Psicologia na Prática · Carreira

Como escolher uma carreira: as 5 perguntas de uma orientação profissional

O que uma psicóloga investiga quando alguém chega sem saber que caminho seguir, e como você pode começar a fazer essas mesmas perguntas hoje.

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Alana Anijar 11 de outubro de 2026 14 min de leitura

Ilustração do cérebro mascote do Psicologia na Prática segurando uma bússola numa encruzilhada, com caminhos que levam a ícones de profissões: paleta de pintura, notebook, estetoscópio, planta e megafone

Tem gente que escolhe a profissão aos 17 anos, com o vestibular batendo na porta. Tem gente que já trabalha há dez anos numa área e acorda toda segunda com a sensação de que aquilo não é para ela. Nos dois casos, a pergunta é a mesma e pesa do mesmo jeito: como escolher uma carreira sem jogar fora anos da própria vida?

Este artigo parte de um episódio do podcast Psicologia na Prática, apresentado pela psicóloga Alana Anijar, especialista em terapia cognitivo-comportamental. Nele, ela abre o que acontece dentro de uma sessão de orientação profissional: as ferramentas, as perguntas e as reflexões que ajudam alguém a se conhecer antes de decidir. Você vai encontrar aqui essas cinco ferramentas, o que a pesquisa diz sobre cada uma e um caminho prático para começar.

Está travada entre dois caminhos, ou num trabalho que não faz mais sentido? Essa dúvida costuma vir junto com ansiedade, culpa e medo de decepcionar alguém. Conversar com uma psicóloga ajuda a separar o que é seu do que é expectativa dos outros.

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Por que essa escolha pesa tanto

Faça a conta: quem trabalha 40 horas por semana durante uns 45 anos passa algo perto de 90 mil horas no trabalho. É uma fatia enorme da vida adulta. E o trabalho não ocupa só tempo. Ele organiza a rotina, define com quem a gente convive e entra na forma como a gente se apresenta ao mundo. Pergunte a alguém quem ela é, e boa parte das pessoas responde com a profissão.

Alana lembra que a psicologia do trabalho trata a carreira como um elemento central da vida humana, ligado à identidade e ao bem-estar. Quem se sente realizado no trabalho tende a levar isso para casa, para os relacionamentos e para a saúde. Quem vive estresse e insatisfação constantes também leva, só que no sentido contrário.

O que diz a pesquisa

A teoria da autodeterminação, de Edward Deci e Richard Ryan, propõe que todo ser humano tem três necessidades psicológicas básicas: competência (sentir-se capaz), autonomia (sentir que as próprias ações partem de escolhas suas) e pertencimento (sentir-se conectado a outras pessoas). Uma revisão de Deci, Olafsen e Ryan (2017), publicada no Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, reuniu as pesquisas sobre o tema no ambiente de trabalho: quando essas necessidades são atendidas, as pessoas mostram motivação mais genuína, melhor desempenho e mais bem-estar.

Por isso escolher uma carreira não é só uma questão de salário. Um trabalho bem pago que deixa você se sentindo incapaz, controlada e sozinha cobra um preço que nenhum contracheque cobre.

O que é orientação profissional (e o que ela não é)

A orientação profissional é uma área da psicologia voltada a ajudar as pessoas a fazer escolhas de carreira mais conscientes. Ela não serve só para quem vai prestar vestibular: é muito útil também para quem já está no mercado e pensa em fazer uma transição.

O ponto central é que ela não é um conselho do tipo "faça medicina, você é boa em biologia". É um processo estruturado, com instrumentos e métodos estudados, que conduz a pessoa a uma autodescoberta. A psicóloga não entrega a resposta pronta. Ela ajuda você a reunir as informações sobre si mesma que vão sustentar a sua escolha.

Alana conta a própria história. Entrou na faculdade aos 16 anos, em engenharia de alimentos, uma segunda opção que nem sabia direito o que era. A escolha foi guiada pelos valores dos pais: estabilidade, salário fixo, uma profissão de prestígio. Nos primeiros meses, numa visita a uma indústria de laticínios, ela viu o engenheiro andando pelo chão molhado da fábrica, de botas de borracha, e pensou na hora: eu não me vejo passando meus dias aqui.

