Psicologia na Prática · Relacionamentos

Quem ama trai? O que a psicologia diz sobre amor, acordos e fidelidade

O amor impede a traição ou ela é uma questão de escolhas e circunstâncias? A psicóloga Alana Anijar olha para os dois lados da pergunta e mostra por que a resposta passa menos pelo sentimento e mais pelos acordos que o casal faz e cumpre.

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Alana Anijar 14 de outubro de 2026 15 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática segurando um coração e um pergaminho de acordo, ao lado de uma balança equilibrada e de uma placa de caminhos

Quem ama trai? Faça essa pergunta numa roda de amigos e a conversa esquenta em segundos. Uma parte jura que não: se traiu, é porque não amava. A outra parte diz que sim: amor é sentimento, fidelidade é comportamento, e as duas coisas nem sempre andam juntas.

A resposta mais útil não está em escolher um dos lados. Está em entender que o amor, sozinho, não garante nada. O que protege uma relação são os acordos que o casal combina, e a disposição de cada um para cumpri-los quando ficar difícil.

No episódio "Quem ama, trai?", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar parte de uma enquete que fez no Instagram, e que dividiu os seguidores ao meio, para examinar as duas visões. Ela passa por filósofos, por conceitos da psicologia e por situações do dia a dia, e termina com perguntas diretas para quem trai, para quem vive sendo traída e para quem ainda nem conversou com o parceiro sobre o que conta como traição.

Se o que você procura é entender a dor de quem descobriu uma traição e os motivos que a pesquisa encontrou por trás dela, já falamos disso em Traição: por que dói tanto e o que leva alguém a trair. Aqui o foco é outro: a relação entre amar e ser fiel.

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Antes da resposta: o que é amar?

Para saber se o amor impede a traição, a gente precisa primeiro combinar o que está chamando de amor. E aí já aparece a primeira dificuldade. Amor envolve afeto, cuidado, respeito e uma conexão profunda com o outro, mas o sentido da palavra muda de cultura para cultura e de pessoa para pessoa.

Alana dá um exemplo simples: tem gente que conheceu alguém há duas semanas e já diz que ama. Tem gente que jamais usaria essa palavra sem anos de convivência. As duas estão falando de amor, e não estão falando da mesma coisa. É nessa variação que a discussão sobre traição fica complicada.

O que diz a pesquisa

O psicólogo Robert Sternberg, da Universidade Yale, propôs em 1986, na revista Psychological Review, a teoria triangular do amor. Para ele, o amor tem três componentes: intimidade (proximidade e vínculo), paixão (atração e desejo) e decisão/compromisso, que inclui tanto a escolha de amar alguém quanto o esforço de manter esse amor ao longo do tempo.

A quantidade de amor depende da força dos três. O tipo de amor depende do equilíbrio entre eles.

A teoria ajuda a desfazer um nó. Quando alguém diz "eu amo, mas traí", quase sempre está falando de intimidade ou de paixão. O componente que faltou foi o terceiro, o compromisso, que não é sentimento: é decisão. Uma pessoa pode sentir muito e decidir pouco.

Sentir amor e sustentar um compromisso são coisas diferentes. A traição costuma morar no espaço entre as duas.

O que dizem os filósofos e a psicologia

Alana passa por quatro olhares que ajudam a ampliar a pergunta. Nenhum deles fecha a questão sozinho, e é justamente por isso que vale ouvir todos.

Kant: fidelidade como princípio

Na leitura que Alana faz de Immanuel Kant, a moralidade e o respeito aos acordos são parte do amor verdadeiro. Uma relação amorosa precisa se apoiar em princípios, e trair quem a gente ama seria uma violação desses princípios. Nessa visão, amor implica compromisso.

Nietzsche: as forças que nos movem

Em contraste, Alana lembra de Friedrich Nietzsche, para quem nossas ações são moldadas por uma mistura de forças internas e externas, e não apenas pela moral. A complexidade das emoções humanas iria além de regras rígidas. Daqui vem a pergunta que atravessa o episódio: quanto o ambiente e as circunstâncias pesam nas nossas decisões?

