Limites nos relacionamentos não afastam, eles é que tornam a conexão possível
Existe uma ideia de que colocar limite é criar distância. A psicologia das relações mostra o contrário: sem limite não há duas pessoas, há uma mistura. E mistura não é intimidade.
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Você já sentiu que precisava dizer não, ensaiou a frase na cabeça e no fim disse sim? Ou o contrário: já percebeu que fechou tanto que a pessoa ao lado não sabe mais o que se passa com você?
Os dois são problemas de limite. E os dois terminam no mesmo lugar: uma relação em que a conexão não acontece de verdade.
No episódio "Precisamos conversar sobre limites nos relacionamentos", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar desmonta a crença mais comum sobre o assunto, a de que ter limites impede a proximidade. É justamente o contrário. Limite é o que permite que duas pessoas se aproximem continuando a ser duas pessoas.
Neste artigo, aprofundamos cada camada do episódio com o que a pesquisa em terapia familiar e em relacionamentos mostra sobre o tema.
Você percebe que não consegue dizer não, ou que se fecha sempre que a relação aperta? Esse padrão costuma ter história, e história se trabalha na terapia.
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A palavra virou moda e, de tanto ser repetida, perdeu o contorno. "Preciso aprender a colocar limites" é uma frase que quase todo mundo já disse sem saber exatamente o que ela significa.
No episódio, Alana devolve ao termo o sentido original. Um limite é o espaço que separa o que é seu do que é do outro. Um contêiner. Dentro dele ficam os seus pensamentos, as suas emoções, as suas informações, a sua intimidade, as suas escolhas. Quando esse espaço existe e funciona, você consegue viver dentro dele com alguma tranquilidade.
Repare no que isso implica: o limite não serve para manter as pessoas do lado de fora, serve para que exista um lado de dentro.
A falsa ideia é que o limite impede a conexão. Na realidade, é o limite que possibilita uma conexão verdadeira.
Pense numa relação em que as identidades se fundiram: um casal em que ninguém sabe mais de quem é qual opinião, uma família em que o problema de um vira automaticamente o problema de todos. Isso não é intimidade, é emaranhamento, que é coisa diferente.
A analogia da pele: nem muro, nem ferida aberta
A imagem mais precisa do episódio vem da psicóloga belga Esther Perel, referência internacional em terapia de casal, citada por Alana. Perel compara os limites com a nossa pele.
A pele tem poros. Se não tivesse, não conseguiria respirar nem absorver o que vem de fora: ressecaria e perderia a função. Mas se estivesse permanentemente aberta, ferida, também não cumpriria o papel dela, porque em vez de proteger deixaria tudo entrar. A pele precisa das duas coisas ao mesmo tempo, pequenas aberturas que permitem a troca e resistência suficiente para proteger o que está dentro.
É assim que um limite saudável funciona. Não é uma parede, e não é ausência de parede. É uma membrana que filtra: algumas coisas entram, outras não, e você participa dessa decisão. Nos seus vínculos mais próximos, a sua pele está com poros, ressecada e fechada, ou aberta em carne viva?
Os três estilos de limite
O episódio organiza os limites em três estilos. Não são categorias fixas de personalidade, são modos de funcionamento que variam de relação para relação e de fase para fase da vida.
- Poroso demais: tudo entra. Opiniões alheias desestabilizam, sentimentos dos outros são absorvidos como se fossem seus, problemas que não são seus viram sua responsabilidade. Dizer não parece agressão.
- Flexível e equilibrado: existe filtro. Você escuta a opinião do outro, considera, e decide se ela entra. Você se aproxima sem deixar de saber o que é seu.
- Rígido demais: nada entra. Nenhuma influência, nenhuma vulnerabilidade compartilhada, nenhuma ajuda aceita. Parece força, mas costuma ser proteção antiga que ficou grande demais.
Essa divisão não nasceu no episódio. Ela vem da terapia familiar estrutural de Salvador Minuchin, no clássico Families and Family Therapy (1974). Minuchin descreveu as fronteiras entre os subsistemas de uma família como variando de difusas a rígidas.
Onde a fronteira é difusa, ele chamou o padrão de emaranhado (enmeshed): não se sabe onde termina um e começa o outro. Onde é rígida demais, chamou de desligado (disengaged): a separação chegou ao ponto em que um não alcança mais o outro nem quando precisa. Para Minuchin, a clareza das fronteiras é um dos melhores parâmetros para avaliar o funcionamento de uma família.
É um detalhe importante do episódio: Alana estagiou e atuou em terapia familiar sistêmica antes de escolher a Terapia Cognitivo-Comportamental como abordagem, e essa leitura das relações continua presente no jeito dela de olhar para casais e famílias.
Onde você aprendeu os seus limites
Ninguém escolhe do zero como lida com limites. A gente aprende cedo, no lugar onde viu relações acontecerem pela primeira vez. Vale fazer o exercício que o episódio propõe. Na casa onde você cresceu:
- Os adultos falavam sobre o que sentiam, ou era tudo velado?
