter engolido todo o resto.

Com ajustes de rotina e uma mudança na forma de se relacionar com as tarefas, além do encaminhamento para terapia, o cenário mudou. Tempo depois, ele mandou uma mensagem: "aquela nossa conversa melhorou muita coisa, eu tenho me sentido muito melhor".

A lição vale para todos: o trabalho é importante, mas quando ele vira o centro exclusivo da vida, a conta chega, seja numa demissão, seja num adoecimento. Construir fontes de realização fora dele, nos vínculos, nos hobbies, no cuidado consigo, é o que sustenta uma vida adulta emocionalmente saudável, tema que aprofundamos no artigo sobre as 8 competências do adulto emocionalmente saudável.

Quando buscar ajuda profissional

Se os sinais deste artigo descrevem a sua rotina, o caminho tem etapas claras:

  1. Avaliação profissional. Só um especialista pode diferenciar um período estressante de um quadro de burnout, ou de uma depressão que se manifesta no trabalho.
  2. Terapia. No processo terapêutico se trabalham os limites, a autocobrança, a organização da rotina e as crenças que mantêm você no padrão de esgotamento. Em quadros iniciais, mudanças comportamentais orientadas já produzem melhora significativa.
  3. Psiquiatra, quando necessário. Em quadros mais graves, a medicação pode entrar como apoio ao tratamento psicológico.
  4. Afastamento, se for o caso. Com o reconhecimento oficial da síndrome, o afastamento do trabalho para tratamento é um direito, não um fracasso.

O burnout se constrói devagar, e se desconstrói com método. Quanto antes começar, mais curto é o caminho.

Mais de 150 mil atendimentos realizados. Nossa tecnologia analisa seu perfil e indica as psicólogas mais compatíveis com o que você busca. Sessões 100% online, de onde você estiver.

Quero encontrar minha psicóloga →

Assista ao episódio completo

Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

Continue lendo

Referências

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an "occupational phenomenon": International Classification of Diseases. Genebra: OMS, 2019. who.int
  2. MASLACH, C.; JACKSON, S. E. The measurement of experienced burnout. Journal of Organizational Behavior, v. 2, n. 2, p. 99-113, 1981. onlinelibrary.wiley.com
  3. SONNENTAG, S.; FRITZ, C. Recovery from job stress: The stressor-detachment model as an integrative framework. Journal of Organizational Behavior, v. 36, S1, p. S72-S103, 2015. onlinelibrary.wiley.com
  4. NACZENSKI, L. M.; VRIES, J. D. de; HOOFF, M. L. M. van; KOMPIER, M. A. J. Systematic review of the association between physical activity and burnout. Journal of Occupational Health, v. 59, n. 6, p. 477-494, 2017. doi.org/10.1539/joh.17-0050-RA
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.999, de 27 de novembro de 2023. Atualiza a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT). bvsms.saude.gov.br
  6. AMATRA-1. Afastamentos por burnout quintuplicam em quatro anos. Rio de Janeiro, 2025. Com dados do Ministério da Previdência Social. amatra1.org.br

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

Esperamos que você tenha gostado deste artigo! Para mais insights e discussões interessantes sobre este tema, não deixe de conferir nosso podcast e canal no YouTube “Psicologia na Prática“. Lá, exploramos uma variedade de tópicos para ajudar você a aplicar a psicologia no dia a dia de maneiras práticas e acessíveis.

Não se esqueça também de seguir Alana Anijar no Instagram para atualizações diárias, dicas e muito mais conteúdo exclusivo sobre psicologia. E se você está procurando aprofundar ainda mais seus conhecimentos, nosso livro “Psicologia na Prática” está disponível na Amazon. É um recurso valioso para todos que desejam entender melhor a psicologia e utilizá-la de forma eficaz em suas vidas.

Conecte-se com a gente e faça parte da nossa comunidade!

Ouça nosso podcastPsicologia na Prática
Assista no YouTubePsicologia na Prática
Siga no Instagram@AlanaAnijar
Leia nosso livroPsicologia na Prática na Amazon

Venha aprender e crescer conosco!

Compartilhe

Facebook
Telegram
WhatsApp
Email
Foto de Alana Anijar

Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

Mais postagens