Foi o primeiro momento em que ela parou para pensar no dia a dia real de uma profissão. A partir dali, foi pesquisar a fundo, usou as ferramentas que aparecem neste artigo e chegou à psicologia, contra a vontade da família. Hoje tem uma carreira da qual se orgulha. O caminho, nas palavras dela, foi tortuoso.

Eu não acredito que exista só uma carreira certa para cada pessoa. Existem melhores escolhas, escolhas que vão ter mais a ver com você.

Um cuidado importante: nem toda psicóloga é capacitada para fazer orientação profissional. Não é um conteúdo que toda formação cobre, e existem especializações específicas para isso. Se você buscar esse acompanhamento, procure uma profissional com experiência na área.

As 5 ferramentas de uma sessão de orientação profissional

Uma orientação não acontece em uma sessão só. São vários encontros, e em cada um a psicóloga usa ferramentas práticas e reflexivas. Estas são as cinco que Alana destaca no episódio.

1. Questionário de interesses

Parece intuitivo saber do que a gente gosta, mas não é. Os questionários de interesses ajudam a identificar se você tem mais afinidade com atividades práticas, investigativas, artísticas, sociais, de liderança ou de organização. Um dos mais usados no mundo é o Inventário de Interesses de Strong, criado em 1927 por Edward K. Strong Jr. e organizado hoje pelos seis temas da teoria de John Holland.

Alana dá um exemplo. Uma pessoa que adora atividades ao ar livre e se interessa por projetos ecológicos pode descobrir afinidade com biologia, sustentabilidade ou gestão ambiental. Isso não a obriga a seguir esses caminhos. Abre portas para explorar carreiras ligadas ao que de fato a atrai, sem se prender a um rótulo.

O que diz a pesquisa

Interesse não é detalhe. Uma metanálise de Nye, Su, Rounds e Drasgow (2012), publicada na Perspectives on Psychological Science, reuniu 60 estudos com mais de 15 mil participantes e concluiu que os interesses estão relacionados ao desempenho e à persistência, tanto no trabalho quanto nos estudos. A associação ficou mais forte quando os pesquisadores olharam para a compatibilidade entre os interesses da pessoa e o ambiente em que ela estava.

2. Avaliação de habilidades e talentos

Depois do que você gosta, vem o que você sabe fazer bem. Muitas vezes a orientação revela talentos que passam despercebidos porque parecem "normais" para quem os tem. Alana conta que era muito boa em mediar conflitos, tinha uma empatia forte e gostava de ouvir, e mesmo assim menosprezava essas habilidades. Achava que não tinham nada a ver com escolha profissional.

Pense em alguém que organiza todas as festas da família, as viagens dos amigos e os próprios projetos com facilidade. Ao olhar para isso com uma psicóloga, essa pessoa pode perceber um talento natural para planejar e gerir, que aponta para administração, logística, produção de eventos ou até empreendedorismo. Escolher uma carreira em que você já tem um diferencial aumenta a confiança e a chance de dar certo.

3. Identificação de valores e prioridades

Valores são os norteadores das nossas decisões, pessoais e profissionais. Nesta etapa, a pessoa responde a perguntas como: o que é mais importante para mim em um trabalho? Prefiro um ambiente estável ou um que me ofereça desafios constantes?

Quem valoriza segurança financeira dificilmente vai se sentir bem num trabalho sem previsibilidade de ganhos. Quem valoriza inovação e criatividade pode se sentir sufocado num emprego muito engessado. Uma carreira em sintonia com os seus valores diminui a chance de arrependimento lá na frente.

O que diz a pesquisa

Kristof-Brown, Zimmerman e Johnson (2005) reuniram 172 estudos numa metanálise publicada na Personnel Psychology sobre o "ajuste" entre a pessoa e o trabalho: entre as exigências do cargo e as capacidades dela, e entre os valores da organização e os valores dela. Quanto maior o ajuste, maior a satisfação no trabalho e o comprometimento, e menor a intenção de pedir demissão. O resultado se repetiu em contextos muito diferentes.

Na clínica da Psi do Futuro há psicólogas com experiência em orientação profissional e transição de carreira. Ao preencher o formulário, conte que essa é a sua demanda e a gente indica uma profissional que trabalha com isso.