Alain de Botton: amor como renegociação

Um pensador contemporâneo que Alana gosta muito é o filósofo suíço-britânico Alain de Botton, autor de O curso do amor. Ele vê o amor menos como paixão e mais como compromisso e compreensão mútua, algo que exige renegociar expectativas o tempo todo e se abrir para a vulnerabilidade. Na visão dele, a tentação de trair faz parte da natureza humana, e entender isso ajuda o casal a conversar sobre o tema em vez de fingir que ele não existe.

Skinner e Brené Brown: reforço e vulnerabilidade

Do lado da psicologia, Alana traz dois nomes. O primeiro é B. F. Skinner, referência do behaviorismo, que mostrou como nossos comportamentos são moldados por recompensas e punições. Aplicado aqui: numa relação em que alguém se sente negligenciado o tempo todo, a traição pode aparecer como busca de uma recompensa emocional que está faltando. Não é regra, e não é desculpa. É uma possível explicação.

O segundo é a pesquisadora americana Brené Brown, que popularizou a ideia de que a vulnerabilidade, vista muitas vezes como fraqueza, é a chave das conexões profundas. Quando as duas pessoas se sentem seguras para mostrar o que sentem e o que precisam dentro da relação, diminui a chance de alguém sair procurando isso fora.

Primeira visão: quem ama pode trair

Para uma parte das pessoas, a traição pode acontecer mesmo quando quem trai tem afeto real pelo parceiro. Nessa visão, trair não seria prova de ausência de amor, e sim uma questão de caráter, de escolhas e de circunstâncias. Alana organiza os fatores em dois grupos.

Caráter e escolhas

Aqui entram os valores e as prioridades de cada um. Algumas pessoas enxergam a fidelidade como uma escolha diária. Outras tratam a fidelidade como uma questão de circunstância: são fiéis até o dia em que aparece uma situação em que não conseguem ser. E, mesmo amando, podem fazer a outra escolha.

Contexto e situações de risco

Algumas situações criam oportunidade para a traição, principalmente quando a relação já vive falta de conexão, de comunicação ou de entendimento. Alana cita alguns cenários comuns:

  • Distância emocional prolongada. O casal se afasta, ninguém fala sobre isso, e um dos dois acaba buscando conforto em outro lugar.
  • Momentos de fraqueza. Luto, crise pessoal, pressão financeira. Emoções muito intensas levam a decisões impulsivas, e alguém que estava por perto vira válvula de escape.
  • Pouca sabedoria na escolha das amizades. Ficar muito próximo de alguém, passar com essa pessoa mais tempo e mais intimidade do que com o próprio parceiro, e deixar a relação escorregar.

É a velha disputa entre "a ocasião faz o ladrão" e "quem é honesto não rouba, mesmo com a ocasião". A pesquisa sugere que as duas frases têm um pedaço de verdade.

O que diz a pesquisa

Pesquisadores da Universidade Radboud, na Holanda, liderados por Tila Pronk, publicaram em 2011 no Journal of Personality and Social Psychology três estudos sobre controle executivo, a capacidade de frear impulsos em nome de um objetivo de longo prazo. Pessoas comprometidas com mais controle executivo relataram ter menos dificuldade de se manter fiéis. Num dos estudos, homens comprometidos que esperavam numa sala com uma mulher atraente (uma colaboradora da pesquisa) flertaram menos quando tinham mais controle executivo.

A tentação aparece para quase todo mundo. O que muda de uma pessoa para outra é a capacidade de não agir sobre ela, e essa capacidade cai justamente em momentos de cansaço, estresse e emoção intensa.

Isso explica por que os "momentos de fraqueza" que Alana descreve são tão perigosos. Não é que o amor desaparece no luto ou na crise. É que o freio fica mais fraco, e a oportunidade, se existe, passa a pesar mais.

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Segunda visão: amar é cumprir os acordos

Do outro lado estão os que acreditam que o amor verdadeiro implica cumprir os acordos. Para essas pessoas, amar alguém significa respeitar os compromissos feitos e evitar causar dor ao outro. O amor é visto como um compromisso que inclui fidelidade e honestidade.

