Psicologia na Prática · Saúde Mental

Saúde mental no esporte: o que as campeãs olímpicas treinam na terapia

Simone Biles, Rebeca Andrade e Rayssa Leal tratam a terapia como parte do treino. As cinco habilidades que elas desenvolvem valem para quem nunca pisou numa arena.

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Psi do Futuro 23 de agosto de 2026 12 min de leitura

Mascote cérebro do podcast Psicologia na Prática equilibrado numa trave de ginástica, com uma medalha de ouro no peito

A melhor ginasta da história subiu na trave, saltou e sentiu que o cérebro e o corpo tinham parado de conversar. No dia seguinte, com o mundo inteiro assistindo, ela fez o que ninguém esperava de uma favorita ao ouro: disse não.

A desistência de Simone Biles nos Jogos de Tóquio virou um divisor de águas na conversa sobre saúde mental no esporte. Três anos depois, ela voltou ao topo do pódio em Paris. E o que ela, Rebeca Andrade e Rayssa Leal repetem em toda entrevista é a mesma coisa: a terapia faz parte da preparação, tanto quanto o treino físico.

No episódio "Saúde mental e Olimpíadas: lições importantes", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar mostra o que essas atletas têm em comum e destrincha as cinco habilidades que a terapia desenvolve nelas. Habilidades que você, que compete todos os dias sem plateia e sem medalha, precisa tanto quanto elas.

Atletas de elite não esperam a crise para procurar terapia. Elas a usam como base da performance. Você pode fazer o mesmo pela sua vida.

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O dia em que a melhor do mundo disse não

Nos Jogos de Tóquio, disputados em 2021, Simone Biles era a grande favorita. No meio da competição, ela perdeu a referência do próprio corpo no ar, um fenômeno que as ginastas chamam de twisties: o cérebro e o corpo deixam de se coordenar. Ela abandonou a disputa por equipes e quase todas as finais. Não era uma lesão visível. Era esgotamento emocional.

A internet reagiu como costuma reagir. Choveram acusações de fraqueza e covardia. E aí está um ponto que o documentário Simone Biles Rising, da Netflix, mostra com precisão: quando um atleta rompe um ligamento, ninguém o chama de covarde por parar. Quando o que rompe é invisível, a régua muda. Ainda temos dificuldade de dar à dor emocional o mesmo estatuto que damos à dor física.

Só que parar foi provavelmente a decisão mais corajosa da carreira dela. Competir naquele estado, num esporte em que o corpo gira a metros do chão, poderia ter custado a integridade física. Biles passou o ano e meio seguinte indo e voltando do ginásio, alguns dias treinando, outros não conseguindo executar movimentos básicos. Uma coisa ela não interrompeu: a terapia. Em Paris, em 2024, ela conquistou três ouros e uma prata.

O detalhe que interessa a este artigo: ela não se recuperou por acaso. Recuperou-se treinando habilidades específicas. As mesmas que veremos a seguir.

O que a ciência sabe sobre a mente dos atletas de elite

A impressão de que atleta de alto rendimento é blindado contra sofrimento psíquico não sobrevive aos dados. O tema é tão relevante que o Comitê Olímpico Internacional reuniu um grupo de especialistas só para consolidar o que a ciência sabe a respeito.

O que diz a pesquisa

Uma meta-análise liderada por Vincent Gouttebarge, publicada no British Journal of Sports Medicine em 2019, somou dados de milhares de atletas de elite e encontrou sintomas de ansiedade e depressão em cerca de 34% dos atletas em atividade e em 26% dos aposentados. Ou seja: aproximadamente um em cada três.

No mesmo ano, o consenso do Comitê Olímpico Internacional, coordenado pela psiquiatra Claudia Reardon, concluiu que sintomas de saúde mental são comuns no esporte de elite, prejudicam o desempenho e aumentam o risco de lesão física. A conclusão central: saúde mental e saúde física não se separam.

Se um em cada três atletas de elite, com equipe multidisciplinar, rotina estruturada e preparo físico impecável, apresenta sintomas de ansiedade ou depressão, fica difícil sustentar a ideia de que sofrimento emocional é falta de força de vontade. É condição humana. A diferença é o que se faz com ela: essas atletas tratam o cuidado da mente como parte do trabalho, não como socorro de última hora.

Rebeca Andrade, a maior medalhista olímpica do Brasil, faz terapia desde os 13 anos e repete que a psicóloga é parte central da preparação. Rayssa Leal, medalhista no skate, contou que faz terapia duas vezes por semana. É dessa base que saem as cinco habilidades do episódio.

