A dor da traição não é exagero e a pesquisa ajuda a entender por quê
Descobrir uma traição está associado a mais episódios depressivos, mesmo quando se leva em conta o quanto a relação já ia mal. Entender o que acontece nas duas cabeças, a de quem trai e a de quem é traído, muda o que se faz a seguir.
Quem descobriu uma traição costuma ouvir alguma versão de "supera", "segue a vida", "não faz drama". E costuma se assustar com a própria reação: não consegue comer, revê a mesma conversa cem vezes por dia, procura provas em coisas antigas, acorda às três da manhã com o coração disparado.
Nada disso é fraqueza de caráter nem falta de amor-próprio. É o que o corpo faz diante de uma quebra de confiança grave, e a pesquisa tem nome para isso.
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Durante muito tempo a traição foi tratada como um problema moral ou como uma decepção amorosa mais forte. Os estudos das últimas décadas apontam para outra coisa.
Um estudo publicado na revista Family Process examinou 227 adultos casados ou morando juntos. Quem havia descoberto uma traição do parceiro nos doze meses anteriores apresentava mais episódios depressivos no período.
O achado que mais importa aqui é outro. Essa associação continuou de pé mesmo levando em conta o grau de satisfação com a relação e as características demográficas. Ou seja, ela não se explica apenas por "o casamento já ia mal". A descoberta carrega um peso próprio.
Existem ainda trabalhos que descrevem, depois da descoberta, sintomas do mesmo tipo dos observados em quadros pós-traumáticos: revivência, hipervigilância e evitação. São estudos pequenos e de grupos específicos, então não servem para dizer quantas pessoas passam por isso. Servem para mostrar que essa forma de reagir é conhecida e descrita na literatura, e não invenção de quem está sofrendo.
Repare no que isso reposiciona. A pessoa não está reagindo mal a um acontecimento ruim. Ela está tendo uma resposta previsível a uma ruptura de confiança em alguém de quem dependia emocionalmente.
A dor não é proporcional ao que aconteceu. Ela é proporcional ao quanto aquela pessoa era, até ali, o lugar seguro.
O que a mente faz depois da descoberta
Os relatos se repetem tanto que já formam um padrão reconhecível. Ele acompanha os três grupos de sintomas usados para descrever quadros pós-traumáticos.
Revivência
A cena volta sem ser chamada. A conversa, a mensagem, a foto, o momento em que a ficha caiu. A mente reproduz o episódio em detalhe, às vezes dezenas de vezes por dia, como se ainda houvesse algo ali para descobrir.
É comum a pessoa querer saber cada detalhe do que aconteceu, achando que a informação completa vai encerrar o assunto. Em geral acontece o contrário: cada detalhe novo vira material novo para a mente reproduzir.
Hipervigilância
O sistema de alarme fica ligado. A pessoa passa a monitorar horários, telas, mudanças de tom de voz, atrasos de resposta. Não por controle nem por escolha, mas porque o cérebro concluiu que sinais de perigo foram ignorados uma vez e não podem ser ignorados de novo.
Esse estado consome uma quantidade enorme de energia, e é uma das razões do cansaço extremo que aparece nas primeiras semanas.
Evitação
Lugares, músicas, aplicativos, pessoas em comum, datas. Tudo que remete ao episódio começa a ser desviado. A evitação alivia no curto prazo e, como acontece em outros quadros de ansiedade, ensina ao cérebro que aquilo era mesmo insuportável, o que mantém o alarme ligado por mais tempo.
Oito motivos por trás de uma traição
Aqui é onde a maior parte dos textos sobre o assunto se perde, listando motivos de intuição e apresentando números sem origem. Existe pesquisa séria sobre isso.
Selterman, Garcia e Tsapelas perguntaram a 495 pessoas que já tinham traído um parceiro por que fizeram aquilo. Da análise das respostas emergiram oito motivações distintas:
insatisfação com a relação, negligência percebida, raiva do parceiro, desejo sexual, falta de amor, baixo compromisso, busca de autoestima e vontade de variedade sexual.
O achado mais útil não é a lista, é a divisão. Motivos ligados ao vínculo, como raiva e falta de amor, apareceram associados a casos mais longos, mais expostos publicamente e com maior chance de terminar a relação principal. Motivos situacionais, como estar bêbado ou sob estresse, apareceram associados a casos curtos, menos satisfatórios e com menor chance de virem à tona.
Duas coisas seguem dessa divisão, e as duas costumam surpreender.
A primeira: nem toda traição diz a mesma coisa sobre a relação. Existe a que é sintoma de um vínculo que já tinha acabado por dentro, e existe a que é um episódio de baixa autorregulação numa relação que a pessoa dizia querer. São situações diferentes, com prognósticos diferentes.
A segunda: o motivo não fica visível de imediato, nem para quem traiu. A pergunta "por que você fez isso" costuma receber, nos primeiros dias, a resposta mais confortável disponível. O motivo real, quando existe um, leva tempo e trabalho para aparecer.
Três mitos que atrapalham
"Homem trai mais"
Os dados mais consistentes sobre o assunto vêm do General Social Survey, pesquisa que acompanha a população dos Estados Unidos desde 1972 e faz a pergunta de forma direta. Nele, cerca de 20% dos homens e 13% das mulheres já casados relatam ter tido relação sexual com alguém que não o cônjuge durante o casamento.
A diferença existe, mas é menor do que o senso comum sugere, e não é estável. Entre os mais jovens ela praticamente desaparece, e em algumas faixas se inverte. Os números também vêm mudando ao longo das décadas, com queda entre os homens.