- Você tinha privacidade, ou tudo de todo mundo era assunto de todo mundo?
- Quando você teve um problema, havia com quem contar, ou a mensagem foi "se vira"?
Os dois extremos deixam marca. A casa em que "tudo é de todo mundo", incluindo os problemas, forma adultos que não separam a própria vida da vida dos pais e levam esse emaranhado para o casamento. A casa em que ninguém se metia em nada forma crianças autossuficientes cedo demais e adultos que não sabem pedir, dividir nem depender.
Quantos casais continuam emaranhados com a família de origem, misturando dinheiro e problemas, porque o limite nunca existiu lá atrás?
E existe uma cena que a terapia de casal conhece bem: alguém que vem de uma família sem limite nenhum se junta com alguém que vem de uma família de limites rígidos. Nenhum dos dois está errado, os dois estão repetindo o que aprenderam. O trabalho ali é construir um terceiro acordo, que não é a casa de nenhum deles.
Quando o limite some: a relação emaranhada
Para Alana, a disfunção mais comum entre adultos é o excesso de fusão: relações em que não existe distinção clara do que é de quem.
Aparece em detalhes pequenos e em coisas grandes: o casal que compartilha o mesmo perfil nas redes sociais, a ansiedade de um que vira ansiedade do outro em dois minutos, a decisão pessoal que precisa de aprovação para existir, o espaço individual que virou traição.
Há quem defenda essa fusão como ideal romântico, inclusive numa leitura de fé sobre "os dois se tornarem um". O episódio faz uma distinção que vale guardar: tornar-se um não é anular quem você é.
Brian Barber e Cheryl Buehler testaram exatamente essa diferença em estudo publicado no Journal of Marriage and the Family em 1996, com 471 adolescentes. A conclusão separa duas coisas que costumam ser confundidas: coesão familiar, que é apoio e proximidade, e emaranhamento, que é controle psicológico.
Os resultados foram em direções opostas. Coesão apareceu associada a menos problemas emocionais e de comportamento. Emaranhamento apareceu associado a mais problemas, principalmente os internalizantes, como ansiedade e sintomas depressivos. Proximidade faz bem; mistura sem limite, não.
Há ainda um custo silencioso para quem vive do lado poroso e não consegue dizer o que pensa dentro da relação.
A psicóloga norte-americana Dana Crowley Jack descreveu esse padrão como silenciamento do self, no livro Silencing the Self: Women and Depression (Harvard University Press, 1991) e na escala publicada com Diana Dill no Psychology of Women Quarterly em 1992.
O padrão é censurar os próprios desejos, pensamentos e sentimentos, em especial a raiva, para preservar o vínculo. Três décadas de estudos com essa escala mostram associação consistente entre silenciamento do self e sintomas depressivos. O que não é dito não desaparece: se acumula.
Quando o limite vira muro: a relação distante
O outro extremo é menos comentado porque não parece um problema, parece independência.
São os casais que ficam dias sem se falar e ninguém estranha. As casas onde não houve nem briga, só um silêncio que se instalou. Os cônjuges que não sabem quanto o outro ganha nem o que aconteceu na infância dele. A pessoa que atravessa uma crise sozinha porque nunca aprendeu que dava para contar com alguém.
Muitas famílias vivem assim e acham que é o normal. Não é. Limites rígidos demais não protegem a relação, produzem indiferença. Se essa descrição fala com você, a pergunta útil não é "sou frio?", e sim: em que momento fechar foi a coisa mais inteligente a fazer? Quase sempre existe uma resposta, e ela costuma ser antiga.
Padrões de limite não mudam por decisão. Mudam quando a pessoa entende de onde eles vêm e treina outro jeito de responder, com apoio. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em relacionamentos e Terapia Cognitivo-Comportamental.
Agendar minha primeira sessão →A parte que quase ninguém fala: respeitar o limite do outro
Aqui está o ponto mais original do episódio: fala-se muito em aprender a colocar limites e quase nada em aprender a respeitar o limite do outro.
E esse é um dos desafios mais difíceis de qualquer relação: até que ponto você aceita que a outra pessoa é diferente de você, e a partir de que ponto começa, sem perceber, a tentar moldá-la à sua imagem? O exemplo que Alana usa é o mais delicado, porque a intenção nele é boa. Alguém que você ama está se cuidando mal. Você sabe o que seria melhor, insiste, cobra, controla. Onde termina cuidar e começa desrespeitar o espaço do outro?
No fundo, a pergunta é uma só: até onde eu consigo aceitar o outro como ele é, em vez de tentar obrigá-lo a ser como eu sou?
Não existe resposta pronta, e o episódio não finge que existe. Mas há um dado que ajuda a decidir para que lado errar.
Uma equipe liderada por Edward Deci e Richard Ryan, criadores da Teoria da Autodeterminação, investigou o que acontece quando alguém apoia a autonomia do outro numa relação próxima. O estudo saiu no Personality and Social Psychology Bulletin em 2006, com foco em amizades íntimas.
