Como equilibrar saúde física, mental e emocional quando o bem-estar virou cobrança
A cultura wellness prometia uma vida mais leve e, para muita gente, entregou culpa. A psicologia explica por que as regras rígidas de autocuidado falham e o que colocar no lugar delas.
▶ Ver o episódio
Você dormiu mal, não conseguiu treinar e comeu um pedaço de pizza no jantar com a família. E a primeira coisa que sentiu não foi prazer, nem descanso: foi culpa. Se essa cena parece familiar, este artigo é para você.
Acordar às cinco da manhã, meditar, treinar todos os dias, cortar o glúten, o açúcar e o álcool, dormir oito horas. A promessa é sedutora: siga a fórmula e você terá uma vida equilibrada, saudável e livre de estresse. Mas o que acontece quando a fórmula não cabe na sua vida?
No episódio "Como equilibrar saúde física, mental e emocional", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, faz um contraponto que ela mesma resume assim: sou a favor de uma vida com mais qualidade e bem-estar, mas a busca pela vida perfeita pode estar fazendo mal para muita gente.
Neste artigo, aprofundamos o alerta dela com as pesquisas que mostram quando o autocuidado ajuda e quando ele vira mais uma fonte de sofrimento.
O autocuidado virou mais uma lista de tarefas na sua rotina? Quando cuidar de si gera mais culpa do que alívio, existe um padrão por trás disso. É esse padrão que a terapia trata.
Encontre sua psicóloga na Psi do Futuro →O que é a cultura wellness e por que ela cresceu tanto
Wellness é a palavra em inglês para bem-estar, mas hoje ela nomeia algo maior: um estilo de vida inteiro, construído em torno de hábitos saudáveis para corpo e mente. A ideia em si não é nova. Práticas de cuidado integral existem desde a medicina tradicional chinesa e o ayurveda indiano. O que mudou foi a escala.
As gerações atuais vivem com estímulo constante na palma da mão, altos níveis de pressão no trabalho e um ritmo acelerado que tem relação direta com os índices recordes de ansiedade e depressão. A pandemia reforçou a consciência de que corpo e mente precisam de cuidado. O resultado é que o bem-estar virou também um mercado gigantesco.
Segundo o Global Wellness Institute, organização que monitora o setor, a economia global do wellness movimentou 4,4 trilhões de dólares em 2020, mesmo com a retração causada pela pandemia, e a projeção na época era de chegar a 7 trilhões de dólares até 2025. Os relatórios mais recentes confirmaram a tendência: o setor seguiu crescendo acima da economia global.
Um mercado desse tamanho não vende apenas produtos. Vende um padrão de vida. E é aí que a cultura do bem-estar, criada para aliviar o estresse, começa a produzir o efeito contrário.
Wellness shame: quando o autocuidado vira cobrança
O termo começou a circular nas redes sociais e nomeia algo que muita gente sente sem saber explicar: a vergonha de não estar se cuidando o suficiente.
Alana traz exemplos que ela vê com frequência na clínica. A pessoa que quer ser mais saudável, sai para jantar com as amigas, come algo fora da dieta e sente como se tivesse traído a própria saúde. Foi só um pedaço de pizza, mas o peso é enorme. Ou quem treina várias vezes por semana, acorda cansada num dia, não vai à academia e passa o resto do dia se sentindo mal por isso.
O excesso de autocuidado, sem flexibilidade, gera exatamente o que ele prometia eliminar: culpa, frustração e mais estresse.
O mecanismo é conhecido na psicologia. Quando o bem-estar é definido como um conjunto de regras rígidas, qualquer desvio deixa de ser um episódio normal da vida e passa a ser lido como falha pessoal. E a vida, por definição, é cheia de desvios: noites mal dormidas, filhos que acordam de madrugada, semanas de trabalho que engolem a rotina.
Alana lembra a realidade de muita gente em São Paulo: sair de casa muito cedo, enfrentar duas horas de transporte público, trabalhar o dia inteiro, voltar mais duas horas, às vezes ainda ter faculdade à noite. Como essa pessoa encaixa uma mega rotina de autocuidado nessa vida? Isso não é desculpa para não se cuidar, ela reforça. Mas comparar rotinas tão diferentes usando um padrão único só fabrica culpa.
