Conversas difíceis: os 8 pilares para falar do que dói sem piorar a relação
Todo mundo tem um assunto que vem empurrando com a barriga. A psicóloga Alana Anijar explica por que a gente foge dessas conversas, o que elas custam quando não acontecem e como ter cada uma delas de um jeito que aproxima em vez de afastar.
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Você sabe qual é a conversa. Aquela que está esperando há meses, às vezes há anos. Com a mãe, sobre algo da infância. Com o marido, sobre a divisão das tarefas. Com uma irmã, sobre uma mágoa que ninguém nunca nomeou. Todo mundo na sala vê o elefante, e ninguém fala dele.
Conversas difíceis não ficam mais fáceis com o tempo. Ficam maiores. O que não é dito vira ressentimento, mal-entendido e distância, e a relação que você queria proteger com o silêncio acaba se perdendo por causa dele.
No episódio "A arte de ter conversas difíceis", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar conta duas conversas que ela mesma adiou: uma com o pai, que só aconteceu quando ela tinha 14 anos, e outra, recente, com uma pessoa da família, depois de anos de mágoas dos dois lados. A partir delas e do livro How to Have That Difficult Conversation, dos psicólogos Henry Cloud e John Townsend, ela apresenta oito pilares para conversar sobre o que dói sem transformar a conversa em mais uma ferida.
Se o seu caso é a briga que se repete com o parceiro, sempre pelo mesmo motivo, já falamos disso em Por que as brigas do casal não resolvem nada. Aqui o foco é anterior à briga: a conversa que você ainda nem teve coragem de começar, em qualquer relação.
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Alana começa por ela mesma. Diz que gosta de ser uma pessoa resolutiva, de não ter problema com ninguém, e que mesmo assim detesta conversas difíceis. É do perfil dela evitar conflito e querer estar bem com todo mundo. Por boa parte da vida, isso significou deixar de ter as conversas que precisava ter.
Ela reconhece que essa evitação quase sempre nasce de experiências ruins em relações passadas. E aponta os medos que costumam estar por trás dela:
- Medo de perder a relação. "Se eu puxar esse assunto, a pessoa pode se afastar, romper, terminar."
- Medo da raiva do outro. A gente não quer lidar com a irritação ou com a culpa que a conversa pode despertar.
- Medo de ferir e de ser ferido. A preocupação com os próprios sentimentos e com os do outro paralisa.
- Medo de deixar de ser visto como uma boa pessoa. A gente quer continuar sendo a amiga legal, a boa esposa, o bom filho, e teme romper essa imagem.
O problema, lembra Alana, é que fugir não protege nada disso. Sem a conversa, você pode magoar do mesmo jeito, e pode perder a relação do mesmo jeito. Só que devagar, e sem ter tentado.
Existe ainda uma segunda armadilha: a de quem não foge, mas também não sabe conversar. Vai com boa intenção, fala de um jeito atravessado, o outro fica na defensiva, a paciência acaba, sai uma frase que não deveria, e o problema que já existia fica pior. Por isso Alana avisa logo no início: o episódio não é um convite para chamar todo mundo para conversar amanhã. Conversa difícil é uma habilidade, e habilidade se treina.
O preço de deixar para depois
Educação dos filhos, divisão das responsabilidades da casa, mágoas do passado, temas da infância com os pais. Alana lista assuntos que, quando ficam guardados, geram conflitos ainda maiores. E quando são enfrentados, criam a chance de resolver o problema, fortalecer o vínculo e construir confiança.
Ela cita uma ideia central do livro de Cloud e Townsend: ignorar essas conversas não apenas agrava os problemas, também impede que a relação cresça e se aprofunde. A relação fica parada no ponto em que o assunto foi engavetado.
Alana também fala de quem está há muito tempo num relacionamento ruim e já desistiu: "a pessoa nunca vai mudar, cansei de tentar". É verdade que ninguém força ninguém a mudar. Mas ela observa que, quando alguém aprende a confrontar de forma amorosa, direta e eficaz, muitas vezes se surpreende com a mudança do outro. Na conversa recente que teve, ela percebeu que também precisava mudar algumas posturas. E, com a mudança dela, a outra pessoa também mudou.
A gente muda quando a dor de permanecer o mesmo é maior do que a dor de mudar.
A frase acima, que circula nos grupos de recuperação e que Alana traz para o episódio, resume bem o ponto: evitar a conversa também tem dor. Só que é uma dor que não leva a lugar nenhum.
