Como se tornar um adulto emocionalmente saudável
Maturidade emocional não chega com o aniversário. Na terapia do esquema, ela é um conjunto de oito competências que se treinam. Veja quais são e como reconhecer a sua mais frágil.
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Você conhece alguém de quarenta anos que some quando a conversa fica difícil? Que culpa todo mundo pelo que sente? Que muda de opinião conforme a mesa em que está sentado?
Idade não é maturidade. São duas coisas diferentes, e uma não produz a outra.
No episódio "Como se tornar um adulto saudável emocionalmente", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar recorre a um conceito da terapia do esquema para explicar por quê: existe dentro de cada pessoa uma parte adulta, madura e executiva, que precisa ser desenvolvida. Ela não aparece sozinha aos dezoito anos. Ela se constrói.
Neste artigo, destrinchamos as cinco tarefas dessa parte adulta e as oito competências que a sustentam, com as pesquisas que dão base a cada uma.
Você se reconhece reagindo como criança em situações adultas? Ler sobre isso ajuda a nomear. Trabalhar o que sustenta o padrão é outro tipo de trabalho, e é ele que a terapia faz.
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Existe uma suposição silenciosa de que amadurecer é automático: basta acumular aniversários, contas e responsabilidades de trabalho para que a maturidade emocional venha junto. Ela não vem. A evidência está espalhada pela vida de todo mundo, em pessoas com carreiras sólidas que preferem desaparecer a terminar uma relação, adultos que gastam por impulso sempre que o dia foi ruim, profissionais competentes que leem qualquer feedback como ataque pessoal.
Tem gente de trinta, quarenta, cinquenta anos que não desenvolveu nenhuma dessas habilidades, e por isso lida com a vida como uma criança assustada.
A observação é de Alana no episódio, e ela desmonta a ideia de que maturidade é uma etapa que se atravessa. Maturidade emocional é uma capacidade, e capacidades se desenvolvem ou atrofiam conforme o uso. Como diz a frase de Sartre que abre o episódio, o homem não é nada além daquilo que ele faz de si mesmo. Ninguém faz esse trabalho no seu lugar.
O que a terapia do esquema chama de adulto saudável
A terapia do esquema foi desenvolvida por Jeffrey Young a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental, para tratar padrões que se repetem desde a infância e resistem às abordagens mais curtas. Ela trabalha com a ideia de modos: estados que se alternam dentro da mesma pessoa.
Num momento você está na criança vulnerável, a parte que se sente pequena e sem recursos. Em outro, na criança impulsiva, que quer alívio imediato. Em outro ainda, no crítico interno, a voz que repete que você nunca é suficiente. E existe o adulto saudável: a parte madura, executiva e prática da personalidade, a que lida com trabalho, estudo, relacionamentos e também com a busca por prazer. É o modo que administra todos os outros.
O conceito foi formulado por Jeffrey Young, Janet Klosko e Marjorie Weishaar em Schema Therapy: A Practitioner's Guide, publicado pela Guilford Press em 2003 e lançado no Brasil pela Artmed em 2008 como Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras. É a obra de referência do modelo de modos esquemáticos.
Alana faz uma ponte útil com a neurociência: o adulto saudável tem muito a ver com o córtex pré-frontal, região das funções executivas, com a diferença de que não é só razão. É razão integrada à emoção.
Duas coisas importam aqui. A primeira: todo mundo tem esse modo, não é privilégio de quem teve infância tranquila. A segunda: ele só funciona na medida em que é exercitado.
As cinco tarefas do adulto saudável no dia a dia
Antes de listar competências, vale entender o que essa parte adulta faz na prática. Alana organiza em cinco tarefas:
- Interromper o piloto automático dos padrões infantis. Se você evita conflito a todo custo e concorda com coisas em que não acredita só para não discutir, o adulto saudável é quem reconhece o padrão e busca um caminho mais assertivo.
- Atender as necessidades da criança vulnerável. Quando a insegurança aparece e você se sente pequeno, ele reconhece a vulnerabilidade, busca apoio em alguém de confiança e lembra você das vezes em que já superou algo parecido.
- Colocar limite no impulso. Se estresse vira compra compulsiva, ele é a instância que consegue pausar antes de agir e considerar outra saída.
- Garantir prazer e alegria. Cozinhar algo especial, tocar um instrumento, ver amigos. Não é supérfluo: é o que nutre a parte que sente alegria, e o adulto saudável protege esse espaço na rotina.
- Suavizar a voz crítica. Diante de um erro, ele reconhece a autocrítica, mas também lembra você das suas conquistas e do seu valor.
Repare no padrão: em quatro das cinco tarefas, o adulto saudável está cuidando de outra parte de você. Essa é a imagem central do modelo.
O adulto saudável é a parte de você que cuida da criança que você foi.