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4. Avaliação de traços de personalidade

A personalidade influencia como a gente se sente e como atua na profissão. A orientação costuma usar o modelo dos cinco grandes fatores, que olha para características como extroversão, amabilidade e estabilidade emocional. Uma pessoa muito extrovertida tende a preferir áreas com interação social constante, como vendas ou atendimento ao público. Alguém mais introvertido pode render melhor em atividades de foco individual, como pesquisa ou tecnologia.

Isso vale até dentro de uma mesma profissão. Alana, que se descreve como introvertida e prefere ouvir a falar, conta que já viu psicólogas muito extrovertidas adoecerem na clínica. O consultório é uma rotina mais solitária: você escuta, o paciente vai embora, e não há a troca de ideias que uma pessoa extrovertida busca. Às vezes a mudança necessária não é de profissão, é de área dentro da profissão.

O que diz a pesquisa

Larson, Rottinghaus e Borgen (2002) fizeram uma série de metanálises, publicadas no Journal of Vocational Behavior, cruzando os inventários de interesses mais usados (entre eles o de Strong) com o principal teste dos cinco grandes fatores. Personalidade e interesses se sobrepõem em parte, mas não são a mesma coisa. Por isso a orientação avalia os dois: um completa o que o outro não mostra.

5. Projeção e visualização de futuro

Perguntas como "onde você se vê daqui a 5 anos?" e "e daqui a 10?" parecem clichê de entrevista de emprego, mas na orientação elas têm outra função. Ajudam a pessoa a enxergar o caminho no curto e no longo prazo e a conectar a carreira com o estilo de vida que ela deseja.

Alguém que se imagina liderando uma equipe e participando de decisões estratégicas pode ter afinidade com cargos de gestão. Alguém que se imagina com tempo livre para os filhos às quatro da tarde vai olhar com outros olhos para uma profissão de plantões. É o mesmo choque que Alana teve na fábrica, só que antes de entrar no curso, e não depois.

Estabilidade ou propósito: o que mudou entre as gerações

Historicamente, as gerações anteriores escolhiam a carreira pela estabilidade e pela necessidade financeira. Medicina, direito e engenharia eram vistas como as melhores escolhas, e as profissões menos convencionais eram desencorajadas. Os pais de Alana fizeram matemática e história não por uma análise cuidadosa, mas porque era o que conseguiam cursar. Poder parar, refletir e mudar de ideia, ela lembra, já é um privilégio.

Essa visão garantiu sustento a muita gente, mas também produziu uma desconexão entre a pessoa e o que ela fazia. Muitos profissionais da geração X e dos baby boomers contam que seguiram carreiras que davam dinheiro e estabilidade, sem realização pessoal.

O que diz a pesquisa

A pesquisa anual da Deloitte com a geração Z e os millennials ouviu cerca de 22.800 pessoas em 44 países na edição de 2024. Para 86% da geração Z e 89% dos millennials, ter um senso de propósito no trabalho é importante para a satisfação e o bem-estar. Muitos dizem que já recusaram tarefas ou empregadores que não combinavam com os seus valores.

A geração Z cresceu no mundo digital, considera profissões que nem existiam há vinte anos e já não vê o diploma universitário como obrigatório para o sucesso. Para muitos pais, isso é difícil de aceitar. Alana, que viveu essa tensão quando trocou de faculdade, sugere não fugir da conversa: com jeito, com tempo e com calma, as coisas tendem a se ajeitar. A troca entre gerações enriquece os dois lados, porque cada uma aprende com os erros e os acertos da outra. Se você quer entender melhor como essa geração lida com as próprias emoções, vale ler Geração Z e saúde mental.

O medo de errar e o valor de experimentar

É normal sentir medo de errar. Muita gente acha que precisa acertar de primeira e fica presa a uma visão limitada das próprias habilidades e interesses. O resultado é a paralisia: na dúvida entre dois caminhos, a pessoa não escolhe nenhum.

Alana propõe outra forma de olhar. Autoconhecimento e escolha de carreira são processos dinâmicos. Escolhas de carreira não são eternas. Tentar algo e descobrir que não era o que você imaginava não é fracasso, é informação: cada tentativa revela suas preferências, seus pontos fortes e até as tarefas que você prefere evitar. Ela mesma é prova disso, já que o semestre em engenharia foi o que a levou à psicologia.