O que é um confronto saudável
A palavra "confronto" assusta. Mas, na definição que Alana usa, a função de um confronto saudável é esclarecer a realidade. O medo distorce a nossa visão da outra pessoa: ela vira alguém mais perigoso, mais difícil, mais fechado do que de fato é. Conversar devolve uma imagem mais clara, e quase sempre mostra que o problema não era só do outro.
E existe um detalhe que pesa muito: o jeito como a conversa começa.
Sybil Carrère e John Gottman, da Universidade de Washington, acompanharam 124 casais recém-casados por seis anos e publicaram os resultados em 1999 na revista Family Process. Os casais foram filmados discutindo um tema de conflito do casamento. Os primeiros três minutos dessa discussão já diferenciavam quem se separou de quem continuou junto: os casais que se divorciaram começavam a conversa com mais emoções negativas e menos positivas.
O começo não decide tudo, mas define o clima em que o resto da conversa vai acontecer.
É por isso que os oito pilares a seguir tratam tanto de preparação e de postura. Boa parte de uma conversa difícil se resolve antes da primeira frase.
Os 8 pilares de uma conversa difícil
1. Esteja emocionalmente presente
Não basta estar fisicamente na conversa. É preciso estar disponível, em sintonia com o que você pensa e sente e com o que o outro pensa e sente. Isso cria um espaço seguro. Alana faz uma distinção que ajuda muito: uma conversa difícil não precisa ser dolorosa. Ela é difícil porque mexe no que a gente não gosta de mexer, mas pode ser feita com cuidado.
Estar presente exige vulnerabilidade. Se você chega armado, na defensiva, não há conversa. Na conversa recente que teve, Alana abriu assim: "Eu quero muito que a gente se dê bem. Esse relacionamento é importante para mim, senão eu nem estaria aqui. Eu sei como é difícil falar dessas coisas, para mim e para você." Quando alguém se expõe desse jeito, a tendência é que o outro também baixe a guarda.
2. Deixe claro quando está falando de você e quando está falando do outro
Ninguém gosta de ouvir alguém pondo palavras na sua boca, dizendo como deveria ter se sentido ou o que deveria ter feito. Em vez disso, fale de você, em primeira pessoa: "eu percebo", "eu sinto". E evite os absolutos que todo mundo conhece: "você sempre faz isso", "você nunca me escuta", "você é grosso". Eles levantam muralhas de defesa, porque ninguém gosta de ser atacado.
Você vai precisar falar de comportamentos do outro que te afetam, claro. A diferença está em falar do comportamento e do efeito que ele tem em você, e não colar um rótulo na pessoa.
Os pesquisadores australianos Simon Rogers, Jill Howieson e Casey Neame testaram em 2018, num estudo publicado na revista PeerJ, como diferentes frases de abertura de uma discussão eram percebidas. Frases em primeira pessoa ("eu") foram vistas como menos hostis do que frases centradas no outro ("você"). E as frases mais bem avaliadas combinavam as duas coisas que Alana pede: reconheciam o ponto de vista do outro e, em seguida, diziam o próprio, em primeira pessoa. Algo como "eu entendo que você sente isso, mas eu sinto aquilo".
3. Tenha clareza sobre qual é o problema
Muita gente entra na conversa sem saber exatamente o que quer resolver. E aí acontece o clássico: misturar tudo. "Quando você era pequeno você fez isso, e aquilo, e você nunca faz aquilo outro." Alana dá o exemplo da esposa que despeja de uma vez: você não ajuda com as crianças, não lava a louça, não leva o lixo, a gente não tem mais tempo a sós, eu não me sinto amada. O marido não sabe nem por onde começar. Vai se defender, e ninguém chega a lugar nenhum.
Antes de conversar, defina o centro. Qual é o problema? E qual é o objetivo? Na conversa dela, Alana pensou muito nisso e concluiu: o objetivo não era provar quem estava certo. Era restaurar a relação, poder estar no mesmo ambiente sem o clima estranho e sem as alfinetadas. Então ela foi direto ao ponto: pediu perdão pelo que sabia que tinha magoado, perguntou se havia mais alguma coisa, ouviu, e depois falou do lado dela.
O objetivo de uma conversa difícil não é descobrir quem estava certo dez anos atrás. É saber o que vocês querem daqui para frente.
4. Diga a verdade com gentileza
Falar o que você pensa e sente é essencial. Dizer isso de forma gentil é igualmente importante. Alana chama esse equilíbrio de assertividade: não é adoçar a verdade nem falar pela metade, é entregar uma mensagem difícil levando em conta o impacto que ela terá em quem ouve. Afinal, numa conversa difícil, o que você quer é ser ouvido.
