Imaturidade emocional no relacionamento: 5 sinais que corroem o amor por dentro
Dois adultos podem se amar muito e ainda assim destruir a relação. O que separa um casal que cresce de um casal que se desgasta não é a intensidade do sentimento: é o repertório emocional de cada um.
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Você já esteve numa relação em que o amor não estava em dúvida e mesmo assim tudo doía? Em que os dois diziam "eu te amo" na semana e terminavam no fim de semana, arrumavam as coisas, saíam de casa, voltavam?
Isso não é falta de amor. É falta de repertório.
No episódio "Como deixar de ser imatura nos relacionamentos amorosos", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar lista cinco sinais de imaturidade emocional que aparecem dentro de relações amorosas. Não como rótulo, e sim como diagnóstico: o primeiro passo para mudar um comportamento é conseguir enxergá-lo.
Neste artigo, cada um dos cinco sinais aparece com o que a pesquisa em relacionamentos mostra sobre ele, e com o movimento concreto que substitui o comportamento imaturo.
Você se reconhece nesses padrões e não sabe como quebrá-los sozinha? Reconhecer é o primeiro passo, mas mudar um padrão que se repete há anos costuma exigir acompanhamento. É isso que a terapia faz.
Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →O que é maturidade emocional (e por que não tem a ver com idade)
Maturidade emocional é a capacidade de lidar com as próprias emoções de forma equilibrada. Uma pessoa madura tem uma visão coerente de si mesma: conhece os próprios defeitos, reconhece os próprios erros, aceita mudar, quer construir boas relações.
E aqui está o ponto que costuma incomodar: isso não vem com a idade. Existem pessoas de quarenta anos reagindo como adolescentes diante de uma frustração, simplesmente porque nunca começaram a jornada de se conhecer e de se preparar para lidar com as adversidades da vida a dois.
A imaturidade emocional é o outro lado disso: uma dificuldade de gerenciar o que se passa dentro de você, que acaba respingando na forma como você lida com o outro. Quem não regula bem o próprio mundo interno tende a projetar no parceiro, a exigir aprovação em excesso, a transformar cada desacordo em ameaça.
Não é o amor que mantém o relacionamento. É a forma de se relacionar que mantém o amor.
Essa frase, dita por Alana no episódio, é a chave de tudo o que vem a seguir. Você pode amar muito uma pessoa e não saber se relacionar com ela. E o jeito de se relacionar vai, aos poucos, destruindo o amor que estava lá.
Uma observação antes de continuar: a lista abaixo não serve para rotular ninguém. Nem você, nem quem está com você. Serve para nomear comportamentos, porque comportamento nomeado é comportamento que pode mudar.
Sinal 1: você precisa do outro para se sentir bem
Existe um mito muito repetido de que a pessoa saudável é a que não depende de ninguém. Isso é falso. Nós dependemos, em alguma medida, das pessoas que amamos, e isso faz parte de ser humano. A questão nunca foi depender: foi escolher bem de quem se depende, e em que grau.
A dependência excessiva aparece assim:
- Você deixa de ir a lugares e a compromissos se aquela pessoa não estiver junto
- Você precisa da opinião dela para decisões pequenas, até para escolher uma roupa
- Se ela demora a responder, você não consegue se regular
- Quando ela está indisponível, por trabalho ou viagem, aquilo te afeta de forma desproporcional
Ou seja: a outra pessoa virou a responsável por regular as suas emoções. Se ela está bem com você, você está bem. Se não está, você desaba.
Isso costuma ter relação com o estilo de apego que você desenvolveu na infância. A teoria do apego, formulada por John Bowlby a partir do vínculo entre bebês e cuidadores, foi depois estendida à vida adulta.
Em 1987, Cindy Hazan e Phillip Shaver publicaram no Journal of Personality and Social Psychology o estudo que traduziu a teoria do apego para o amor romântico adulto, descrevendo os três estilos: seguro, ansioso e evitativo. É a base do livro Apegados, de Amir Levine e Rachel Heller, citado por Alana no episódio.
No estilo ansioso, a pessoa deseja muito intimidade, mas vive insegura dentro dela: precisa de confirmação constante, sente ciúme com facilidade e interpreta distância como abandono.