Habilidade 1: resiliência emocional

Resiliência não é não ser afetado pelos problemas. É ser afetado, atravessar a dificuldade e conseguir extrair aprendizado dela, em vez de sucumbir ou desistir na primeira queda.

O ano e meio de Biles entre Tóquio e Paris é resiliência em câmera lenta. Não foi uma volta triunfal e linear: foram meses de tentativa, recuo, dúvida e nova tentativa, com a batalha interna do "desisto ou continuo" sendo travada quase diariamente. Perder alguns dias dessa batalha faz parte. Continuar na guerra é o que define o desfecho.

O que diz a pesquisa

Os pesquisadores David Fletcher e Mustafa Sarkar entrevistaram doze campeões olímpicos para entender como eles lidam com a pressão. No estudo, publicado em Psychology of Sport and Exercise em 2012, identificaram cinco famílias de fatores psicológicos que protegem esses atletas do efeito dos estressores: personalidade positiva, motivação, confiança, foco e percepção de apoio social. Nenhum deles é dom. Todos podem ser desenvolvidos.

Vale a autorreflexão que a Alana propõe no episódio: como anda a sua resiliência? As dificuldades recentes têm te derrubado e te mantido no chão, ou você tem conseguido atravessá-las e aprender algo? Se quiser se aprofundar, temos um artigo inteiro sobre o que é resiliência e por que ela importa.

Habilidade 2: autoconhecimento para reconhecer limites

No documentário, um dos treinadores de Biles observa que ela precisou de muita conexão consigo mesma para saber que aquele era o limite dela. Essa frase resume o que o autoconhecimento tem de mais prático: ele é um sistema de alarme.

Quem não conhece os próprios limites tende a rompê-los repetidamente até a estafa. É o roteiro de tanta gente afastada do trabalho por esgotamento: os sinais existiam, mas ninguém os ensinou a ler. Nada acontece do nada. Antes do colapso houve semanas ou meses de avisos que a mente foi dando e que passaram despercebidos, ou foram ignorados porque parar parecia impossível.

O colapso nunca é o primeiro sinal. É o último de uma série que ninguém ouviu.

Autoconhecimento é o que permite ouvir os primeiros. Entender as próprias emoções, motivações e reações ajuda a tomar decisões mais assertivas: quando insistir, quando pausar, quando dizer não. Esse trabalho de leitura interna é parte do que se treina em hábitos de inteligência emocional, e é um dos eixos centrais de qualquer processo terapêutico.

Habilidade 3: comunicar o que sente e o que precisa

Colocar sentimento em palavra parece simples até a hora de fazer. Dizer "estou no meu limite", "preciso de ajuda com isso" ou "esse comentário me machucou" exige maturidade emocional, e é uma habilidade que a terapia treina diretamente.

Uma ginasta não trabalha com comunicação verbal, mas nada do que ela faz se sustenta sem isso: ela precisa conseguir dizer à equipe, à família e ao treinador o que está sentindo, para que as pessoas ao redor possam ajustar o apoio. Rebeca Andrade resumiu a própria preparação para Paris numa frase que ficou famosa:

Minha preparação foi na conversa. Eu converso muito com a minha psicóloga, tento cuidar ao máximo da minha cabeça e do meu corpo para criar equilíbrio.

Na sua vida, comunicar limites é o que evita que eles sejam atropelados. Quem não diz não acaba assumindo mais do que consegue gerir, como veremos nos exemplos logo adiante. E quem nunca nomeia o que sente vai acumulando pressão até o dia em que ela encontra a própria saída, geralmente a pior.

Se falar sobre o que você sente já parece difícil, esse é justamente o ponto de partida. Na Clínica Psi do Futuro você encontra psicólogas especializadas em Terapia Cognitivo-Comportamental, num espaço em que nomear as coisas é seguro.

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Habilidade 4: manejar a autocobrança e o perfeccionismo

Imagine treinar quatro anos para uma apresentação de noventa segundos e errar nela. É a versão extrema de algo que você conhece bem: a prova que não passou, o projeto que não saiu como planejado, a meta que escapou por pouco.

A diferença entre quem se recupera do erro e quem é destruído por ele raramente está no tamanho do erro. Está no que a pessoa faz com ele internamente.

O que diz a pesquisa

A meta-análise de Andrew Hill e Thomas Curran, publicada na Personality and Social Psychology Review com dados de mais de 9.800 pessoas, separou o perfeccionismo em duas dimensões. A busca por padrões altos, sozinha, teve relação pequena ou nula com burnout. Já as preocupações perfeccionistas, o medo do erro e da avaliação alheia e a autocrítica severa, mostraram relação de média a forte com o esgotamento, no trabalho, nos estudos e no esporte.

