Amor próprio na prática: como se tornar o amor que você busca
Muita gente não está buscando um relacionamento, está buscando um socorro. A psicóloga Alana Anijar propõe cinco práticas para construir a relação que sustenta todas as outras: a que você tem com você.
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Ela topou abrir o relacionamento porque tinha medo de perder. Disse que estava tudo bem, que conseguiria lidar. Mas cada vez que o namorado saía com outra pessoa, ela se enchia de ressentimento, insegurança e raiva. E depois se culpava por não estar "evoluída o suficiente".
Ele dizia que amava a parceira, mas fugia de qualquer conversa difícil. Engolia o que sentia, evitava o conflito e, a cada silêncio, se afastava um pouco mais. Estava junto, mas estava sozinho.
Tem também quem esteja solteiro, mas não por escolha: cansou de relações que começam intensas e terminam em silêncio, de tentar consertar gente que não quer ser cuidada, de se entregar rápido, se machucar cedo e se culpar depois. E tem quem não esteja em relacionamento nenhum, mas também não esteja bem sozinho, se agarrando a qualquer migalha de afeto que alivia por alguns dias a sensação de vazio.
No episódio "Como se tornar o amor que você busca", do podcast Psicologia na Prática, a psicóloga Alana Anijar parte dessas histórias para virar a pergunta ao contrário. Em vez de "com quem eu vou estar?", a pergunta que importa é: eu estou me tornando o tipo de amor que eu gostaria de viver?
Neste artigo, aprofundamos o raciocínio do episódio com as pesquisas que sustentam cada ponto.
Você repete os mesmos ciclos em todas as relações? Um artigo ajuda a enxergar o padrão, mas não trata a ferida que o alimenta. É isso que a terapia faz.
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Vivemos o que Alana chama de era da não comunicação: gente que dorme na mesma cama, mas não compartilha o que sente. Gente que ama, mas não diz. Gente que se incomoda, mas não fala. Gente que se anula para manter uma relação e se perde no processo.
Muita gente hoje não entra em relacionamentos por desejo, entra por medo. Medo de ficar sozinho, medo de não ser suficiente, medo de não ser amado de novo. Relacionamentos abertos por insegurança, e não por convicção. Limites engolidos para não parecer "intenso demais". Necessidades escondidas para não parecer carente.
Os vínculos formais também refletem esse cenário. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, o Brasil registrou 440,8 mil divórcios em 2023, novo recorde da série. O tempo médio entre o casamento e o divórcio caiu de 16 anos em 2010 para 13,8 anos em 2023, e cerca de 47 a cada 100 casamentos hoje terminam em divórcio.
O que preocupa não é só o fim dos casamentos, é o desencantamento afetivo coletivo. De um lado, uma era de superficialidade extrema: feeds infinitos, respostas prontas, promessas de felicidade instantânea, interações afetivas cada vez mais automatizadas. De outro, o que Alana chama de efeito rebote emocional: um movimento silencioso de pessoas cansadas da conexão rasa, que querem vínculo real, presença de verdade e comunicação que cura.
Só que antes de buscar profundidade no outro, é preciso olhar para a raiz do problema. Muita gente não está buscando um relacionamento, está buscando um socorro. Alguém que preencha o buraco do abandono, que cuide da criança que foi negligenciada um dia, que finalmente prove o que ninguém provou: você é amável, você é suficiente, você é importante.
Essa não é uma busca por amor. É uma busca por reparação emocional, por segurança emocional terceirizada.
Isso acontece com quem está solteiro e com quem já está em um relacionamento. Tem gente tentando fazer do parceiro um pai, uma mãe, um terapeuta ou um salvador: transfere toda a instabilidade emocional para o outro e, quando o outro não sustenta, culpa, cobra, explode ou implode.
De onde vem o padrão: as crenças que você aprendeu cedo demais
Por que a gente repete? A psicologia tem um nome para essas estruturas: esquemas desadaptativos precoces. São crenças profundas, formadas na infância, sobre o que você precisa fazer para ser amado, aceito e valorizado.