Agora, o dado que muda a conversa. Depender do parceiro, na medida certa, não enfraquece ninguém. Faz o contrário.
Brooke Feeney, da Carnegie Mellon, descreveu em 2007 o que chamou de paradoxo da dependência: parceiros que aceitam a dependência do outro quando ela é necessária produzem pessoas mais autônomas, não menos. Quem tem uma base segura explora mais o mundo, persegue mais os próprios objetivos e se vira melhor sozinho.
No plano fisiológico, o efeito é mensurável. No estudo Lending a Hand, de James Coan, Hillary Schaefer e Richard Davidson (2006), mulheres casadas foram submetidas à ameaça de choque dentro de um aparelho de ressonância. Segurar a mão do marido reduziu a ativação das áreas cerebrais ligadas à resposta de ameaça, e o efeito era maior quanto melhor a qualidade do casamento.
Um bom parceiro regula você. Isso é saudável e desejável. O problema é quando ele vira a única forma de você se regular.
O movimento maduro: construa uma relação com você mesma que exista fora da relação amorosa. Amizades próprias, prazeres próprios, decisões que você toma sem consultar ninguém. Não para provar que não precisa dele, e sim para que a proximidade seja escolha, não sobrevivência.
Sinal 2: você não diz o que precisa, ou diz gritando
A imaturidade na comunicação aparece nos dois extremos, e os dois destroem igual.
De um lado, a explosão: gritar quando frustrada, xingar, fazer exigências, transformar um pedido em acusação. Do outro, o recolhimento: se afastar, ficar em silêncio, dizer que está tudo bem quando não está.
O segundo extremo engana mais, porque parece educação. Não é. É uma bomba com pavio longo.
No estudo longitudinal de John Gottman e Robert Levenson (1992, Journal of Personality and Social Psychology), 79 casais recém-casados foram filmados discutindo um desacordo real. Quatro comportamentos previram a dissolução do casamento anos depois: crítica, desprezo, defensividade e o fechamento em silêncio (o que Gottman chamou de stonewalling).
Ou seja: o parceiro que se cala durante a briga não está evitando o dano. Está praticando um dos quatro comportamentos mais associados ao fim da relação.
A alternativa é a comunicação assertiva: dizer o que você pensa, o que deseja e o que precisa sem ferir o outro e sem se anular. Não é meio-termo morno. É colocar o que você sente de forma clara e fazer o pedido concreto que resolve.
Existe um custo nisso, e vale saber qual é antes de tentar.
Nickola Overall e colegas acompanharam 61 casais por um ano (2009, Journal of Personality and Social Psychology). As conversas diretas, em que a pessoa nomeia o problema sem rodeios, foram sentidas como menos bem-sucedidas no momento. Mas foram justamente elas que previram mudança real ao longo dos doze meses seguintes.
As estratégias indiretas e simpáticas davam a sensação imediata de conversa boa, e não mudavam nada.
Vale corrigir aqui uma ideia comum: casal que nunca briga não é necessariamente casal saudável. Às vezes não existe briga porque não existe mais diálogo, porque alguém desistiu de conversar ou porque ninguém sabe como. Conflito zero costuma ser silêncio, não harmonia.
O movimento maduro: troque a acusação pelo pedido. Em vez de "você nunca me dá atenção", experimente "eu tenho sentido falta de nós dois juntos sem celular, podemos reservar uma noite?". A primeira frase produz defesa. A segunda produz resposta.
Se toda conversa importante vira briga, ou se você sente que engole tudo para manter a paz, esse padrão tem nome e tem tratamento. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.
Agendar minha primeira sessão →Sinal 3: as brigas terminam em ameaça, não em acordo
Este sinal é filho do anterior. Quem não sabe se comunicar não consegue resolver conflito de forma construtiva, e a briga passa a ter um roteiro fixo: grito, ameaça de término, alguém arruma as coisas e sai de casa, e dias depois tudo volta ao normal sem que nada tenha sido resolvido.
Aquele casal que vive terminando e voltando não tem um problema de amor. Tem um problema de método.
Maturidade não é ausência de conflito. É sair do conflito com um acordo em vez de uma ferida.