O preço psicológico da busca pela vida perfeita
A pressão por uma vida sempre saudável, sempre equilibrada e sempre produtiva não é um detalhe estético. Ela tem custo clínico documentado.
Uma meta-análise publicada na Psychological Bulletin por Thomas Curran e Andrew Hill analisou respostas de mais de 41 mil estudantes universitários entre 1989 e 2016 e encontrou um aumento consistente do perfeccionismo ao longo das décadas. O crescimento mais acentuado foi no chamado perfeccionismo socialmente prescrito: a percepção de que os outros exigem de nós um padrão impossível. É exatamente o tipo de pressão que as redes sociais amplificam.
Quando esse perfeccionismo encontra a alimentação, o resultado pode evoluir para algo mais sério. A preocupação obsessiva em comer apenas o que é "puro" e "limpo" tem nome na literatura: ortorexia. Diferente de outras questões alimentares, ela se disfarça de virtude, porque começa como um cuidado legítimo com a saúde.
Um estudo publicado na revista Eating and Weight Disorders por Pixie Turner e Carmen Lefevre, do University College London, avaliou 680 usuários de redes sociais que seguiam perfis de alimentação saudável. Entre eles, 49% apresentavam sintomas de ortorexia, contra menos de 1% na população geral. E quanto maior o uso do Instagram, maior a tendência aos sintomas. Nenhuma outra rede social mostrou o mesmo efeito.
A conta fecha de um jeito cruel: quem mais consome conteúdo sobre vida saudável é justamente quem mais adoece tentando alcançá-la. A busca sem fim por um padrão inalcançável, como diz Alana no episódio, traz um sentimento de insuficiência constante. Sempre haverá alguém mais disciplinado, mais magro, mais produtivo no feed.
E há o extremo oposto, que também não resolve. Diante do cansaço com as regras, surgiu uma onda "anti-wellness" que abandona qualquer cuidado. Trocar a rigidez pelo desleixo não é liberdade, é só outro extremo. O que a psicologia propõe fica no meio do caminho.
Se a relação com comida, exercício ou produtividade virou fonte de sofrimento, isso tem tratamento. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental.
Agendar minha primeira sessão →Equilíbrio não é padrão, é autoconhecimento
A pergunta central do episódio é simples de fazer e difícil de responder:
O que é bem-estar para você? Não o que está na moda, nem o que os outros dizem que é bom. O que faz você, na sua vida real, se sentir bem?
Alana ilustra com dois cenários. Uma pessoa acorda cedo para treinar porque isso melhora o humor dela de verdade. Outra tem ritmo noturno, e para ela uma noite com amigos ou dedicada a um hobby revigora mais do que correr de madrugada. Qual das duas escolhas é mais saudável? As duas podem ser. Comer um doce com a família no domingo pode ser a escolha mais saudável daquele fim de semana.
Isso não anula os princípios básicos: dormir bem, comer bem, se mover, tomar água. O que muda é a intensidade e o formato, que precisam caber na vida de cada um. E essa capacidade de ajustar o comportamento ao contexto, em vez de seguir regras fixas, não é um consolo para indisciplinados. É um dos melhores marcadores de saúde mental que a ciência conhece.
Em revisão publicada na Clinical Psychology Review, os pesquisadores Todd Kashdan e Jonathan Rottenberg reuniram evidências de que a flexibilidade psicológica, a capacidade de adaptar respostas às demandas de cada situação em vez de reagir sempre do mesmo jeito, é um aspecto fundamental da saúde. A rigidez, por outro lado, aparece associada a ansiedade, depressão e pior funcionamento geral.
Em outras palavras: a pessoa que consegue pular o treino sem culpa quando o corpo pede descanso está exercitando algo mais importante para a saúde mental do que o treino em si.
Cinco passos para construir o seu próprio equilíbrio
No episódio, Alana organiza a saída da armadilha em cinco movimentos práticos.
1. Redefina o seu conceito de bem-estar
Bem-estar não precisa ser um conjunto de regras. Pergunte a si mesma: o que realmente me faz bem? Um momento de lazer, uma atividade física específica, tempo com pessoas queridas? Redefinir o conceito liberta das cobranças externas, mantendo os princípios básicos de saúde como base, não como prisão.
