Bullying na infância: a dor que a gente aprende a esconder
Uma psicóloga conta como a timidez, o recreio vivido sozinha e uma infância difícil viraram ponto de partida. E o que a pesquisa diz sobre essa dor na vida adulta.
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Quem cresceu sendo alvo de deboche na escola sabe que o recreio pode ser o lugar mais solitário do mundo. No episódio da temporada "Entendendo a mente", a psicóloga Pamela Magalhães contou que passava os intervalos trancada numa cabine do banheiro, sem coragem de dizer nada em casa. Anos depois, ela segue a pergunta que toda pessoa que sofreu alguma coisa precisa responder: o que eu faço com essa dor?
Este artigo parte da conversa com Pamela no podcast Psicologia na Prática, apresentado por Alana Anijar, e traz o que a pesquisa diz sobre o tema. Se você viveu uma infância parecida, ou convive com alguém que viveu, a leitura pode ajudar a dar nome ao que aconteceu.
Você ainda se sente como aquela criança que não sabia se defender? Reconhecer a origem da dor já é um começo. A terapia ajuda a transformar esse reconhecimento em mudança no dia a dia.
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Pamela descreveu uma menina tímida, quieta, boa aluna e gentil. Justamente por isso, segundo ela, era um alvo fácil. Não havia uma característica física que chamasse atenção. Havia um jeito de ser que convidava o desrespeito: não saber se defender, não conseguir se posicionar, ser submissa.
O resultado era uma rotina de isolamento. Nos intervalos, ela se trancava na cabine do banheiro. Por um tempo, a única companhia foi uma funcionária da limpeza que dividia com ela um café e um pãozinho. Pamela reconhece hoje que aquele vínculo a sustentou, mas também que a situação era vulnerável: uma criança de 11 ou 12 anos, sozinha, sem nenhum adulto que percebesse.
Ela lembrou que, por muito tempo, achou que aquilo era o normal. Não cogitava mudar de escola e não contava para ninguém. A espera era outra: alguém bater na porta do banheiro e chamá-la para brincar. Esse alguém nunca apareceu, e ela só saiu dali quando decidiu buscar recursos com as próprias mãos.
Por que a criança cala
Um dos pontos mais fortes da conversa é o silêncio. Pamela não contava em casa porque não queria dar trabalho aos pais, que já trabalhavam demais. A empatia, que hoje ela reconhece como uma qualidade, também a mantinha calada. Ela já cuidava dos outros e não queria incomodar ninguém.
Esse padrão aparece com frequência. A criança que sofre bullying costuma proteger quem ama, minimiza o que vive e, quando percebe que o ambiente não ajuda, aprende a se virar sozinha. Na escola de Pamela, a atenção ia para quem tirava notas ruins ou dava problema. Quem estava quieto e tirava boas notas passava despercebido.
Por isso, a pergunta mais útil talvez não seja "por que você não reagiu?", e sim "o que essa criança aprendeu sobre pedir ajuda?". Se a resposta for "que não adianta", o silêncio pode se estender até a vida adulta.
O que a pesquisa diz sobre o bullying na vida adulta
O relato de Pamela tem eco em estudos que acompanham as pessoas por anos. Um dos mais citados seguiu 1.420 participantes de comunidades do oeste da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, avaliados entre os 9 e os 16 anos e acompanhados até a juventude adulta. Os resultados foram publicados por Copeland, Wolke, Angold e Costello (2013) no JAMA Psychiatry.
Quem foi vítima de bullying na infância e na adolescência teve mais chances de agorafobia, ansiedade generalizada e transtorno de pânico na juventude adulta, mesmo depois de descontar outros fatores, como problemas psiquiátricos na infância e dificuldades na família. Quem era vítima e também agredia tinha mais risco de depressão e, entre os meninos, de comportamento suicida.
Os autores são cuidadosos: trata-se de uma associação, não de prova de que o bullying cause esses quadros. Outros fatores pesam, e a forma como cada pessoa reage também entra na conta.
Em outras palavras, a dor da escola não termina quando a escola termina. Ela pode aparecer como ansiedade, como medo de se expor ou como dificuldade de se colocar no mundo adulto. Pamela descreve exatamente isso: anos depois, ainda estava aprendendo a dizer o que queria e tendia a agradar antes de se escutar.
Nada disso significa que toda criança tímida vai adoecer. Significa que a experiência merece cuidado e que o caminho de reparação costuma ser mais longo do que parece.
Se a escola deixou marcas que ainda aparecem na sua rotina, como medo de falar, de discordar ou de se mostrar, o trabalho em terapia costuma começar por aí. Na Psi do Futuro você encontra psicólogas para cuidar dessas questões.
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Quando a filha tinha cinco meses, Pamela viveu um dos momentos mais difíceis da vida dela: um acidente doméstico grave com a bebê. Ficou dias na UTI, sem dormir, de olho na filha, ouvindo que a criança poderia morrer. Ela conta que a experiência desencadeou um estresse pós-traumático, com ansiedade intensa e ataques de pânico.
Ela mesma se surpreendeu com a força dos medos que surgiram depois. Não se via como uma pessoa ansiosa, mas aquela vivência mudou a forma como ela enxergava o mundo. Sua história não é um caso isolado, e a pesquisa ajuda a entender por quê.
Bronner, Kayser, Knoester, Bos, Last e Grootenhuis (2009) acompanharam pais de crianças internadas de forma inesperada em uma UTI pediátrica, em um estudo publicado no Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health. Três meses depois da internação, mais de 10% dos pais tinham probabilidade de preencher critérios de estresse pós-traumático, e quase um quarto apresentava sintomas que não chegavam ao diagnóstico completo. Entre 15% e 23% relataram depressão ou ansiedade em níveis clinicamente significativos. O fator mais ligado a esses quadros foi a dissociação vivida no momento do susto.