Há duas formas de imaturidade que aparecem com mais força aqui:
- A briga de egos. A discussão deixa de ser sobre o assunto e passa a ser sobre quem está certo. Você precisa da última palavra, nunca pede desculpa, espera que o outro venha atrás.
- A ameaça como arma. Usar o término para conseguir o que se quer transforma a base da relação em terreno instável. Ninguém se abre de verdade com alguém que pode ir embora a cada desacordo.
O gesto mais maduro nesse território é também o mais difícil: engolir o orgulho e puxar a conversa primeiro. Não porque você estava errada, e às vezes você não estava mesmo, mas porque a relação importa mais do que o placar da discussão.
Isso não é passar pano. Um casal maduro conversa sobre o que precisa ser resolvido e chega a alguma conclusão, mesmo que não seja na mesma hora. O que muda é a intenção: os dois estão do mesmo lado, tentando resolver um problema, em vez de em lados opostos tentando vencer um ao outro.
E existe término maduro. Nem toda relação continua, e algumas terminam mesmo. Conseguir encerrar conversando, respeitando quem esteve ali com você e desejando o bem daquela pessoa, mesmo doendo, mesmo discordando da decisão, é uma das demonstrações mais claras de maturidade emocional que existem.
O movimento maduro: combine com a outra pessoa, fora da briga, uma regra simples: ninguém ameaça terminar durante uma discussão. Se alguém precisar de pausa, pede pausa e marca a hora de voltar. Pausa não é abandono.
Sinal 4: você não consegue se abrir
Se você observar uma criança ou um adolescente, vai notar a mesma dificuldade: eles não sabem nomear o que sentem, não conseguem refletir sobre isso e muito menos comunicar. Estão aprendendo.
Um adulto que não consegue se abrir está no mesmo ponto, e isso cobra um preço na relação: casais que guardam coisas um do outro perdem intimidade e satisfação, mesmo quando não brigam.
Susan Sprecher e Susan Hendrick (2004, Journal of Social and Clinical Psychology) acompanharam casais ao longo do tempo e encontraram associação positiva e consistente entre autorrevelação e qualidade da relação: quanto mais os dois se abriam, maiores a satisfação, o amor e o comprometimento relatados. O efeito apareceu igualmente em homens e mulheres.
Se abrir não significa chorar todo dia nem transformar a relação num plantão terapêutico. Significa conseguir dizer o que está acontecendo com você: a raiva, o ciúme, a inveja, o medo, a insegurança. Sem despejar isso no outro como cobrança, e sem esconder até virar ressentimento.
O casal maduro não é só namorado ou cônjuge. É amigo de verdade, com quem dá para contar e diante de quem dá para não ter segredo.
Se você cresceu num ambiente onde ninguém falava do que sentia, isso vai ser mais difícil para você do que para outras pessoas, e não é falha de caráter: é repertório que ninguém te ensinou. Terapia é um dos melhores lugares para aprender.
O movimento maduro: escolha uma coisa que você vem guardando e conte esta semana. Uma só. Comece pela frase mais simples que existe: "tem uma coisa que eu queria te contar, e eu tenho um pouco de dificuldade de falar disso".
Sinal 5: você só dá quando recebe primeiro
Ter alguma expectativa de reciprocidade é humano. O problema começa quando a relação inteira passa a funcionar em modo de placar:
- Eu só sou carinhosa se ele for carinhoso
- Eu só me abro se ele se abrir
- Eu só peço perdão se ele pedir também
- Eu dou um passo se ele der um passo
Nesse ponto, vocês pararam de ser um time e viraram adversários numa mesa de pôquer, cada um esperando para ver quanto o outro coloca antes de arriscar. E o que deveria ser espontâneo vira transação.
Margaret Clark e Judson Mills distinguiram, desde 1979, dois modos de funcionar num vínculo. Nas relações de troca, o benefício é dado como retribuição a um benefício recebido. Nas relações comunais, ele é dado em resposta à necessidade do outro.
Em estudos posteriores (Clark, Mills e Corcoran, 1986), quem operava em modo de troca monitorava as contribuições de cada um. Quem operava em modo comunal monitorava as necessidades do outro. E é o segundo modo, não o primeiro, que caracteriza vínculos íntimos satisfatórios.