Vale lembrar que a pergunta cobre apenas relação sexual dentro do casamento. Fica de fora tudo que hoje pesa tanto quanto: o envolvimento emocional, a relação paralela pela internet, o namoro que não virou casamento.
"Se superaram uma traição, ficam mais fortes"
Algumas relações de fato se reorganizam depois de uma crise grave, e o processo pode produzir mais honestidade do que existia antes. Mas isso não é automático nem é a regra, e a frase feita cria uma armadilha: transforma o perdão em prova de maturidade e deixa quem decide sair com a sensação de ter falhado num teste.
Continuar e terminar são desfechos igualmente legítimos. O que diferencia um processo saudável de um mal resolvido não é a decisão final, é se ela foi tomada com clareza ou por medo.
"Traição é só o que é físico"
A infidelidade emocional, o envolvimento que ocupa o lugar de intimidade da relação sem envolver contato físico, produz sofrimento comparável em muitos relatos. E numa relação, o que define o rompimento do acordo é o acordo daquela relação, não uma definição externa.
Na prática clínica, as situações que chegam ao consultório costumam se distribuir entre algumas formas:
- Infidelidade sexual. A mais reconhecida, e nem sempre a que mais machuca.
- Infidelidade emocional. A intimidade, a confidência e a prioridade migram para outra pessoa. Frequentemente a mais dolorosa, porque o que se perdeu não foi exclusividade, foi lugar.
- Relação paralela pela internet. Conversas, aplicativos, trocas contínuas. A ausência de encontro físico costuma ser usada como defesa, e raramente convence quem descobriu.
- Mentira e omissão sistemáticas. Às vezes sem terceira pessoa envolvida. Dinheiro escondido, uma vida paralela, uma versão inventada da própria rotina.
- Quebra de um acordo específico do casal. Relações abertas e não monogâmicas têm regras próprias, e romper essas regras produz o mesmo tipo de ruptura de confiança.
O denominador comum não é o ato, é a descoberta de que a versão da realidade em que a pessoa vivia não era a real. É por aí que a comparação com trauma faz sentido: o que quebra é a confiança na própria leitura do mundo.
A pergunta que ninguém deveria fazer a quem foi traído
Existe uma frase que circula em textos sobre o tema e que precisa ser dita com todas as letras: "reflita sobre a sua parte de culpa" não é ajuda.
Uma relação pode ter problemas dos dois lados, e olhar para eles pode ser útil mais adiante. Mas a decisão de trair foi de uma pessoa só, e ela tinha outras saídas disponíveis: conversar, pedir terapia de casal, terminar. Confundir problemas na relação com responsabilidade pela traição faz um estrago específico e conhecido.
Os estudos sobre o tema apontam para o papel das conclusões que a pessoa passa a tirar sobre si mesma, sobre os outros e sobre o mundo depois do episódio. São elas que costumam ligar o acontecimento ao adoecimento. Frases como "você deve ter deixado a desejar" não descrevem a realidade, elas fabricam exatamente a conclusão que faz mal.
Se você é quem está por perto de alguém nessa situação, existe uma versão melhor da pergunta: "o que você precisa hoje?".
O que ajuda a atravessar
Não existe atalho, mas existe diferença grande entre atravessar de qualquer jeito e atravessar bem acompanhada. Alguns pontos que aparecem com frequência no trabalho clínico:
- Adiar a decisão definitiva. Nas primeiras semanas, o sistema de alarme está no máximo e o pensamento fica estreito. Decidir o futuro da relação nesse estado costuma produzir arrependimento nos dois sentidos.
- Reduzir a investigação. Procurar mais provas alimenta a revivência. Isso não é o mesmo que aceitar mentira: é diferenciar o que você precisa saber para decidir do que a ansiedade pede para se acalmar por cinco minutos.
- Restabelecer o básico. Sono, comida, alguma rotina de movimento. Parece pequeno perto do tamanho do assunto, e é justamente o que sustenta a capacidade de pensar sobre ele.
- Escolher com cuidado a quem contar. Rede de apoio ajuda muito. Uma plateia opinando sobre a sua vida atrapalha bastante.
- Buscar ajuda profissional se os sintomas persistirem. Insônia, revivência, hipervigilância e humor deprimido que não cedem depois de semanas pedem acompanhamento, exatamente como pediriam depois de qualquer outro evento traumático.
Na terapia, o trabalho costuma passar por dois movimentos. Primeiro reduzir a intensidade dos sintomas, para que a pessoa volte a conseguir dormir e pensar. Depois examinar as conclusões que ficaram: sobre confiar, sobre o próprio valor, sobre relações futuras. É esse segundo movimento que evita que o episódio se transforme numa regra de vida.
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Referências
- Whisman, M. A. (2016). Discovery of a partner affair and major depressive episode in a probability sample of married or cohabiting adults. Family Process, 55(4), 713-723. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Roos, L. G., O'Connor, V., Canevello, A., & Bennett, J. M. (2019). Post-traumatic stress and psychological health following infidelity in unmarried young adults. Stress and Health, 35(4), 468-479. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Selterman, D., Garcia, J. R., & Tsapelas, I. (2019). Motivations for extradyadic infidelity revisited. The Journal of Sex Research, 56(3), 273-286. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- NORC at the University of Chicago. General Social Survey. Série histórica sobre relações extraconjugais. gss.norc.org
- American Psychiatric Association (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª ed., texto revisado).
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