Ela traz um exemplo bem atual. Alguém consome conteúdo sobre negligência emocional na infância, se reconhece, fica com raiva e vai "vomitar" tudo nos pais, que nunca ouviram falar no assunto: "você não supriu minhas necessidades emocionais, a culpa dos meus problemas é sua". Alana lembra que pais e filhos costumam ter lembranças diferentes dos mesmos eventos. O que marcou a criança pode nem ter ficado registrado para o adulto, ou foi vivido de outra forma. E muitos pais, não todos, fizeram o melhor que podiam com o que tinham.
Isso não invalida a sua dor. Muda a forma de falar dela. Boas conversas constroem pontes, não muros.
Saber o que você sente é o primeiro passo para conseguir dizer. Na terapia, você organiza o que quer falar, entende de onde vêm as suas reações e treina jeitos de se colocar sem atacar e sem se calar. Atendimento 100% online.
Quero começar minha terapia →5. Use a fórmula "quando você faz X, eu sinto Y"
É uma das ferramentas mais eficazes para um confronto saudável, e Alana a recomenda com exemplos concretos:
- "Quando você chega atrasado nos nossos compromissos, eu sinto que você não valoriza tanto o tempo comigo."
- "Quando você não me comunica as suas decisões, eu me sinto excluída. Eu gostaria que a gente decidisse junto."
A fórmula evita culpar o outro diretamente e mostra como a ação dele te afeta. Isso deixa a conversa menos ofensiva e abre espaço para que a outra pessoa reflita sobre o próprio comportamento, em vez de gastar energia se defendendo.
6. Afirme e valide os sentimentos do outro
Alana é direta aqui: eu sei que você quer ser validado, e sei que você acha que é a pessoa mais ferida dessa história. Mas o outro também tem emoções. Se ele diz "eu não fiz por mal", você pode responder: "Eu entendo, acredito que não foi a sua intenção. Mas do meu lado foi difícil."
Validar não é concordar com tudo. É reconhecer que o que o outro sente importa. Outro exemplo dela: "Eu entendo que você está se sentindo sobrecarregado com tudo isso. Eu também estou cansada. Vamos pensar juntos em como deixar isso mais leve para nós dois?" Mesmo que você ache que ele não tem motivo para estar sobrecarregado, ele está dizendo que está, e não há ganho em invalidar.
Chad Shenk e Alan Fruzzetti publicaram em 2011, no Journal of Social and Clinical Psychology, um experimento em que participantes faziam uma tarefa estressante e recebiam respostas validantes ou invalidantes. Quem foi invalidado teve aumento maior de emoções negativas, de frequência cardíaca e de condutância da pele ao longo do tempo. A validação funcionou como um regulador emocional: acalmou o corpo e as emoções de quem a recebeu.
Numa conversa difícil, isso vale para os dois lados. Validar o outro baixa a temperatura de quem você precisa que te escute.
7. Peça desculpas pela sua parte no problema
Conversas difíceis exigem humildade. Quem se acha sempre dono da razão não consegue ter boas conversas. Se você tem alguma parte na situação, e normalmente tem, comece assumindo e pedindo desculpas por ela. Isso abre espaço para uma troca mais sincera e mostra maturidade emocional.
Alana responde às objeções mais comuns. "Mas eu não fiz nada de errado." Talvez não tenha sido a sua intenção, mas você magoou, e não há problema em pedir desculpas pelo efeito, mesmo sem ter tido a intenção. "Mas a outra pessoa nunca pede desculpa." Esperar que ela peça primeiro também não ajuda a conversa a acontecer.
Pesquisadores liderados por Roy Lewicki, da Universidade Estadual de Ohio, com Beth Polin e Robert Lount Jr., testaram com 755 participantes, em dois estudos publicados em 2016 na revista Negotiation and Conflict Management Research, seis componentes de um pedido de desculpas. O mais importante deles foi o reconhecimento da responsabilidade, seguido da oferta de reparação. O menos importante foi pedir perdão. E desculpas com mais componentes foram consideradas mais eficazes.
Traduzindo para a sua conversa: "desculpa se você se sentiu assim" ajuda pouco. "Eu errei quando fiz isso, e quero fazer diferente" ajuda muito mais.
8. Seja um agente de mudança
O último pilar fecha a conversa olhando para frente. Ao final, ofereça soluções e ações concretas. O objetivo não é só identificar o problema, é encontrar formas de resolver juntos. Pergunte ao outro o que ele acredita que pode ser feito, e como ele gostaria que você agisse daqui em diante. Mostre que você está disposto a mudar a sua parte.