O trauma, portanto, não aparece só no momento da crise. Ele aparece depois, quando a pessoa precisa seguir a vida e não consegue desligar o alarme.
Pamela também falou da maternidade como um exercício de doação. Para ela, cuidar de um filho é uma das experiências mais transformadoras que existem, porque obriga a ceder, a negociar com o próprio egoísmo e a olhar além de si. Ela não idealiza essa experiência. Diz que ela expõe fragilidades, e que ver um filho sofrer é uma dor quase física.
Vítima ou reparação: a escolha que vem depois
Ao longo da conversa, Pamela repetiu uma ideia que organiza todo o episódio. Situações dolorosas oferecem duas posições possíveis. Uma é a de vítima, em que a pessoa fica para sempre remoendo o que aconteceu. A outra é a de quem reconhece a dor, acolhe a criança que foi e busca recursos para reparar o que for possível.
Ela faz uma distinção importante. Reconhecer que foi vítima na infância não é o mesmo que ficar preso nesse lugar. A criança que sofreu bullying foi vítima, e isso precisa ser dito. A adulta, porém, tem recursos que a criança não tinha e pode voltar àquela história para cuidar dela. Nas palavras dela: "como mulher, eu tenho recursos hoje que podem reparar tudo isso".
A psicologia chama de crescimento pós-traumático o fenômeno em que algumas pessoas relatam mudanças positivas depois de passar por situações difíceis. Esse é o terreno que Pamela descreve.
Tedeschi e Calhoun (1996), no Journal of Traumatic Stress, apresentaram o Inventário de Crescimento Pós-Traumático, com 21 itens organizados em cinco áreas: novas possibilidades, relacionamento com outras pessoas, força pessoal, mudança espiritual e apreciação da vida. O instrumento mede o que a pessoa relata de mudança positiva após uma experiência difícil. Ele não diz que a dor é boa. Diz que, para muita gente, a elaboração abre caminhos que antes não existiam.
Pamela resumiu a ideia assim: o sofrimento não ensina sozinho. Depois dele, a pessoa pode decidir o que fazer com o que sentiu. Ela não nega que foi difícil. Afirma apenas que a dor não precisa ser o último capítulo.
Eu falo que é um novo capítulo que a gente pode fazer reparações maravilhosas.
Outra parte da conversa trata da dificuldade de agradar. Pamela contou que aprendeu a ser agradável como forma de sobreviver e que, até hoje, precisa treinar a pergunta "o que eu quero?". Quem cresce assim costuma se perder em si mesmo, mesmo tendo muita competência para o mundo.
O papel da terapia e da relação com o terapeuta
Pamela começou a terapia aos 16 anos e, com pausas, nunca mais parou. Ela descreveu a terapia como um espaço em que uma pessoa habilitada, em quem a gente confia, ajuda a enxergar o que ainda não vemos com clareza e a reler episódios da própria vida.
Uma metanálise de Flückiger, Del Re, Wampold e Horvath (2018), publicada na revista Psychotherapy, reuniu 295 estudos com mais de 30 mil pacientes. A aliança terapêutica, isto é, o vínculo de trabalho e de confiança entre paciente e terapeuta, teve associação positiva e consistente com o resultado do tratamento, nas terapias presenciais e nas feitas por internet. Em outras palavras, o vínculo anda junto com melhores resultados.
Pamela também lembrou que a primeira experiência de terapia pode não ser boa, e que isso não quer dizer que a terapia não sirva. Encontrar alguém com quem a gente se sinta confortável para falar do mais íntimo leva tempo, e vale insistir até achar essa conexão.
Ela disse ainda que o autoconhecimento é o que mais protege. Para ela, quem não se conhece tende a projetar a própria escuridão nos outros, a desconfiar de quem quer bem e a não reconhecer o próprio merecimento. O maior obstáculo, disse, costuma ser o próprio desconhecimento sobre si.
Um caminho prático que sai da conversa é olhar para as próprias sombras sem fugir delas, ter alguém de confiança para dividir a dor e buscar ajuda profissional antes de chegar ao limite. Pamela admite que ainda tem buracos que não sabe preencher. Mas reconhecer esses buracos já faz parte da reparação.
Se você reconhece alguma coisa desta história, vale começar pelo mais simples: contar para alguém. Muita gente passa a vida esperando que outra pessoa venha buscá-la. Pamela chama isso de desistir de esperar. Não é aceitar a dor. É parar de esperar que alguém resolva, sozinho, o que só a gente pode começar a cuidar, com apoio.
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Psicologia na Prática, com Alana Anijar.
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Referências
- Bronner, M. B., Kayser, A.-M., Knoester, H., Bos, A. P., Last, B. F., & Grootenhuis, M. A. (2009). A pilot study on peritraumatic dissociation and coping styles as risk factors for posttraumatic stress, anxiety and depression in parents after their child's unexpected admission to a Pediatric Intensive Care Unit. Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, 3, 33. doi:10.1186/1753-2000-3-33
- Copeland, W., Wolke, D., Angold, A., & Costello, E. J. (2013). Adult psychiatric outcomes of bullying and being bullied by peers in childhood and adolescence. JAMA Psychiatry, 70(4), 419-426. doi:10.1001/jamapsychiatry.2013.504
- Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E., & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4). doi:10.1037/pst0000172
- Tedeschi, R. G., & Calhoun, L. G. (1996). The Posttraumatic Growth Inventory: Measuring the positive legacy of trauma. Journal of Traumatic Stress, 9(3), 455-471. doi:10.1007/BF02103658
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