Receber apoio à autonomia previu maior satisfação e segurança no vínculo, como era de esperar. A descoberta interessante foi outra: quando dar e receber esse apoio foram comparados, dar apoio à autonomia previu melhor o bem-estar de quem dá do que recebê-lo. Respeitar o espaço do outro não é concessão. É parte do que faz a relação funcionar, inclusive para você.
Vale dizer com todas as letras: respeitar limites do outro não é o mesmo que tolerar tudo. Aceitar as escolhas de alguém sobre a própria vida é uma coisa; aceitar comportamento que machuca você é outra, e essa segunda não é respeito, é limite seu sendo atravessado.
Limite não é regra fixa, é negociação permanente
Limite não é algo que você define uma vez e resolve para sempre. Limites são negociados o tempo todo, com você mesmo e com as pessoas ao seu redor, e mudam conforme a relação muda.
No começo de um relacionamento os limites são naturalmente mais firmes, e vão se abrindo conforme a confiança se constrói. Alana dá o exemplo do próprio casamento, de onze anos: hoje existem poucos limites entre ela e o marido, mas eles existem, e às vezes precisam ser ditos em voz alta, ainda que sejam coisas pequenas como querer ficar sozinha por um tempo. Isso muda a pergunta. Em vez de "eu tenho limites ou não tenho?":
Neste momento da minha vida, nesta relação específica, meus limites precisam ficar mais firmes ou mais flexíveis?
A capacidade de manter a própria posição sem se desconectar do outro tem nome na teoria de Murray Bowen: diferenciação do self. Elizabeth Skowron e Myrna Friedlander criaram um instrumento para medi-la e o validaram com 609 adultos, em estudo publicado no Journal of Counseling Psychology em 1998.
Pontuações mais altas, que indicam menos reatividade emocional, menos corte de relação e menos fusão com o outro, previram menor ansiedade crônica, melhor ajustamento psicológico e maior satisfação conjugal. Continuar sendo você dentro da relação não afasta o outro: é o que sustenta a relação.
Quatro perguntas para revisar seus limites
O episódio se fecha com quatro pontos. Cada um virou aqui uma pergunta para você levar para a semana, pensando numa relação específica, não em "as pessoas" no geral.
- Limite é o que permite conexão sem perder identidade. Nesta relação, eu ainda sei o que é meu e o que é do outro?
- Limites variam entre porosos e rígidos. Aqui, eu estou deixando tudo entrar ou não estou deixando nada entrar?
- Os dois extremos adoecem a relação. O que está acontecendo hoje: fusão e perda de identidade, ou distância e indiferença?
- Ajustar limites é processo contínuo. O que eu preciso agora: ser mais firme, ou me abrir mais?
Se você percebeu que o problema aparece principalmente na comunicação, nas conversas que ficam sempre pela metade, vale ler também como o preparo individual e as conversas difíceis sustentam um relacionamento saudável, que trata do outro lado desse mesmo trabalho.
Quando o problema com limites pede terapia
Existe um ponto em que a reflexão sozinha não resolve, e ele costuma aparecer assim:
- Você entende racionalmente o que precisa dizer e, na hora, não consegue dizer.
- Dizer não vem sempre acompanhado de culpa desproporcional.
- Você se afasta de todo mundo sempre que a relação fica próxima demais.
- O mesmo padrão se repete com pessoas diferentes, o que aponta para algo seu, não para azar.
- A relação com a família de origem continua determinando decisões da sua vida adulta.
Nesses casos, o que está em jogo não é técnica de comunicação. São crenças aprendidas cedo, do tipo "se eu disser não, vou ser abandonada" ou "se eu precisar de alguém, vou ficar na mão". A terapia trata a crença, não só a frase. É esse o trabalho que muda o padrão de limite de forma duradoura.
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Referências
- Minuchin, S. (1974). Families and Family Therapy. Harvard University Press. Fronteiras difusas, claras e rígidas; padrões emaranhado e desligado. verbete "Boundaries in Structural Family Therapy", Springer
- Barber, B. K., & Buehler, C. (1996). Family cohesion and enmeshment: Different constructs, different effects. Journal of Marriage and the Family, 58(2), 433-441. jstor.org/stable/353507
- Jack, D. C., & Dill, D. (1992). The Silencing the Self Scale: Schemas of intimacy associated with depression in women. Psychology of Women Quarterly, 16(1), 97-106. journals.sagepub.com
- Deci, E. L., La Guardia, J. G., Moller, A. C., Scheiner, M. J., & Ryan, R. M. (2006). On the benefits of giving as well as receiving autonomy support: Mutuality in close friendships. Personality and Social Psychology Bulletin, 32(3), 313-327. selfdeterminationtheory.org
- Skowron, E. A., & Friedlander, M. L. (1998). The Differentiation of Self Inventory: Development and initial validation. Journal of Counseling Psychology, 45(3), 235-246. psycnet.apa.org
- Perel, E. Relational Intelligence, aula "Establishing Boundaries". MasterClass. Analogia dos limites com a pele. masterclass.com
Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).