Alana faz uma observação que vale guardar: se você está lendo isto, é provável que seja a pessoa mais madura dessa relação naquele assunto. Isso significa que boa parte do resultado depende de você. E também significa que talvez a conversa não seja tão boa quanto você gostaria, e tudo bem.
E se a outra pessoa não quiser conversar?
É a objeção que Alana mais ouve: "mas essa pessoa não sabe conversar, não quer conversar, é difícil". Ela não promete que todo mundo vai estar aberto. Muitas vezes o outro vai ficar na defensiva, e você precisa ir preparado para isso. Ela mesma conta que, antes da conversa que deu certo, já tinha tentado outras vezes e saído pior, ou se ofendido no meio e ido embora.
O que está no seu alcance é a sua postura: não se fechar, mesmo com a pessoa fechada; não atacar, mesmo sendo atacado; manter-se firme no objetivo. Se a conversa não anda, Alana sugere encerrar deixando a porta aberta:
"Estou vendo que a gente não vai conseguir chegar a lugar nenhum agora. Estou tentando ter uma conversa respeitosa e verdadeira, mas acho que ainda não estamos preparados para isso. Quero te dizer que estou disponível quando você quiser conversar, para a gente resolver isso juntos."
Pronto. Você fez a sua parte, e a decisão de conversar passa a ser do outro. Não se culpe pelo que não estava no seu controle. E lembre que, às vezes, a conversa não resolve tudo de uma vez, mas avança um pouco. Talvez seja a primeira de várias.
Se o que trava você é justamente o medo de que o outro se irrite, vale ler também Limites nos relacionamentos não afastam, eles é que tornam a conexão possível.
Conversas de manutenção: para não acumular
Conversa difícil não é para ter todo dia, seria exaustivo. Mas Alana defende que, em relações de convivência diária, como o casamento, elas aconteçam com certa frequência. Ela chama isso de conversas de manutenção.
A lógica é simples: quando essas conversas demoram muito para acontecer, acumula tanta coisa que cada uma vira uma montanha. Quando acontecem com regularidade, ficam menores, mais naturais e mais fáceis. Quanto mais você pratica, menos difícil a conversa difícil fica.
E, depois de uma conversa assim, alguma coisa sempre muda. Talvez você descubra que estava errada em algum ponto e mude o seu comportamento. Talvez o outro mude. Talvez a relação mude. O importante, para Alana, é que a mudança e o crescimento comecem a partir dali.
Para entender o que cada um traz para dentro da relação, e por que isso pesa tanto nessas conversas, leia Relacionamento saudável começa em você.
Onde a terapia entra
Muitas das conversas que a gente evita têm raízes antigas: um jeito de lidar com conflito aprendido na infância, o medo de desagradar, a sensação de que se impor vai custar o afeto do outro. Foi o que Alana reconheceu em si mesma. Ela só conseguiu ter as conversas que precisava quando passou a enfrentar esses medos.
A terapia é um lugar seguro para fazer esse trabalho antes da conversa real. Ali você entende o que te paralisa, organiza o que quer dizer, ensaia como dizer e aprende a lidar com a reação do outro sem desmoronar e sem atacar. E, quando a conversa não sai como você esperava, também ajuda a atravessar a frustração sem desistir da relação, ou a decidir com clareza que é hora de se proteger.
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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.
Continue lendo
- Por que as brigas do casal não resolvem nada (e o que fazer com as diferenças)
- Relacionamento saudável começa em você
- Limites nos relacionamentos não afastam, eles é que tornam a conexão possível
Referências
- Cloud, H., & Townsend, J. (2015). How to Have That Difficult Conversation: Gaining the Skills for Honest and Meaningful Communication. Zondervan. harpercollinschristian.com
- Carrère, S., & Gottman, J. M. (1999). Predicting divorce among newlyweds from the first three minutes of a marital conflict discussion. Family Process, 38(3), 293-301. doi.org/10.1111/j.1545-5300.1999.00293.x
- Rogers, S. L., Howieson, J., & Neame, C. (2018). I understand you feel that way, but I feel this way: the benefits of I-language and communicating perspective during conflict. PeerJ, 6, e4831. doi.org/10.7717/peerj.4831
- Shenk, C. E., & Fruzzetti, A. E. (2011). The impact of validating and invalidating responses on emotional reactivity. Journal of Social and Clinical Psychology, 30(2), 163-183. pure.psu.edu
- Lewicki, R. J., Polin, B., & Lount, R. B., Jr. (2016). An exploration of the structure of effective apologies. Negotiation and Conflict Management Research, 9(2), 177-196. doi.org/10.1111/ncmr.12073
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