As oito competências, uma a uma
Alana traz as oito competências centrais do adulto saudável a partir de um capítulo do livro Terapia do esquema: base teórica e estratégias avançadas, organizado pela psicóloga brasileira Ana Rizzon. Elas descrevem o que essa parte adulta precisa saber fazer.
1. Metacognição
É a espinha dorsal do adulto saudável: observar os próprios pensamentos e emoções em vez de ser levado por eles. Um prazo apertado dispara ansiedade. Sem metacognição, você vira a ansiedade. Com ela, você percebe: "estou ansiosa, por que me sinto assim, o que posso fazer agora". A distância que essa observação cria é o que torna qualquer outra mudança possível.
2. Orientação para a realidade
É avaliar as situações do dia com precisão, sem a distorção dos vieses e das feridas antigas. Você recebe um feedback negativo. Sem essa competência, vira "essa pessoa não gosta de mim". Com ela, vem a pergunta: existe evidência real disso, ou é alguém apontando algo para eu melhorar?
Alana usa uma imagem precisa: é tirar as lentes de rejeição, medo e desvalor na hora de olhar para a cena. Para tirá-las, primeiro é preciso saber que elas estão ali.
3. Conexão emocional
É estar presente às próprias emoções, inclusive as difíceis, sem reprimir e sem se afogar nelas. Em vez de empurrar a tristeza para longe, a conexão emocional pergunta o que essa tristeza está tentando dizer e o que na sua vida pede atenção. A emoção deixa de ser um incômodo a eliminar e passa a ser informação.
4. Senso de identidade coerente
É saber quem você é, o que valoriza e o que quer, de forma estável nas diferentes áreas da vida. Quem não tem esse senso é uma pessoa com os amigos e outra com a família, ri de piadas que não acha graça, concorda com opiniões que não são suas, oscila nos gostos e até na própria imagem conforme o ambiente. Não é rigidez: é ter um centro que não se dissolve na pressão social.
5. Assertividade e reciprocidade
Assertividade é expressar necessidades e limites com clareza, sem violar os próprios direitos nem os do outro. Reciprocidade é responder às necessidades do outro na mesma medida. As duas andam juntas de propósito: assertividade sozinha vira egoísmo articulado, reciprocidade sozinha vira anulação.
Quando alguém pede um favor e você já está sobrecarregada, a resposta madura não é nem o "sim" automático nem o "não" seco. É algo como "eu adoraria ajudar, mas estou com muita coisa agora, podemos combinar outro momento". Aprofundamos esse ponto no texto sobre assertividade na comunicação.
6. Agência e responsabilidade
É iniciar, executar e controlar as próprias ações, assumindo as consequências em vez de terceirizar a culpa. Assumiu um projeto e percebeu que não vai cumprir o prazo? Responsabilidade é avisar cedo e propor solução, não sumir e torcer para ninguém notar. Nos relacionamentos, é a diferença entre encerrar com uma conversa difícil e simplesmente desaparecer.
7. Cuidar além de si
É se engajar no bem-estar de outras pessoas sem negligenciar as próprias necessidades. Não precisa ser trabalho voluntário: pode ser ajudar em casa, perceber a necessidade de quem está ao lado, se responsabilizar por algo que não é obrigação sua. Uma criança é naturalmente autocentrada, e isso é adequado à idade dela. Um adulto que só consegue cuidar de si parou em algum lugar do caminho.
8. Esperança e sentido
É encontrar direção nos momentos difíceis, extraindo aprendizado da dor em vez de apenas atravessá-la. Diante de uma perda significativa, é o que permite perguntar o que a experiência ensina e como sair dela mais forte, às vezes até ajudando quem passa pelo mesmo. É a base do que se costuma chamar de resiliência.
Sete dessas competências aparecem com esses mesmos nomes no artigo de David Edwards, publicado na Frontiers in Psychology em janeiro de 2022, que sistematiza a avaliação do adulto saudável na conceituação de caso. Ali, esperança e sentido aparecem dentro da competência de cuidar além de si, e não como item separado.
A oitava tem base própria: Duygu Yakın e Arnoud Arntz, em estudo publicado na Frontiers in Psychiatry em 2023, identificaram esperança e fé como um dos seis subtemas do adulto saudável, ao lado de compaixão, estabelecimento de limites, sintonia emocional, autorreflexão e enfrentamento de desafios.
Como descobrir qual competência está frágil em você
Ler oito competências e concluir que precisa melhorar em todas não ajuda ninguém. O uso prático da lista é outro: usá-la como diagnóstico. Passe pelos oito itens e marque aquele em que você reconheceu uma cena específica sua. Costuma ser um só, e costuma incomodar mais que os outros. Perguntas que ajudam:
- Metacognição: você percebe que está em espiral enquanto está nela, ou só depois?