Nada é desperdiçado. Cada tentativa vai revelando algo sobre você.

E hoje há uma vantagem que as gerações anteriores não tinham. Dá para assistir a vídeos sobre a rotina de quase qualquer profissão, fazer cursos curtos, conversar com quem trabalha na área pelo LinkedIn ou pelo Instagram e participar de eventos online. A sugestão dela é experimentar em pequena escala, antes de apostar tudo:

  • Gosta de se comunicar? Crie conteúdo nas redes ou faça um curso de escrita criativa.
  • Tem curiosidade por tecnologia? Faça um curso básico de programação e repare em como você se sente.
  • Pensa em uma área específica? Converse com duas ou três pessoas que trabalham nela e pergunte como é a semana delas, não só o salário.

Essas pequenas experiências vão construindo uma base sólida de autoconhecimento. Quando a decisão grande chegar, você não vai estar escolhendo no escuro.

Cinco passos para escolher ou mudar de carreira

No fim do episódio, Alana resume tudo em cinco dicas práticas. Você pode começar por elas hoje, com papel e caneta.

  1. Liste suas paixões e interesses. O que você faz sem ver o tempo passar? Sobre o que você lê por vontade própria?
  2. Identifique suas habilidades transferíveis. Se você pensa em mudar de área, veja o que leva junto. Comunicação, gestão do tempo e organização valem em quase todas as profissões.
  3. Estabeleça prioridades e valores. Flexibilidade de horário, estabilidade financeira, propósito: o que pesa mais para você agora?
  4. Explore seus traços de personalidade. Você recarrega sozinha ou com gente? Prefere rotina previsível ou novidade? A resposta muda o tipo de ambiente em que você vai render.
  5. Faça testes vocacionais e de personalidade. De preferência com uma psicóloga, que sabe aplicar e, principalmente, interpretar os resultados com você.

Quando a dúvida sobre a carreira vem acompanhada de ansiedade, insônia, sensação de estar perdida ou de ter fracassado, ela já não é só uma questão profissional. Muitas vezes há um esgotamento por trás. Se é o seu caso, leia também sobre os sintomas de burnout. A terapia ajuda a cuidar disso e, ao mesmo tempo, a pensar o próximo passo com mais clareza.

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Psicologia na Prática, com Alana Anijar.

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Referências

  1. Deci, E. L., Olafsen, A. H., & Ryan, R. M. (2017). Self-determination theory in work organizations: The state of a science. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, 4, 19-43. doi:10.1146/annurev-orgpsych-032516-113108
  2. Deloitte. (2024). 2024 Gen Z and Millennial Survey: Living and working with purpose in a transforming world. deloitte.com
  3. Holland, J. L. (1959). A theory of vocational choice. Journal of Counseling Psychology, 6(1), 35-45. doi:10.1037/h0040767
  4. Kristof-Brown, A. L., Zimmerman, R. D., & Johnson, E. C. (2005). Consequences of individuals' fit at work: A meta-analysis of person-job, person-organization, person-group, and person-supervisor fit. Personnel Psychology, 58(2), 281-342. doi:10.1111/j.1744-6570.2005.00672.x
  5. Larson, L. M., Rottinghaus, P. J., & Borgen, F. H. (2002). Meta-analyses of Big Six interests and Big Five personality factors. Journal of Vocational Behavior, 61(2), 217-239. doi:10.1006/jvbe.2001.1854
  6. Nye, C. D., Su, R., Rounds, J., & Drasgow, F. (2012). Vocational interests and performance: A quantitative summary of over 60 years of research. Perspectives on Psychological Science, 7(4), 384-403. doi:10.1177/1745691612449021

Este conteúdo é informativo e não substitui atendimento psicológico ou psiquiátrico. Se você está passando por sofrimento intenso ou tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, número 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU).

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Alana Anijar

Psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Apresenta o Psicologia na Prática, com novos episódios toda terça-feira, e fundou a Psi do Futuro em 2020 ao lado de Israel Anijar. A clínica soma mais de 150 mil atendimentos realizados.

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