Em outras palavras: querer fazer bem feito não adoece. O que adoece é atrelar o próprio valor ao resultado. Rebeca Andrade entendeu isso na prática: ela contou que precisava estar presente e fazer o seu melhor, sem se cobrar a sair de Paris com medalhas, porque colocar o valor pessoal na medalha tornaria a pressão insuportável. Medalha, promoção, aprovação e casamento são resultados que não dependem só de nós. O seu valor como pessoa não pode flutuar ao sabor deles.

Os atletas ainda ensinam outra coisa: visão de longo prazo. Quem perde uma final espera quatro anos pela próxima chance, e segue treinando. Nós, que desistimos de um concurso na primeira reprovação, temos algo a aprender com essa paciência.

Habilidade 5: ferramentas para o estresse e a ansiedade

Tóquio foi um caso extremo de acúmulo de estressores: pandemia, isolamento, competição sem família e sem público, testes diários com medo de um positivo tirar tudo. Somando a expectativa do mundo inteiro, o sistema emocional de Biles fez o que sistemas sobrecarregados fazem: desligou a operação para proteger a estrutura.

A terapia oferece ferramentas concretas para não chegar nesse ponto: técnicas de relaxamento, mindfulness e reestruturação cognitiva, que é o trabalho de identificar e revisar os pensamentos que alimentam a ansiedade. São recursos que se aprendem e se praticam, como qualquer técnica.

Uma parte dessas ferramentas nós já detalhamos aqui no blog, com as pesquisas que as sustentam, no artigo sobre o kit de emergência emocional para crises de ansiedade. A regra de ouro é a mesma do esporte: ferramenta se treina fora da crise para funcionar dentro dela.

As suas Olimpíadas acontecem todos os dias

Você talvez nunca tenha competido em nada. Mas repare se não se reconhece em alguma destas quatro pessoas que a Alana descreve no episódio:

  • Ana, jovem profissional, trabalha incansavelmente para crescer na carreira, mas a pressão por ser perfeita a faz duvidar das próprias habilidades. Não consegue dizer não, assume mais do que dá conta e não descansa sem culpa.
  • João, empresário, vive ansioso com o futuro do negócio. Centraliza tudo, não delega, e a autocobrança o leva ao esgotamento e à dúvida sobre a própria capacidade.
  • Maria, mãe de três, equilibra casa, filhos e trabalho integral. Está exausta, mas a culpa de tirar um tempo para si a impede de se cuidar, com medo de ser vista como negligente.
  • Pedro, universitário, sente que as notas definem o valor dele. A ansiedade o isolou dos amigos e das atividades que gostava; ele vive preocupado com a próxima prova.

Autocobrança, pressão, culpa por se priorizar. São as mesmas forças que derrubaram a maior ginasta da história, operando em escala doméstica, sem holofote e sem equipe multidisciplinar por perto. A lição das Olimpíadas é essa: se quem tem talento extremo, técnica refinada e estrutura profissional precisa de suporte emocional para performar, ninguém deveria se envergonhar de precisar também.

Terapia não é para quem está no fundo do poço. É o que evita chegar lá, e o que constrói a base para as suas medalhas pessoais: descansar sem culpa, confiar no próprio potencial, decidir sem medo do julgamento alheio, ter tempo para o que importa e se sentir em paz com a própria mente.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.

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Referências

  1. GOUTTEBARGE, V. et al. Occurrence of mental health symptoms and disorders in current and former elite athletes: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 53, n. 11, p. 700-712, 2019. bjsm.bmj.com/content/53/11/700
  2. REARDON, C. L. et al. Mental health in elite athletes: International Olympic Committee consensus statement (2019). British Journal of Sports Medicine, v. 53, n. 11, p. 667-699, 2019. bjsm.bmj.com/content/53/11/667
  3. FLETCHER, D.; SARKAR, M. A grounded theory of psychological resilience in Olympic champions. Psychology of Sport and Exercise, v. 13, n. 5, p. 669-678, 2012. sciencedirect.com
  4. HILL, A. P.; CURRAN, T. Multidimensional perfectionism and burnout: a meta-analysis. Personality and Social Psychology Review, v. 20, n. 3, p. 269-288, 2016. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26231736
  5. Simone Biles Rising. Direção: Katie Walsh. Netflix, 2024. Série documental.

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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