Quando duas pessoas entram numa relação, elas estabelecem um conjunto de expectativas. Romper esses acordos é trair o parceiro e também trair o próprio conceito de relacionamento que aquele casal construiu junto.

O que diz a pesquisa

O modelo de investimento, da psicóloga Caryl Rusbult, explica a permanência numa relação pelo compromisso, que nasce da satisfação, do quanto a pessoa já investiu e das alternativas que enxerga. Stephen Drigotas, Annette Safstrom e Tiffany Gentilia aplicaram esse modelo à infidelidade em casais de namorados, em artigo publicado em 1999 no Journal of Personality and Social Psychology. O compromisso apareceu como um dos fatores mais ligados à fidelidade: quanto mais comprometida com a relação, menor a tendência de a pessoa se envolver com outra.

Repare que o modelo fala de compromisso, não de paixão. É a mesma conclusão a que a teoria de Sternberg leva: a parte do amor que protege a relação é a que se decide e se sustenta, não a que se sente.

O que conta como traição? Depende do acordo de vocês

Alana conta que conversou com o marido sobre isso por causa de um caso que ganhou o Brasil num reality show. Um participante entrou no programa casado e criou uma troca com outra participante. Quem assistia via com clareza um interesse, um envolvimento emocional, mas não houve nenhuma iniciativa física. Do lado de fora, a esposa dele declarou publicamente que aquilo já era traição para ela, e que ele sabia disso, porque os dois já tinham conversado sobre o assunto.

O ponto que Alana tira do caso é forte: traição, no seu significado, é quebra de confiança. Não se resume a ir para a cama ou dar um beijo em outra pessoa. É romper um acordo que o casal estipulou. Por isso algumas pessoas consideram traição até uma mentira, ou um envolvimento que nunca saiu da conversa.

O que diz a pesquisa

As psicólogas Ashley Thompson e Lucia O'Sullivan criaram um questionário para medir o que as pessoas consideram infidelidade, publicado no Journal of Sex Research. Os comportamentos se agruparam em quatro tipos: sexuais e explícitos, envolvendo tecnologia e internet, emocionais e afetivos, e solitários. Os sexuais foram vistos como traição com mais clareza. Os outros três dividiram opiniões, e homens tenderam a julgar os comportamentos de forma mais permissiva do que mulheres.

Traduzindo: duas pessoas podem estar na mesma relação com definições diferentes de traição, sem nunca terem descoberto isso. É por esse motivo que Alana insiste na conversa. Se você está numa relação, ou mesmo se ainda não está, vale responder com calma:

  • Quais acordos precisam funcionar na minha relação?
  • O que, para mim, é traição?
  • O que seria motivo de término, sem volta?
  • O que seria aceitável, algo que a gente conseguiria conversar e atravessar?

Ninguém cumpre um acordo que nunca foi feito. Antes de cobrar fidelidade, combine o que ela significa para vocês dois.

Para conversar sobre isso sem transformar o assunto em briga, vale ler Limites nos relacionamentos não afastam, eles é que tornam a conexão possível.

Não dá para ter tudo: todo compromisso pede renúncias

Quando os acordos estão claros e alguém começa a sentir inclinação por outra pessoa, Alana propõe uma pausa. Reflita sobre seus valores, seus objetivos e o tipo de pessoa que você quer se tornar. Que marca você quer deixar em quem você ama, continue ou não com ela? Se existe amor de fato, o que você quer fazer com esse amor?

Ela lembra uma frase que repete muito: na vida, a gente não tem como ter tudo. Querer estar comprometido e, ao mesmo tempo, viver como solteiro é tentar ficar com os benefícios de dois lugares diferentes. Ser solteiro tem vantagens. Namorar tem vantagens. Ser casado tem vantagens. E cada um desses níveis de compromisso exige abrir mão de alguma coisa.

Se você não está disposto ou disposta a abrir mão do que aquele compromisso pede, a pergunta honesta não é como esconder isso. É se vale a pena continuar dentro desses acordos.