O conceito vem da Terapia do Esquema, desenvolvida pelo psicólogo Jeffrey Young e colegas. No livro Schema Therapy: A Practitioner's Guide (2003), Young, Klosko e Weishaar mapeiam 18 esquemas desadaptativos precoces, organizados em cinco domínios. O primeiro deles, desconexão e rejeição, reúne justamente os esquemas de abandono, privação emocional e defectividade que aparecem nas histórias do início deste artigo.
Quando essas crenças não são tratadas, você leva para a vida adulta uma ideia distorcida do amor: "preciso me esforçar muito para não ser deixado", "preciso esconder minhas emoções para não ser rejeitado", "se eu mostrar quem eu sou, eu perco". Você pode até manter um relacionamento assim. Mas vai se perdendo de você no caminho.
E aquilo que muita gente chama de "química"? Alana é direta: a atração intensa e imediata muitas vezes é o reconhecimento inconsciente de uma ferida antiga. Não é acaso nem energia. É o padrão conhecido se apresentando com roupa nova.
Essa continuidade entre infância e vida amorosa é um dos achados mais sólidos da psicologia. No estudo clássico Romantic love conceptualized as an attachment process (1987), Cindy Hazan e Phillip Shaver mostraram que o amor romântico adulto funciona como um processo de apego, espelhando os estilos construídos com os primeiros cuidadores: seguro, evitativo ou ansioso. Os modelos internos formados cedo seguem orientando quem nos atrai e como nos comportamos no vínculo.
Os sinais de que a ferida está no comando
Como saber se você está buscando fora o que precisa desenvolver dentro? No episódio, Alana lista sinais para se observar:
- Precisar da aprovação do outro o tempo todo para se sentir seguro
- Medo constante de ser abandonado, mesmo quando nada aponta para isso
- Tolerar comportamentos que machucam por medo de ficar sozinho
- Se anular ou esconder as emoções para manter a relação estável
- Evitar conversar sobre o que sente para não parecer "difícil demais"
- Ciúme excessivo, medo de traição ou desconfiança constante
- Viver tentando consertar ou salvar o outro
- Se sentir menos valioso quando está solteiro
- Idealizar no início e se frustrar com facilidade logo depois
- Não conseguir imaginar a felicidade fora de um relacionamento
Esses sinais não são fraquezas. São feridas emocionais que ainda estão vivas e que você talvez esteja tentando esconder com o nome de amor.
Se você se identificou, isso não é defeito de fabricação. É história emocional, é bagagem, é uma forma de sobrevivência psíquica que deu certo no passado e hoje faz mal. E, justamente por ser aprendida, pode ser cuidada.
Por trás do medo de ser rejeitado costuma existir uma criança que aprendeu que só seria amada se se calasse, se fosse perfeita, se não incomodasse. Na terapia, o amor próprio deixa de ser frase pronta e vira prática.
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Crescer emocionalmente é uma escolha, mesmo quando a dor que você sofreu não foi. As cinco práticas abaixo saem do episódio e estão na ordem em que Alana as apresenta, da base para o topo.
1. Aprenda a estar com você, sem fuga e sem distração
Solidão não é o mesmo que estar sozinho. Muita gente vive cercada de pessoas e emocionalmente desconectada de si; outras fogem do silêncio porque é no silêncio que aparece tudo o que está abafado.
Estar com você é um exercício de presença, às vezes desconfortável. É conseguir sentar no sofá num domingo sem se sentir insuficiente por isso. É fazer uma refeição só sua sem preencher o momento com o celular, com uma série ou comendo as próprias emoções. Não se trata de uma independência emocional exagerada: é sobre não depender do outro para existir e para ter bem-estar.
2. Fortaleça a autoestima para além do espelho
Autoestima não é se achar incrível todos os dias. É ter clareza do seu valor mesmo quando você não está nos seus melhores dias, mesmo quando ninguém elogia, deseja ou escolhe você. A base disso é o que Alana chama de autoeficácia emocional: saber que você dá conta de se acolher quando se frustra e de se validar mesmo quando o outro não reconhece.
Na prática, você fortalece essa base quando começa a se tratar com o mesmo cuidado com que trata quem ama. Quando diz "isso me feriu, eu não aceito mais", mesmo gostando da pessoa. Quando para de correr atrás de quem ignora você. Quando a dor da rejeição não vira a medida do seu valor.