2. Pratique o autoconhecimento
Reserve tempo para se observar. Anote como você se sente depois de diferentes atividades, teste coisas novas. Aos poucos fica visível o que de fato energiza e o que você faz só por pressão externa. Esse trabalho de se conhecer é o mesmo que sustenta a maturidade emocional; se quiser ir mais fundo nele, veja também o nosso artigo sobre as 8 características do adulto emocionalmente saudável, que nasceu de outro episódio do podcast.
3. Adapte as práticas ao seu estilo de vida
Nem sempre dá para seguir o que as redes mostram. Alana usa o próprio exemplo: com filhos pequenos que acordam à noite, dormir oito horas seguidas não é uma opção. A resposta não é desistir do sono, é focar na melhor qualidade de sono possível dentro da realidade dela. Odeia musculação? Encontre uma atividade física que dê prazer. A versão adaptada que você sustenta vale mais do que a versão perfeita que você abandona.
4. Permita-se flexibilidade e pequenos prazeres
Um jantar especial, uma noite com amigos, um doce no fim de semana: isso também é autocuidado, tanto quanto a rotina estruturada. A vida é feita desses momentos. A meta é construir algo sustentável, que continue de pé daqui a um ano, e não um cronograma impecável que desmorona na primeira semana difícil.
5. Pratique a autoaceitação
Reconhecer que ninguém é perfeito e que cada um está na própria jornada não é frouxidão, é uma habilidade com efeito protetor documentado.
A psicóloga Kristin Neff, da Universidade do Texas, definiu a autocompaixão em três componentes: gentileza consigo nos momentos de falha, em vez de autocrítica dura; perceber as próprias dificuldades como parte da experiência humana comum, e não como defeito isolado; e observar pensamentos dolorosos com equilíbrio, sem se fundir a eles. Desde o artigo original, publicado na revista Self and Identity, décadas de estudos associam a autocompaixão a menos depressão, menos ansiedade e mais bem-estar.
Se você quer transformar esses passos em prática diária, eles conversam diretamente com os 7 hábitos de inteligência emocional que se treinam, tema de outro episódio que já virou artigo aqui no blog.
Quando a culpa não vai embora sozinha
Tem um detalhe honesto no episódio que merece destaque: nem sempre cuidar de si é leve. Fazer exercício cansa, mudar hábito custa. A questão não é fazer só o que é confortável, é distinguir o desconforto que constrói do sofrimento que só corrói.
Se a culpa aparece todos os dias, se a comparação com a vida dos outros virou rotina, se a relação com comida ou exercício ganhou contornos de obsessão, isso já não se resolve com uma lista de dicas. Artigos e podcasts informam, mas não conseguem olhar para a sua história e entender de onde vem a régua impossível com que você se mede.
É esse trabalho que a terapia faz: identificar as crenças que sustentam a autocobrança e construir, com você, um padrão de cuidado que caiba na sua vida real.
Mais de 150 mil atendimentos realizados. Nossa tecnologia analisa seu perfil e indica as psicólogas mais compatíveis com o que você busca. Sessões 100% online, de onde você estiver.
Quero encontrar minha psicóloga →Assista ao episódio completo
Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.
Continue lendo
- Como se tornar um adulto emocionalmente saudável: as 8 características
- Inteligência emocional não é dom: 7 hábitos que se treinam
- Cansaço mental: causas e soluções eficazes
Referências
- GLOBAL WELLNESS INSTITUTE. The Global Wellness Economy: Looking Beyond COVID. 2021. globalwellnessinstitute.org
- CURRAN, T.; HILL, A. P. Perfectionism is increasing over time: a meta-analysis of birth cohort differences from 1989 to 2016. Psychological Bulletin, v. 145, n. 4, p. 410-429, 2019. apa.org (PDF)
- TURNER, P. G.; LEFEVRE, C. E. Instagram use is linked to increased symptoms of orthorexia nervosa. Eating and Weight Disorders, v. 22, p. 277-284, 2017. link.springer.com
- KASHDAN, T. B.; ROTTENBERG, J. Psychological flexibility as a fundamental aspect of health. Clinical Psychology Review, v. 30, n. 7, p. 865-878, 2010. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- NEFF, K. D. Self-compassion: an alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, v. 2, n. 2, p. 85-101, 2003. tandfonline.com
Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).