Se você ama e não consegue ser fiel

Alana fala diretamente com quem já se pegou, mais de uma vez, numa relação com alguém que gostava, sentindo que amava, e mesmo assim não conseguiu manter a fidelidade. Para essa pessoa, a pergunta "será que eu não amo?" costuma ser pequena demais. A investigação mais útil é outra: por que eu sinto que amo essa pessoa e não consigo manter os compromissos que fiz com ela?

As respostas podem passar por confusão de objetivos e valores, por dificuldade de controlar impulsos, por um jeito de buscar validação fora da relação. Entender isso é um processo de amadurecimento e autoconhecimento, e é ele que permite bancar as próprias decisões: terminar, ou abrir mão de um desejo momentâneo para estar inteiro na relação que escolheu.

Se você não consegue cumprir os acordos que fez, isso pode ser, como diz Alana, um motivo para buscar terapia. Não como castigo, mas como o lugar onde dá para olhar para esse padrão sem se esconder dele.

Se você vive sendo traída

A reflexão também vale para o outro lado. Se a traição já aconteceu mais de uma vez na sua vida, Alana propõe perguntas difíceis, que não são para colocar a culpa em você, e sim para devolver o poder de escolha:

  • Estou sabendo escolher bem as pessoas com quem me relaciono?
  • Estou me contentando com um amor que diz amar, mas não cumpre os acordos?
  • Isso é suficiente para mim? Está me fazendo bem?
  • Estou deixando claro quais acordos funcionam para mim?
  • Se combinei que algo seria quebra de confiança, estou disposta a ir até o fim e terminar caso o outro não me respeite?

A responsabilidade por uma traição é de quem trai. Mas o padrão de aceitar, perdoar sem reparação e voltar para o mesmo lugar é algo que só você pode mudar. Se a dor de uma descoberta recente ainda está muito viva, o texto Como superar uma traição pode ajudar nos primeiros passos.

Onde a terapia entra

A traição é um tema complexo e doloroso, e cada casal o entende de um jeito. Alana chama atenção para um ponto que aparece em muitos casos: a traição costuma acontecer em meio ao silêncio, quando sentimentos e necessidades não são ditos nem atendidos.

A terapia ajuda nas duas pontas. Para quem foi traído, ajuda a lidar com o trauma, com a decepção e com as feridas que ficaram, para que o episódio não vire uma regra sobre todas as relações futuras. Para quem traiu, ajuda a entender o padrão e a decidir com clareza. E, para o casal, pode abrir canais de comunicação e criar um espaço seguro para que as emoções sejam discutidas sem julgamento.

A mensagem final de Alana é para não desistir do amor, mesmo quando ele parece complicado demais. Com o apoio certo, dá para atravessar essas dificuldades, aprender com o que aconteceu e construir relações mais saudáveis daqui para frente.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. Sternberg, R. J. (1986). A triangular theory of love. Psychological Review, 93(2), 119-135. psycnet.apa.org
  2. Pronk, T. M., Karremans, J. C., & Wigboldus, D. H. J. (2011). How can you resist? Executive control helps romantically involved individuals to stay faithful. Journal of Personality and Social Psychology, 100(5), 827-837. psycnet.apa.org
  3. Drigotas, S. M., Safstrom, C. A., & Gentilia, T. (1999). An investment model prediction of dating infidelity. Journal of Personality and Social Psychology, 77(3), 509-524. psycnet.apa.org
  4. Thompson, A. E., & O'Sullivan, L. F. (2016). Drawing the line: The development of a comprehensive assessment of infidelity judgments. The Journal of Sex Research, 53(8), 910-926. doi.org/10.1080/00224499.2015.1062840
  5. Rusbult, C. E. (1983). A longitudinal test of the investment model: The development (and deterioration) of satisfaction and commitment in heterosexual involvements. Journal of Personality and Social Psychology, 45(1), 101-117.
  6. Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. Macmillan. Edição brasileira: Ciência e comportamento humano. Martins Fontes.
  7. Brown, B. (2012). Daring Greatly. Gotham. Edição brasileira: A coragem de ser imperfeito. Sextante.
  8. De Botton, A. (2017). O curso do amor. Intrínseca.

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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