Ou seja: manter a contabilidade da relação não é justiça, é sintoma. E quem faz isso costuma sofrer duas vezes, porque acumula mágoa por um saldo que a outra pessoa muitas vezes nem sabe que existe.
A saída é se doar de forma genuína, sem condicionar seu afeto à ação do outro. Quando alguém realmente ama e deseja estar naquela relação, a tendência é começar a retribuir naturalmente. Mas isso acontece por contágio, não por cobrança.
O movimento maduro: escolha um gesto pequeno por semana que você faz sem avisar, sem cobrar e sem esperar retorno imediato. Se em alguns meses você perceber que a doação continua indo só para um lado, aí sim existe uma conversa a ter, e ela é sobre a relação inteira, não sobre aquele gesto.
Por onde começar esta semana
Cinco sinais é muita coisa para atacar de uma vez, e tentar mudar tudo junto costuma terminar em nada mudando. Faça assim:
- Escolha um. Releia os cinco e marque aquele em que você se reconheceu mais rápido, aquele que deu um leve incômodo. Normalmente é o certo.
- Encontre o comportamento, não o traço. Em vez de "sou dependente", escreva "ontem mandei quatro mensagens seguidas porque ele demorou a responder". Comportamento é o que se muda.
- Faça o movimento maduro correspondente uma vez. Uma conversa, um pedido claro, um gesto sem cobrança, uma coisa contada.
- Repare no que aconteceu depois. Não no que você esperava que acontecesse: no que de fato aconteceu.
Maturidade emocional não é um estado a que se chega. É um processo que se conquista dia após dia, e a única parte que depende de você é começar em algum momento.
Quando isso precisa de terapia
Reconhecer o padrão é uma coisa. Mudar um padrão que se repete desde a adolescência, e que provavelmente já apareceu nos relacionamentos anteriores, é outra.
Alguns sinais de que o trabalho pede acompanhamento:
- O mesmo roteiro se repete com parceiros diferentes
- Você entende racionalmente o que precisa fazer e, na hora, faz exatamente o contrário
- A ansiedade de estar sozinha te mantém em relações que já não fazem bem
- Você não consegue se abrir com ninguém, e não apenas com essa pessoa
Nada disso significa que você tem um defeito. Significa que existe uma história por trás do comportamento, e que ela não vai se desfazer só com informação. A terapia trata a origem, não só o sintoma.
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Continue lendo
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- Por que as brigas do casal não resolvem nada (e o que fazer para a conversa chegar a algum lugar)
- Limites nos relacionamentos não afastam, eles é que tornam a conexão possível
- Nem toda pessoa difícil é narcisista: a pergunta que importa
Referências
- Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511-524. psycnet.apa.org
- Feeney, B. C. (2007). The dependency paradox in close relationships: Accepting dependence promotes independence. Journal of Personality and Social Psychology, 92(2), 268-285. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17279849
- Coan, J. A., Schaefer, H. S., & Davidson, R. J. (2006). Lending a hand: Social regulation of the neural response to threat. Psychological Science, 17(12), 1032-1039. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17201784
- Gottman, J. M., & Levenson, R. W. (1992). Marital processes predictive of later dissolution: Behavior, physiology, and health. Journal of Personality and Social Psychology, 63(2), 221-233. psycnet.apa.org
- Overall, N. C., Fletcher, G. J. O., Simpson, J. A., & Sibley, C. G. (2009). Regulating partners in intimate relationships: The costs and benefits of different communication strategies. Journal of Personality and Social Psychology, 96(3), 620-639. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19254107
- Sprecher, S., & Hendrick, S. S. (2004). Self-disclosure in intimate relationships: Associations with individual and relationship characteristics over time. Journal of Social and Clinical Psychology, 23(6), 857-877. ir.library.illinoisstate.edu/fpsa/1
- Clark, M. S., & Mills, J. (1979). Interpersonal attraction in exchange and communal relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 37(1), 12-24. clarkrelationshiplab.yale.edu
- Clark, M. S., Mills, J., & Corcoran, D. M. (1986). Keeping track of needs in communal and exchange relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 51(2), 333-338. clarkrelationshiplab.yale.edu
- Levine, A., & Heller, R. S. F. (2013). Apegados. Novo Conceito. Reeditado como Maneiras de amar (Sextante).
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