Tratar a si mesmo como trataria alguém querido tem nome na literatura: autocompaixão. A psicóloga Kristin Neff, da Universidade do Texas, definiu o conceito em 2003 na revista Self and Identity como a combinação de gentileza consigo, senso de humanidade compartilhada e atenção plena ao sofrimento. Os estudos de validação mostram associação com menos depressão e ansiedade e maior satisfação com a vida.
3. Rompa os padrões que se repetem
Se a "química" costuma ser o reconhecimento de uma ferida antiga, o antídoto é tirar o padrão do escuro. Alana propõe um inventário das últimas relações, por escrito: que comportamentos eu tolerei? Sobre o que me calei? Como cada relação começou e como terminou? O que eu sentia e ignorava? O que isso diz sobre mim?
Quando você ganha consciência do padrão, ganha poder de escolha. E quando escolhe diferente, mesmo sentindo medo do desconhecido, já está se tornando alguém novo, como exploramos no artigo sobre se tornar a pessoa que você sempre sonhou ser. Não é para viver em alerta: é um conhecimento que você leva daqui para a frente.
4. Comunique o que você sente e precisa
Muita gente silencia para não ser rejeitada. Só que, ao fazer isso, você se rejeita primeiro. Comunicar emoções é uma habilidade, e dá para começar com frases simples: "quando isso acontece, eu me sinto assim", "esse ponto é importante para mim no relacionamento, como é para você?", "eu gostaria de conversar sobre como tenho me sentido".
Se você se coloca dessa forma e o parceiro não tem abertura nem disposição para o diálogo, isso também é informação: talvez não seja uma relação que você queira levar adiante. Querer conversar não é ser chata, não é "fazer DR". Você não é frágil por sentir, você é humano.
Quem não sabe lidar com a sua humanidade talvez não seja quem você precisa manter por perto.
Esse é o mesmo princípio que sustenta as conversas essenciais de um casal, tema do artigo relacionamento saudável começa em você: a qualidade do vínculo depende menos de encontrar a pessoa perfeita e mais da capacidade de dizer o que se sente.
5. Cuide da criança que aprendeu a se calar
Toda vez que você aceita menos do que merece, talvez não seja o seu adulto saudável decidindo. Talvez seja a criança que aprendeu que ser amada significa se esforçar, se adaptar sempre, viver a um passo do abandono.
Alana deixa uma tarefa de casa por escrito: o que eu precisava ouvir na fase da vida em que mais desejei ser amada e aceita? Como posso cuidar hoje das partes de mim que foram ignoradas? Que necessidades eu aprendi a reprimir? Cuidar do que se costuma chamar de criança interior é dar a ela a segurança que os adultos responsáveis por você talvez não tenham dado. Quando essa criança se sente segura, o adulto para de se sabotar em nome de migalhas emocionais.
O que a terapia faz que nenhum conteúdo consegue
Um podcast, por melhor que seja, não resolve um esquema formado ao longo de uma infância inteira. No processo terapêutico, você entende o porquê das repetições, aprende a reconhecer os gatilhos por trás dos medos, da carência e da evitação, e percebe que dá para responder de outro jeito.
Talvez você tenha passado a vida esperando alguém escolher você: um amor que salve, que prove, que complete. O convite do episódio é outro. Escolha você. Torne-se o tipo de amor que você gostaria de viver, com verdade, presença, limites e profundidade. Porque a única relação que acompanha você em todos os ciclos da vida é a que você tem com você mesmo. E o amor que você busca lá fora começa pelo amor que você constrói aí dentro.
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Psicologia na Prática, com Alana Anijar. Novos episódios toda terça-feira.
Continue lendo
- Relacionamento saudável começa em você (e nas conversas que você evita)
- Como se tornar a pessoa que você sempre sonhou ser
- Como superar um término: por que dói tanto e o que ajuda
- Decepção amorosa: superando a dor emocional
Referências
- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press. capítulo de amostra em guilford.com
- Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511-524. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3572722
- Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101. tandfonline.com
- IBGE (2025). Estatísticas do Registro Civil 2023. Rio de Janeiro: IBGE. ibge.gov.br
Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).