- Realidade: quantas vezes por semana você conclui coisas sobre o que os outros pensam de você, sem checar?
- Conexão emocional: quando algo dói, você sente ou você se ocupa?
- Identidade: você é a mesma pessoa em três ambientes diferentes?
- Assertividade: quando foi a última vez que você disse não e não se sentiu culpada?
- Responsabilidade: nas últimas brigas, a culpa foi sempre do outro?
- Cuidar além de si: alguém contou com você recentemente e você apareceu?
- Esperança: as suas perdas viraram aprendizado ou viraram só cicatriz?
A competência mais frágil geralmente aponta para a necessidade emocional que não foi bem atendida na infância. Quem cresceu num ambiente em que emoção era ignorada tende a chegar na vida adulta com conexão emocional frágil. Quem cresceu tendo que agradar tende a ter assertividade frágil. Não é coincidência, é história. Falamos disso em detalhe no texto sobre consequências da negligência emocional infantil.
Reconhecer o padrão é o começo. Mudar o padrão exige alguém treinado para enxergar o que você ainda não enxerga. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.
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Aqui está o ponto que separa quem lê sobre maturidade de quem desenvolve maturidade: nenhuma dessas oito competências melhora por compreensão. Todas melhoram por repetição. Vale o mesmo para os hábitos de inteligência emocional que Alana detalhou em outro episódio do podcast: entender leva minutos, incorporar leva meses.
Três regras para o treino:
- Escolha uma competência para o mês. Uma só. Oito frentes ao mesmo tempo não é treino, é ansiedade.
- Defina uma ação observável. "Ser mais assertiva" não é treinável. "Dizer não a um pedido por semana, sem me justificar além de uma frase" é.
- Revise no fim do mês. O que ficou mais fácil, onde você recuou, que situação ainda derruba você.
E vale reforçar a quinta tarefa da lista anterior, porque é onde a maioria tropeça: o treino não sobrevive à crítica severa. Errar faz parte, e a forma como você fala consigo depois do erro determina se você continua ou desiste.
Uma meta-análise conduzida por Angus MacBeth e Andrew Gumley, publicada na Clinical Psychology Review em 2012, reuniu 20 amostras e encontrou associação forte entre autocompaixão e menor nível de sintomas de saúde mental (r = -0,54).
Ou seja: tratar-se com compaixão diante do erro não é indulgência. É um dos fatores mais consistentemente ligados a menos ansiedade e menos depressão na literatura.
Quando a infância pesa mais do que o treino
Há um limite honesto para o que autoconhecimento e prática resolvem sozinhos. Se toda vez que alguém se aproxima você sabota a relação, se a mesma cena se repete em todos os empregos, se você entende perfeitamente o padrão e mesmo assim ele acontece de novo, o problema não é falta de informação. É que a criança ferida assume o comando antes de o adulto saudável ter chance de aparecer.
Esse é exatamente o terreno da terapia. No processo terapêutico se identifica de onde vem cada padrão, se trabalha diretamente com a parte que ficou sem cuidado e se fortalece a parte adulta que ainda não conseguiu assumir o volante sozinha.
Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por Kaiyuan Zhang e colaboradores, publicada no Nordic Journal of Psychiatry em 2023, reuniu oito ensaios clínicos randomizados com 587 participantes. A terapia do esquema apresentou efeito moderado na redução de sintomas de transtornos de personalidade quando comparada às condições de controle, quadros em que os padrões vêm da infância e resistem a intervenções mais breves.
Alana encerra o episódio com uma frase que vale repetir: por mais difícil que tenha sido a sua infância, e por menos referências de maturidade que você tenha tido, hoje você é o adulto. Fortalecer essa parte é a sua responsabilidade, e é também a sua possibilidade.
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Referências
- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press. Edição brasileira: Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras (Artmed, 2008). guilford.com
- Edwards, D. J. A. (2022). Using Schema Modes for Case Conceptualization in Schema Therapy: An Applied Clinical Approach. Frontiers in Psychology, 12, 763670. frontiersin.org
- Yakın, D., & Arntz, A. (2023). Understanding the reparative effects of schema modes: an in-depth analysis of the healthy adult mode. Frontiers in Psychiatry, 14. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22796446
- Zhang, K., Hu, X., Ma, L., Xie, Q., Wang, Z., Fan, C., & Li, X. (2023). The efficacy of schema therapy for personality disorders: a systematic review and meta-analysis. Nordic Journal of Psychiatry, 77(7), 641-650. tandfonline.com
- Rizzon, A. (org.). Terapia do esquema: base teórica e estratégias avançadas. Sinopsys Editora. sinopsyseditora.com.br
- Sartre, J.-P. (1946). O Existencialismo é um Humanismo. Conferência proferida em Paris. texto integral
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